Bairros

Onde encontrar o Japão em Bauru

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Em Bauru, encontrar japoneses e um pouco da cultura do povo da terra do sol nascente é fácil. No ano em que a imigração japonesa ao Brasil comemora 100 anos, bairros como a Vila Independência e cartões postais como a Praça das Cerejeiras e a Igreja Tenrikyo, avistada de vários pontos da cidade, reforçam a importância do trabalho e cultura desses imigrantes e seus descendentes para o desenvolvimento do município.

Atualmente, vivem em Bauru 2.200 famílias, das quais descendem cerca de 8 mil pessoas, segundo Julio Akio Kosaka, presidente do Clube Nipo Brasileiro de Bauru. “Existe ainda uma pequena população flutuante, cerca de 400 japoneses que possuem ligação com Bauru, mas por um motivo ou por outro residem fora daqui”, lembra Kosaka.

Muitas dessas famílias estão fixadas em dois bairros. A Vila Independência, na zona oeste, inaugurada em meados dos anos 30, é considerada o maior reduto da comunidade japonesa em Bauru. Além dela, boa parte dos nikkeis (filhos de japoneses nascidos no Brasil) também reside na Vila Nipônica.

Um dos bairros mais antigos de Bauru, a Vila Independência ainda respira a tradição japonesa. Fundado pelos primeiros imigrantes japoneses e inicialmente chamado de Água do Sobrado, o local foi escolhido pelos imigrantes pela existência de um córrego que oferecida água em abundância, utilizada pelos imigrantes na irrigação das suas plantações.

Com o passar dos anos, já chamada de Vila Independência, o local transformou-se no preferido da colônia japonesa em Bauru. Organizados, os imigrantes criaram a Associação Cultural Okinawa Água do Sobrado (Acoas), que existe até hoje no bairro. O nome foi escolhido por ser também a cidade do Japão de onde milhares de japoneses saíram com destino ao Brasil, em busca de uma vida melhor.

Se os primeiros imigrantes que chegaram a Bauru eram pequenos agricultores, os filhos dessas pessoas mudaram um pouco essa história. Hoje o comércio é o ponto forte da comunidade japonesa em Bauru.

Eles estão em todos os ramos: nas floriculturas, quitandas, supermercados, oficinas mecânicas, além de outras áreas. No bairro, a economia está exclusivamente ligada à comunidade japonesa, que ao longo da avenida Castelo Branco mantém seus pontos comerciais.

Ainda existem pequenas chácaras que dividem espaço com o cenário urbano do bairro. Nesses locais, os filhos dos imigrantes ainda mantém viva a tradição da agricultura, que por muitos anos subsidiou a sobrevivência dos primeiros japoneses em Bauru. Nesses locais, famílias ainda cultivam hortaliças, frutas e mantêm o setor granjeiro ativo.

Andando pelo bairro, percebe-se que a arquitetura japonesa está presente em alguns prédios históricos. O templo da Igreja Missionária Tenrikyo, sede nacional da Igreja no Brasil, é um locais que mantém essa tradição. Quem visita o local se encanta e diz se sentir como se estivesse na terra do sol nascente.

A igreja surgiu em 1939, construída pela comunidade japonesa que reside no bairro. O templo é considerado um local de confraternização da comunidade. E, por isso, seus freqüentadores fizeram com que a igreja crescesse rapidamente.

Além dessas construções históricas, na rotatória de acesso ao bairro existe a praça Reverendo Chujiro Otake, pioneiro da igreja Tenrikyo no Brasil. Na praça também foi construído um grande relógio do sol, de muita importância cultural e funcional.

____________________

Época difícil

Com a intenção de ganhar dinheiro e retornar em pouco tempo para o Japão, as primeiras famílias de japoneses chegaram a Bauru pela estrada de ferro, em 1914. João Tensotaba conta que a família passou por muitas dificuldades ao se instalar em Bauru.

Nascido em 1933, Tensotaba chegou a Bauru dez anos depois, na companhia dos pais e de mais cinco irmãos. Como o pai faleceu cedo, dois anos após a chegada, a mãe e os filhos enfrentaram muitas dificuldades e tiveram que contar com a ajuda de familiares que já viviam na cidade e de amigos. “Durante a 2º Guerra Mundial todos nós éramos hostilizados e vistos com ressalvas pelos demais moradores”, lembra.

Giro Ishicava, 89 anos, e a esposa, Mitue Ishicava, 81 anos, chegaram a Bauru ainda pequenos e junto com os pais trabalharam na lavoura. Casados há exatos 60 anos, os dois lembram que a fé foi quem manteve a família em Bauru.

“Parte da minha vida foi dedicada a cuidar do templo Tenrikyo”, conta Ishicava. Além disso foi o primeiro nikkei (filho de japoneses nascidos no Brasil) a assumir um cargo eletivo na cidade em 1956. “Houve um plebiscito aqui na Independência e eu fui escolhido”, recorda. Ishicava foi eleito ainda outras cinco vezes vereador na cidade.

Mário Kioshi Toban permanece até hoje no sítio adquirido por seus pais depois de muito trabalhar na lavoura em Bauru. As condições de trabalho eram subumanas, relata. “Meus pais trabalham desde a saída do sol até o anoitecer, só depois de muito tempo foi que eles conseguiram comprar um pedacinho de terra”, lembra. “Apesar da difícil realidade encontrada na região, ninguém desistia de voltar para o Japão, só com a guerra que eles se convenceram que o Brasil seria sua nova terra”, completa.

____________________

Homenagens

Mesmo tendo a vila Independência e Nipônica, na zona oeste, como principais redutos da comunidade japonesa em Bauru, outros bairros espalhados pela cidade também registram um pouco da história da comunidade Nipo. São praças, rotatórias, ruas, pontes e até um núcleo habitacional que longo do tempo receberam o nome de imigrantes que fizeram parte da história da cidade.

Até o momento são 74 pontos em vários bairros da cidade com nomes de imigrantes e seus filhos. A maior parte das homenagens foi feita nas ruas existentes na cidade. Kaneaki Ijuim, na Vila Nipônica; Finio Toshida, no Jardim Santos Dumont; Takuji Takanaka, na Pousada da Esperança, e Shigeo Matsumoto, no Núcleo Nobuji Nagasawa, são alguns exemplos de japoneses homenageados em Bauru. Uma praça localizada na Vila Bechel e uma alameda no Vale do Igapó receberam o nome de Japão em homenagem.

As cerejeiras, tão tradicionais no país do sol nascente, também foram lembradas e deram o nome à praça inaugurada em 1958 em comemoração ao 50º aniversário da imigração japonesa no Brasil. Para o centenário está prevista uma remodelação do local.

Bauru pretende outra vez presentear a comunidade japonesa que vive na cidade com entrega de outra praça, desta vez para marcar o centenário da imigração. Localizada na divisa entre os jardins Terra Branca e Eugênia, será denominada “Kasato Maru”, mesmo nome da embarcação que atracou no porto de Santos, em 18 de junho de 1908, trazendo as primeiras famílias japonesas que desembarcaram no Brasil.

Comentários

Comentários