Regional

Médio Tietê é pólo sucroalcooleiro nacional

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 5 min

Época de crises do setor canavieiro, declarações negativas de órgãos internacionais em relação ao biocombustível e, mesmo assim, a cana-de-açúcar continua a crescer e ser cortada num ciclo ininterrupto. Tornando parte das estradas do Centro-Sul um mar verde, a maior área de cultivo de cana-de-açúcar do Brasil. Dentre os milhares de hectares dedicados à essa cultura, as 13 cidades do Médio Tietê se destacam entre os cinco maiores grupos produtores do País. O resultado é o impulso econômico e empregatício dos municípios.

Segundo um dos diretores da Associação dos Plantadores de Cana do Médio Tietê (Ascana), Luiz Carlos Dalbén, 53 anos, a situação da lavoura e comercialização de cana-de-açúcar para Lençóis Paulista e região, apesar dos preços no setor passar por uma crise em nível nacional, está dentro de sua normalidade. “Tivemos um aumento pouco expressivo em termos de área, mas a produção deve se manter nos moldes do ano passado, já que passamos por um período de seca”, explica.

A crise se deve à defasagem do preço pago ao produtor por tonelada, mantido a, aproximadamente, R$ 36,00, mesmo valor cobrado durante a safra de 2004. De acordo com a Ascana, essa situação é vista no mercado brasileiro como um todo e se motiva, em parte, pelo aumento do número de usinas e, conseqüentemente, da oferta de produtos de cana não absorvidos associados ao aumento do custo de mão-de-obra, insumos e tecnologias. Apesar disso, o comércio dessa gramínea doce vislumbra lucros. “Cana é uma cultura semiperene. Ao ser plantada ela ‘dura’ por quatro ou cinco anos sem exigir o replantio, isso causa, mesmo em curvas descendentes, a manutenção do mercado”, completa Dalbén.

Mesmo com preços baixos, a perscpectiva de moagem de duas das principais usinas atendidas pela Ascana é de quase 3 milhões de toneladas a mais do que na safra 2006/2007. “As usinas Barra Grande e São José processaram, juntas 7 milhões e 200 mil toneladas de cana ano passado, o aumento para esta safra está ligado ao consumo externo, além do aumento da área de plantio”, esclarece o diretor. Para resistir às flutuações de preço, a receita é financiar através de cartas do Banco do Brasil e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes).

A verdade é que mesmo em tempos menos áureos os números são grandiosos. Só na região de Lençóis Paulista, no Médio Tietê, são 130 mil hectares plantados e a geração de empregos chega a 10 mil vagas em épocas de safra. Tal imagem determina a estimulação da economia regional em termos de serviços e produtos. “O mercado sucro-alcooleiro tende a continuar gerando empregos, mas este número tende a diminuir pela mecanização e controle da queima. Porém, esta é uma situação de médio a longo prazo com reflexos na qualificação profissional”, completa Daibén.

Para finalizar o panorama canavieiro do Médio Tietê, é imprescindível que se diga que os mais de 7 milhões de toneladas colhidas na safra 2006/2007 movimentaram R$290 milhões. Em termos nacionais a safra anterior (2006/2007) gerou 431 milhões de toneladas de cana, movimentando R$ 41 bilhões, ou seja, 3,65% do Produto Interno Bruto (PIB). No País, a geração de empregos diretos e indiretos no setor chega a quatro milhões. Foram produzidos 30 milhões de toneladas de açúcar e 17,5 bilhões de litros de álcool.

A estimativa para 2008 é de que o aumento do volume de negócios no Centro-Sul seja da ordem de 8 a 10% entre a produção de açúcar, álcool, energia e leveduras – estas exportadas. A produção deste ano deve pender para o uso da cana para o álcool (55%), com uma diferença positiva de 10% em relação ao açúcar (45%).

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Amplo mercado e a ONU

O cultivo da cana-de-açúcar gira em torno de um mercado amplo e lucrativo, mas também aliado as questões ambientais como o “seqüestro” de gás carbônico e a produção de biocombustíveis. O último, tratado como a solução limpa aos combustíveis fósseis, foi “colocado contra a parede” por um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU).

O documento em questão trata a produção em massa de biocombustíveis como “um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos” devido à área destinada ao plantio. Em resposta ao órgão, o diretor da Ascana garante que esta é uma forma de especulação, ao menos no que se refere à cana, já que a expansão dos campos de plantações substituiria pastagens e não lavouras alimentícias.

“Nós temos no Brasil 200 milhões de hectares de pastagem, dos quais a metade está degradada. A cana não ocupa espaço de alimento ou de reservas ambientais e florestas, mas sim pastos como em Minas Gerais e no cerrado goiano e oeste paulista”, conclui. Ainda segundo Dalbén, a produção de biocombustível com base na cana-de-açúcar não pode ser comparada à baseada no milho, como a que ocorre nos Estados Unidos.

Dalbén garante que, assim como o dito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerar que o aumento da área de canaviais cultivados suprime plantações alimentícias é reviver as declarações contrárias ao Pró-Álcool, na década de 70. Uma tentativa de frear o maior produtor de cana e álcool do mundo, o Brasil.

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Ascana

A Associação dos Plantadores de Cana do Médio Tietê (Ascana) foi fundada em 1959 e congrega hoje 13 municípios e 520 produtores de cana-de-açúcar. A entidade surgiu para representar os pequenos produtores que, antigamente, tinham suas lavouras controladas pelas usinas sucro-alcooleiras.

Hoje, a Ascana além de intermediar a relação campo-indústria, mantém representações em órgão de classe como a organização dos Plantadores de cana da Região Centr-Sul do Brasil (Orplana) e o Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo).

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