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Trânsito na veia

Por Iara Biderman | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

No mundo, chegamos à marca de 1 bilhão de veículos; somente em São Paulo, Capital, são 6 milhões, segundo dado divulgado pela Organização Mundial da Indústria Automobilística. Onde vamos parar? Já paramos.

Entre um e outro congestionamento e entre a primeira e a segunda marcha e vários minutos com o câmbio no ponto morto, o corpo sofre os efeitos do caos urbano. Mas nem sempre os motoristas percebem todas as conseqüências das horas passadas em congestionamentos.

Sergio Luis Horta, 41, convive com o trânsito desde os 13 anos - quando começou a ajudar seus pais no trabalho com transporte escolar. Ao tirar a carteira de habilitação, ele assumiu o posto no volante e, até hoje, segue uma rotina que começa às 5h, quando sai de casa com sua moto para pegar o veículo escolar na garagem, e termina por volta das 20h, depois de entregar a última criança em casa.

Ele sabe que as 15 horas rodando pelas ruas de São Paulo afetam de diferentes maneiras seu organismo, mas os efeitos do trânsito ainda podem pegá-lo de surpresa. “Comecei a sentir dores no joelho, mas levei seis meses para descobrir que elas eram causadas por ficar muitas horas sentado no carro”, conta Sergio.

O motorista descobriu o motivo de suas dores na época das férias escolares - foi só parar de enfrentar o trânsito diário que elas sumiram. Para driblar o problema, ele adaptou o modo de sentar e evita fazer movimentos bruscos com as pernas. Mas nem tudo é contornável. “Estou sempre com o pescoço e os ombros retesados e doloridos. Já fiz acupuntura, fisioterapia, mas não adianta. Já aprendi a conviver com a dor.”

A tensão na base do pescoço também causa dores de cabeça, outro sintoma crônico. Por causa de sua profissão, Sergio é quase uma bula dos efeitos colaterais do trânsito. Além das dores musculares, nas articulações e na cabeça, é comum ficar com os olhos irritados, principalmente nos dias mais poluídos. E, de um ano para cá, começou a sentir irritação na garganta. Para aliviar o estresse, futebol e um pouco de silêncio quando retorna do trabalho.

Pânico

Mas nem todo mundo administra bem o estresse. “Vendi meu carro! Não suporto o trânsito”, diz a publicitária Yeda Timerman, 31. A história de ódio começou em 2004, quando Yeda ficou presa em um congestionamento na zona sul de São Paulo e teve uma crise de pânico. “Comecei a sentir falta de ar, secura na boca, o cinto de segurança me sufocava”, lembra a publicitária, que teve de descer do automóvel e pedir ajuda na primeira loja que viu.

O peculiar, no caso de Yeda, é que ela só tem as crises de pânico nas situações em que está dentro de um carro, parada por causa do famoso “excesso de veículos”. Ela afirma que as pressões do trabalho não a afetam e que não tem medo de dirigir. “Se for para viajar, pegando uma estrada vazia, está tudo ótimo.”

Para ela, a única solução para o seu problema é não dirigir em locais com muito trânsito. Ela também procura horários alternativos e vai de carona ou de táxi - uma forma de se distrair, conversando ou lendo algo.. As horas na piscina diminuem o estresse e permitem que Yeda só volte para casa (de carona) quando o trânsito já está fluindo.

O estresse crônico é o mais citado efeito do trânsito na saúde. “Presa no trânsito, a pessoa sofre um desgaste emocional muito grande. Isso pode se manifestar sob a forma de violência, o que, além do risco de causar danos a terceiros e à própria pessoa, cria mais um fator de tensão”, diz Dirceu Rodrigues Alves Jr., chefe do departamento de medicina ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

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Poluições

Um problema que atinge tanto os motoristas quanto os pedestres é a poluição sonora causada pela combinação dos ruídos de motores e do uso insistente e excessivo das buzinas. “Hoje, considera-se como limite a exposição a até 85 decibéis por oito horas. No horário de pico, chega-se facilmente a 90 decibéis. Parece pouco, mas, a cada cinco decibéis, a quantidade de pressão sonora dobra”, diz Ektor Onishi, coordenador da campanha nacional de saúde auditiva da Sociedade Brasileira de Otologia.

A exposição a níveis excessivos de ruído pode levar à perda auditiva. Também causa sintomas como o zumbido no ouvido. “Como efeito do excesso de ruído, os sintomas mais comuns são dor de cabeça crônica, pressão alta, insônia e problemas gastrointestinais”, enumera Onishi.

Como usar protetores auriculares é proibido pela legislação de trânsito, fechar as janelas do carro é o que resta para os motoristas. Janelas fechadas também diminuem a exposição à poluição atmosférica, outra fonte de problemas de saúde que tem relação direta com o números de carros nas ruas.

Nesse caso, os pedestres são os mais atingidos. A poluição gerada pelos veículos causa uma série de problemas no aparelho respiratório, como sinusite e bronquite asmática, além de irritação nos olhos e nas mucosas. Um alerta de Dirceu Rodrigues Alves Jr., chefe do departamento de medicina ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), é que o recurso de fechar as janelas pode levar a um outro problema.

“A maioria das pessoas se esquece de fazer a limpeza e a manutenção do ar-condicionado, que costuma ser acionado quando o carro está todo fechado. Sem limpeza periódica, os condutos do aparelho servem como meio de cultura de microorganismos, como vírus e bactérias, que podem causar infecções e alergias respiratórias”, diz o médico, que recomenda manutenção e limpeza do aparelho a cada três meses.

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