Rua Ezequiel Remos, Centro de Bauru, altas horas da noite. Fingindo ser prostitutas, quatro mulheres permanecem na esquina à espera de clientes. Três rapazes (aparentando ter menos de 18 anos) chegam ao local e abordam as garotas.
Eles não estão em busca de sexo, mas sim de crack. As mulheres em questão são traficantes e utilizam a prostituição como fachada para a atividade criminosa que desenvolvem. O comércio parece rolar solto quando, de repente, surge uma viatura da Polícia Militar (PM).
“Olha a Blazer”, diz uma delas, referindo-se ao carro da PM.
“Põe na boca, põe na boca!”, grita outra (certamente, ela queria que a colega engolisse a droga).
“F...”, diz uma terceira.
Os policiais descem da viatura e revistam a todos, tanto as traficantes quanto os clientes. Depois, os agentes determinam que os rapazes e as mulheres permaneçam sentados à porta de uma loja. Em seguida, chamam um dos garotos de lado e começam a interrogá-lo.
As mulheres não fazem idéia do teor da conversa, mas imaginam do que se trata, por isso resolvem mandar uma aviso: “Cagüeta morre cedo”. O rapaz sabe que se “der com a língua nos dentes”, acabará morto.
Esse relato não tem nada de ficcional; é apenas a descrição de uma operação feita pela PM há cerca de três anos. Na ocasião, as autoridades conseguiram desmontar uma “boca” que funcionava no Centro há vários anos. Nove pessoas acabaram presas naquele dia.
O recado dado pela traficante ao cliente que era questionado pelos policiais é um exemplo de como funcionam as coisas no mundo das drogas. Existe uma lei rigorosa, que é a do patrão (a pessoa que controla o tráfico). Quem a obedece sairá ileso e viverá tranqüilo. Quem a desacata (independentemente do motivo) sofrerá sanções graves.
No universo do tráfico, os “delitos” podem ser classificados em dois tipos básicos, segundo a sua natureza. De um lado, existem os “crimes” contra o patrimônio, que, em geral, estão relacionados à questões financeiras (quando, por exemplo, alguém fica devendo para o “patrão” e não paga).
“Conheci um rapaz, na zona norte, que pegou uma pedra de crack na boca e não pagou. Tempos depois, ele voltou até lá para comprar mais droga. O traficante aceitou, então, “financiar” mais uma ‘parada’ (porção de aproximadamente quatro gramas) para o cara”, conta Alberto (nome fictício), 22 anos, ex-dependente químico que, durante pouco mais de um mês, atuou na venda de entorpecentes na região oeste de Bauru.
“Em vez de levar apenas uma pedra, o cara acabou pegando duas, prometendo que iria pagar. O traficante ainda falou para ele: ‘Só quero ver, hein?! Você que não me paga, que vai ver só’. Dias depois, esse rapaz apareceu morto em um matagal perto do Mary Dota, com dois tiros na cabeça”, recorda-se Alberto. A vítima em questão acabou morta porque deixou de pagar R$ 30,00 (valor das três pedras de crack) ao dono da “boca”.
Antes de ser assassinada, a vítima em questão poderia ter sofrido outras formas de punição, como espancamento sumário ou tortura psicológica (ter a família ameaçada pelos traficantes, por exemplo). Se ele tivesse incorrido no outro tipo básico de delito (os contra a instituição criminosa ou de ‘lesa majestade’), não haveria escapatória - acabaria no mesmo destino dos cagüetas descritos no início da matéria.