(A respeito do artigo “A realidade do impossível”, do jornalista Zarcillo Barbosa, publicado no JC do dia 4/5/2008, pág.2). Apesar de não ter vivenciado os gloriosos momentos históricos relatados, compartilho contigo da indignação sobre a enorme passividade dos jovens e das pessoas diante da violência, da corrupção que assola o nosso país e da multiplicidade de suas manifestações.
Assistimos calados ao avanço do imperialismo no Brasil e na América Latina, demonstrando não perceber suas consequências. Nossa geração (e aí me incluo) não compreendeu que “mesmo quando não se fala de política em nenhum lugar, o homem não pode renunciar a essa situação imanente à sua condição de ser humano”, como proclamava Che Guevara em seus discursos e também que a neutralidade significa assumir o lugar e o lado do mais forte.
Nossa geração ainda não compreendeu que estamos sendo convocados a fazer algumas escolhas decisivas sobre como será o futuro da humanidade, de todos nós. O capitalismo, sistema social hegemônico no mundo, vem se mostrando cada vez mais desumanizador e cruel em sua lógica. Por isso, considero que estão de volta as grandes questões sobre nosso destino enquanto seres humanos, enquanto modelo de sociedade, enquanto projeto de país, enquanto modelo de cidade que queremos para nós e nossos filhos.
Caro jornalista, hoje somos filhos e netos de uma juventude “transviada”, fomos para as ruas gritar “Diretas Já”, caras-pintadas gritamos “Fora Collor”, mas ainda não sabemos o real significado da palavra democracia (poder de tomar decisões nas mãos dos cidadãos).
Talvez essa falta de “apetite político” seja pela ausência de mudanças que não foram alcançadas através das urnas. Vemos que a tão sonhada democracia foi cooptada pela ordem capitalista, e não acreditamos mais nela. Estamos vendo, ao longo dos últimos vinte anos, tanto no Brasil como na América Latina, a esquerda desaparecer, adaptar-se à “ordem” e assim, como afirma José Paulo Netto em seus discursos, inclusive aqui na ITE (2007), “experienciamos hoje um Estado repressivo e penal e vemos os direitos sociais tão arduamente conquistados, sendo destruídos... mas algo se move em toda a América Latina....” (e é nisso que acredito!)
Ainda não percebemos que é momento de lançar novamente o olhar para o horizonte, vislumbrar novas “barricadas de desejo”, a exemplo de 1968; é preciso perceber que há valores, saberes, afetos de outra ordem sendo construídos, produzidos bem ao nosso lado, ou entre nós; é preciso descobrir e compreender as experiências que se colocam na perspectiva de construção de alternativas para o ser humano.
Não podemos deixar que o medo seja a nossa experiência social mais profunda! Nós ... sujeitos sociais de hoje, não podemos deixar a apatia política nos dominar! Devemos e podemos ser protagonistas de uma nova história, partícipes de um movimento que já se iniciou e que parece, não queremos enxergar. Me nego a acreditar que nada valeu a pena e tudo se tornou “apenas uma fotografia na parede”.
Acredito, sim, no movimento de resistência que constrói nossa história hoje. Cabe lembrar aqui a metodologia de trabalho militante e coletivo construída e disseminada pela Escola Nacional Florestan Fernandes em São Paulo; na pedagogia de formação de novos sujeitos sociais trazida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra; no movimento de resistência dos povos da Amazônia; e de inúmeros outros movimentos que já deixaram mártires em nossa terra: Margarida Alves – 1983, Chico Mendes - 1988, Dorothy Stein - 2005, Keno – 2007, ...
Não os vejo como movimentos isolados – guetos sociais – mas ações indicativas de uma nova práxis, que alimenta (ou deveria alimentar!) os passos de todos nós que buscamos esculpir uma nova história, construir um homem novo (como anunciava revolucionários de Rousseau a Lenin). Um homem novo que quer adquirir conhecimentos qualificados sobre a realidade, sobre a história e, sobre o que se quer alcançar!
E isso não é utopia! ... mas movimento de sujeitos sociais oprimidos, desesperados, de quem vive em constante medo e quem vive no medo, sabemos, perde o medo e podem inrromper de forma imponente para a guerra. E também sabemos que em situações de extrema pressão, ela surge poderosa. A história nos ensina, caro jornalista, que revoluções são adiáveis quando não são preteríveis!
Rosângela Maria Lenharo - RG 24.670.043-9