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Memória: Senna: 14 anos depois, cada vez mais ídolo

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 6 min

Se você tem menos de 22 anos, pode não se lembrar das manhãs de domingo que começavam com uma vitória de Ayrton Senna, do piloto levando a bandeira brasileira na volta de comemoração e do hino nacional brasileiro tocado no alto do pódio. Mas certamente já ouviu alguém dizer que Senna é o maior piloto de todos os tempos.

Numa época em que a Fórmula 1 não se decidia em voltas lançadas antes das paradas nos boxes, os carros andavam com motores turbo, os pilotos conseguiam pegar o vácuo para ultrapassar e decidiam no braço e nas freadas no final das retas os resultados, o brasileiro reinava.

Reinava, mas com adversários de respeito. Senna correu com “monstros” do automobilismo, como o francês Alain Prost, seu principal rival, tetracampeão de F-1 e que ganhou o apelido de professor, o austríaco Niki Lauda, o britânico Nigel Mansell, o "Leão", e com o também brasileiro Nélson Piquet.

Eram outros tempos, de uma outra Fórmula 1. Uma Fórmula 1 mais perigosa, que fazia vítimas fatais com certa freqüência. Um final de semana fatídico em Ímola mudou isso. No sábado, o austríaco Roland Ratzenberger morreu ao volante de uma Simtek. No domingo, foi a vez de Ayrton Senna, tricampeão mundial e principal estrela do automobilismo, perder a vida na curva Tamburello a bordo de sua Williams, na sétima volta do GP de San Marino. A repercussão foi enorme, a F-1 foi abalada e, a partir dali, houve consenso de que a segurança seria o principal foco da categoria.

Aquele domingo que deixou o Brasil de luto foi há exatamente 14 anos, no dia 1º de maio de 1994. À comoção que se seguiu, veio a transformação do ídolo em mito. Um mito justificado pela trajetória e currículo de Ayrton Senna, cuja marca maior sempre foi a mensagem de ser um predestinado a vencer. “Gênio da Chuva” e “Rei de Mônaco” foram alguns dos “títulos” que Senna ganhou.

Hoje, 14 anos após sua morte, Senna continua a ser venerado em todo mundo como um deus das pistas. Foi para falar de Senna que o Jornal da Cidade ouviu dois especialistas em automobilismo e fãs inveterados do piloto.

Os bauruenses Sulaiman Aziz e Daniel Gimenes acompanham automobilismo, e principalmente F-1, há mais de 20 anos. Viram desfilar pelo asfalto dos autódromos do mundo vários pilotos, mas não têm dúvida em apontar Senna como o maior de todos. Cada um ao seu estilo, Gimenes mais racional e Aziz mais passional, falaram ao JC sobre a paixão pelo tricampeão mundial. “Sou fã do Senna. Ele (Aziz) é viúva”, já adianta Gimenes.

JC - Como surgiu a paixão por Ayrton Senna?

Aziz - Comecei a acompanhar Fórmula 1 com o Piquet, desde que passei a ter idade para entender. Aí o Senna surgiu, aquele garoto do capacete amarelo. A primeira corrida que assisti dele, em 1984, foi a de Mônaco, que ele chegou em segundo e fez aquele estardalhaço (época em que o piloto corria pela pequena Toleman). Em que ele passou o Prost e tiraram a vitória dele com uma roubalheira. Já começaram a meter a mão ali (em tom de brincadeira). Aí foi paixão. Comecei a guardar coisas. E nem lembrava mais que o Piquet existia (rindo). Quando aconteceu o acidente, em 1994, que a gente percebeu o quanto gostava dele. Tudo que via, livros, revistas, ia comprando e guardando. Uma fixação total. Fiquei muitos anos sem assistir Fórmula 1. Fiz até um juramento de que nunca mais iria assistir. Mas a gente acompanha. Mas sempre comparando. Você vê um cara fazendo uma curva e pensa: o Senna fazia isso 50 mil vezes melhor. As vitórias dele não saem da cabeça.

Gimenes - Eu sou mais racional. Eu digo que nasci fã do Senna. Comecei a acompanhar F-1 primeiro com o Piquet e depois a acompanhar o Senna também. Só que eu gosto de carro de F-1.

JC - O que é Ayrton Senna?

Gimenes - Garra, concentração, vontade de vencer. O prazer em ter uma boa briga na pista. Para ele, esse negócio de largar na frente e sumir não era muito legal. A gente percebe isso. Uma vez ele teve um duelo com o Jean Alesi, no Grande Prêmio dos Estados Unidos, em 1990, em Phoenix. O Alesi começando na F-1, novato, peitando o Senna (o brasileiro venceu o duelo e a corrida). No final, o Senna disse que era nestes momentos que ele tinha prazer na profissão. A comparação com o outro lá (Michael Schumacher) e sempre isso aí. Quando ele (Schumacher) tinha de brigar com alguém, ele saía reclamando que tentaram matá-lo e muitas vezes falhava. Então, a gente percebe claramente a diferença. Na verdade, nem comparo, pois quem é comparado com um piloto que já morreu deve ser bem inferior a ele. Se fosse superior, não era nem comparado. O Schumacher sempre vai ter este fantasma, pode ganhar 39 Campeonatos Mundiais, mas não é o Ayrton Senna.

JC – Quais feitos são inesquecíveis na pista (e fora dela)?

Aziz - Na minha opinião, a volta dos sonhos de qualquer piloto, que ninguém mais vai conseguir fazer, é em Donington Park (Inglaterra), em 1993 (GP da Europa, vitória de Senna). Aquela volta em que ele estava em quinto, o Schumacher (quarto colocado) tentou jogá-lo para fora da pista, ele saiu com a roda entre a grama e uma faixa branca, voltou para o meio, deu xis maravilhoso no Schumacher, atacou o Karl Wendlinger, piloto da Sauber. Até hoje - já li isso em muitos livros - consideram impossível fazer a curva por fora. Ele fez uma espécie de tobogã por fora, passou e chegou nas Williams. Deu um elástico no Damon Hill (segundo colocado) e o Prost foi conseqüência. Dirigindo com pneu slic (lisos). São vários feitos, mas esse ficou marcado, porque ele deu uma volta em todo mundo. Só não deu uma volta no segundo colocado porque estava cansado. Aquela corrida mostrou o quanto ele era supremo.

Gimenes - Os feitos do Senna até hoje não foram igualados. Não digo que não surja alguém que não possa superá-lo em talento. Pode surgir. Mas vivemos uma época completamente oposta para que surja um talento como ele. Então, um Ayrton Senna hoje seria prejudicado por um carro muito eletrônico, apesar de estarem tirando alguns componentes eletrônicos. O que a gente admira mais no Ayrton Senna são as vitórias pessoais dele, tanto na pista quanto fora dela. Primeiro, por ser sul-americano correndo contra toda uma estrutura européia. Queira sim, queira não tem sempre um certo patriotismo e ele conquistou o respeito lá. Outra coisa importante foi o respeito dos japoneses da Honda. Neste tempo em que estou por lá (Gimenes vive no Japão e está de férias no Brasil), percebo que os japoneses respeitam quem trabalha. Você tem de demonstrar trabalho, mostrar competência. Ele conseguiu o respeito deles, uma montadora que ia para onde o Senna estava, os projetos dependiam da palavra do Senna. Um homem que, depois de morto, já ajudou mais de 10 milhões de crianças, com o Instituto Ayrton Senna, realmente foi especial.

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Senna em números

Anos 1984 - 1994

Equipes: Toleman-Hart, Lotus-Renault, Lotus-Honda, McLaren-Honda, McLaren-Ford e Williams-Renault

GPs disputados: 162

Títulos: 3 (1988, 1990 e 1991)

Vitórias: 41

Pódios: 80

Pontos: 614

Pole positions: 65

Voltas mais rápidas: 19

Primeiro GP: Grande Prêmio do Brasil, 1984

Primeira vitória: Grande Prêmio de Portugal, 1985

Último GP: Grande Prêmio de San Marino, 1994

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