O escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão ministro uma palestra na 8.ª Feira do Livro e participantes da Oficina de Repórter Mirim do JC aproveitaram para conhecer um pouco mais sobre o autor, que escreve de tudo: de romance a livros infantis. Confira os principais trechos da entrevista.
Quando você era criança já queria ser escritor?
Eu não tinha idéia do que era ser escritor, mas eu já gostava de escrever. Quando eu era criança, a redação chamava-se composição. E a melhor redação era minha porque eu lia muito. Eu sempre dava um final diferente para as minhas redações. Eu já gostava de inventar. Talvez eu já fosse um escritor porque escritor inventa, imagina, mas nunca imaginei que eu seria um escritor, apesar de ser uma coisa que eu gostava de fazer.
Quantos livros infantis você tem?
Tenho três e estou para lançar o quarto. O que eu lancei no ano passado, “O menino que vendia palavras”, ganhou o prêmio Fundação Biblioteca Nacional como o melhor infantil do ano. Nessa idade, eu vim a fazer um infantil. Mas foi uma memória de infância. Eu gostava de palavras, meu pai gostava de palavras. A professora dava lista de sinônimos e eu sempre ganhava com a melhor nota. Aí os meus amigos pediam: faz o meu, me ajuda. Aí, um dia, eu disse assim: “- Ajudar de graça? Eu não! Me dá uma bolinha, me dá um sorvete, me dá uma bala” e aí eu trocava. Eu era profissional (risos). Tinha que dar um jeitinho. Viver a vida (risos). Essa coisa veio e eu escrevi um conto, que depois transformei em “O menino que vendia palavras”.
Você gosta de escrever mais durante o dia ou à noite?
É uma pergunta engraçada. Entre os 20 e 30 anos eu escrevia à noite. Hoje, eu escrevo de manhã. Escrevo entre 5 da manhã e 10 da manhã.
Você já doou alguns de seus livros?
Sim, já doei centenas de livros, pois se eu vou em algum lugar (bibliotecas) que não tem meus livros e se eu tenho uma mala com os meus livros, eu dôo alguns. Eu mando a editora mandar para bibliotecas de bairros. Não dôo só os meus, como também dos outros. Eu recebo muitos livros. Os que me interessam, eu guardo. Os que não me interessam, mas são bons, eu dôo. Se é um livro de ficção, eu leio e dôo para alguém.
Que tipo de história você gosta de escrever?
Eu já escrevi história de luta de boxe, de futebol, de bandido, de amor. Eu já escrevi história de menino que vende palavras e as memórias da minha cidade. A gente não escolhe, a gente só escreve...
Você tem orgulho de ser do Interior?
Olha, eu não tenho culpa de ser do Interior (risos). Eu tive uma infância muito legal. Vocês têm um tipo de infância, eu tive outro. Acho boa a minha infância porque, como não tinha muito brinquedo, a gente tinha que inventar. E aí então você usava muita fantasia. Talvez até hoje eu tenha que usar a fantasia para viver. Eu sempre achei a vida no Interior muito legal.
Você já tem um novo livro infantil?
Já tenho: “Os olhos dos cavalos loucos”. O meu avô, pai do meu pai, era marceneiro. E um homem de uma habilidade enorme. E um dia ele viu a fotografia de um carrossel e pôs na cabeça que iria fazer um. Na cidade de Matão, ele ia no mato, derrubava árvore, esculpia os cavalos, levava meses para fazer um, fez oito ou dez cavalos, fez a plataforma e ele andava com isso de cidade em cidade num carro de boi. Esse carrossel um dia pegou fogo. Porque era lampião de querosene, não tinha eletricidade. E tudo o que sobrou foram os olhos. Umas bolinhas de vidro. Ele fazia o buraco na madeira e colava a bolinha. E ele tinha uma gaveta na bancada de marceneiro onde guardava as bolinhas. E agente perguntava: “- O que é isso, vô?”. E ele dizia: “- São os olhos dos meus cavalos”. E ele não deixava a gente brincar, mas a gente roubava a bolinha do avô, perdia e um dia só tinha só um monte de bolinha branca. E essas bolas eram os olhos dos cavalos loucos, porque não tinha cor (risos). Eu estou recuperando essa história do meu avô.
Com quantos anos você escreveu o seu primeiro livro?
O primeiro, para valer, eu tinha 22 anos. Mas eu escrevi quatro ou cinco que eu joguei fora porque eram muito ruins. Mas o primeiro que eu escrevi para valer foi publicado quando eu tinha 29 anos.
Tem algum livro que você mais gosta?
Tem. É um livro chamado “Dentes ao sol”. Esse foi um fracasso de vendas, não sei por que. O grande mistério é esse. Você não sabe o que vai acontecer. Você publica e ó (bate palmas) e aí não é mais seu, aí você não sabe nada. O leitor gosta, você não sabe porque gosta.
Que dica você dá para escrever...
Eu ando o tempo inteiro com um cadernetinha, onde eu anoto coisas. Coisas que me contam, frases que eu ouço...
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Quem é
Ignácio de Loyola Brandão 50 anos de escritor 72 anos de idade Local de nascimento: Araraquara
Romances
“Bebel que a cidade comeu”. Brasiliense, 1968.
“Zero”. Brasília/Rio, 1975.
“Dentes ao sol”. Brasília/Rio, 1976.
“Não verás país nenhum”. Codecri, 1981.
“O beijo não vem da boca”. Global, 1985.
“O ganhador”. Global, 1987.
“O anjo do adeus”. Global, 1995.
“A altura e a largura do nada”. 2006
Infanto-juvenis
“Cães danados”. Belo Horizonte Comunicações, 1977. Reescrito e publicado com o título “O menino que não teve medo do medo”. Global, 1995.
“O homem que espalhou o deserto”. Ground, 1989.
“O menino que vendia palavras”. 2007
Repórteres mirins: Yasmin Frank, 8 anos, 3.ª série da Criarte, e Lívia Rodrigues, 8 anos, 3.ª série da Criarte.