Cultura

O peso das palavras e dos violões

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Polêmico, falastrão, contestador, irreverente. São muitas, mas insuficientes as denominações que tentam definir Lobão, que é, antes de tudo, um grande músico. E para quem ainda tem dúvidas quanto à importância de seu trabalho – que muitas vezes foi encoberta por sua fama de briguento – uma boa oportunidade será o show que o cantor realiza hoje à noite pela “Série Grandes Nomes”, do Alameda Quality Center. A apresentação será no restaurante Beef Street, a partir das 21h, e os ingressos estão à venda no local.

O show que Lobão traz a Bauru comemora o sucesso alcançado com o CD “Acústico MTV”, vencedor do Grammy Latino de melhor disco de Rock em 2007. Apesar de afirmar que não se prenderá às rédeas de um roteiro pré-determinado, o cantor deve presentear o público com hits como Rádio Blá, Me Chama, Corações Psicodélicos, Canos Silenciosos, Essa Noite Não, Dècadence Avec Elegance e a recente “Vou te levar”.

“Quanto menos o público pedir, mais eu vou fazer”, brinca o músico, em entrevista concedida por telefone ao JC Cultura durante o intervalo de um ensaio. “Acho humilhante um artista que depende de uma determinada música para ser aceito. Tenho um vasto repertório e não serei escravo desse tipo de coisa”, observa.

Mais do que dar como incerta a execução dos grandes sucessos, Lobão prefere garantir, essencialmente, música de primeira qualidade. Ao lado de Eduardo Bologna e Lineu, o cantor trará um trio de violões que, segundo ele, confere um som mais pesado às suas composições, graças a um revolucionário sistema de processamento acústico capaz de proporcionar aos instrumentos de corda uma sonoridade nunca antes alcançada.

“Os três violões são a espinha dorsal do Acústico MTV, que também tem baixo e bateria. Sem esses dois instrumentos, o show que faremos em Bauru será mais lírico. Mas de qualquer maneira, será um som pesado”, adianta.

Receita fácil

O álbum “Acústico MTV”, lançado no ano passado, trouxe Lobão de volta a uma grande gravadora, após oito anos produzindo apenas trabalhos independentes. Neste período, apesar de ter conquistado relativo sucesso de vendas, o cantor revela que sua obra deixou de alcançar o grande público.

“As músicas não tocavam nas rádios. Agora, neste último disco, pude contar com uma estrutura que eu jamais teria se fosse independente. Por isso, quis produzir um disco de arte e procurei toda forma de excelência para fazer gravações definitivas para as minhas músicas”, destaca.

Apesar de ter sucumbido ao formato acústico – e ter sido antecipadamente criticado por ter apelado, ‘justo ele’, a uma receita fácil de sucesso -, Lobão mostra, mais uma vez, que mantém a ‘metralhadora verbal’ ativa. Sem travas na língua, ele continua não economizando comentários ácidos em relação às gravadoras, às rádios brasileiras, à bossa nova e à imprensa que “me ignora, me censura e tenta me encurralar em um gueto”, segundo suas palavras.

Mesmo tendo feito parte do cenário musical dos anos 80, Lobão não poupa nem mesmo as produções que recentemente ganharam novo fôlego nas pistas de dança sob o rótulo de “trash”. “É medíocre. As pessoas só ficam olhando para trás, achando que os bons momentos estão no passado. Apesar de tudo, eu acredito que ainda é possível fazer música de maneira viril e interessante”, dispara.

E é nesse clima vigoroso e de constante renovação que Lobão pretende continuar a trilhar. Ainda neste ano, ele já pretende começar a se empenhar na composição do próximo álbum inédito. Sem prazo estabelecido, o cantor também deve lançar uma caixa com todos os seus trabalhos, produzidos ao longo de mais de 30 anos de carreira.

• Serviço

“Beef Street Music - Série Grandes Nomes” apresenta Lobão hoje, a partir das 21h, no Alameda Quality Center (altura do quilômetro 335 da Rodovia Marechal Rondon). Ingresso: R$ 89,90 por pessoa, com direito a jantar. Mais informações: (14) 3321-5000.

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