Tive um sonho maravilhoso com Rui Barbosa, parecia tão real, me senti muito orgulhoso de estar diante de uma criatura tão culta que não queria que o sonho acabasse.
Estava eu sentado num banco da praça Machado de Mello, defronte à extinta estação ferroviária, quando surgindo do nada, aparece sentado ao meu lado, um homem franzino de óculos com aros minúsculos, bigodes brancos e largos, no sonho logo o reconheci, era o Rui.
- Bom dia, disse ele.
- Bom dia, respondi-lhe.
- Sou Rui Barbosa, em conversa com alguns políticos daqui, lá no firmamento, soube que haviam prestado umas homenagens à minha pessoa, vim para tomar conhecimento delas.
- Sr. Rui, por que escolheste-me para esta amostragem, sei muito pouco sobre o senhor! Posso apenas afirmar-lhe que cresci numa rua que leva seu nome, nada mais, e que meu saudosíssimo pai construiu em 1960 uma casinha de madeira existente até hoje, que minha mãe ainda mora lá doente pagando os impostos à vista, o sr. poderia escolher outra pessoa mais culta para compreendê-lo melhor. Por que eu? Apenas mal concluí o ensino fundamental, um tal de ensino à distância, Telecurso 2000 “anos luz” de sua sabedoria, por que eu? Insistindo, pois não era justo, como compreendê-lo?
- Não, meu filho, escolhi você porque conheci seu pai no mesmo dia em que deixou a Terra há 10 anos atrás, ele foi escolhido para pertencer à Academia dos Homens Honrados da Terra, da qual sou presidente, mas não criada por mim e sim por um homem também injustiçado aqui na Terra, seu nome era Jesus Cristo, fundada há 2008 anos passados. Eu apenas ajudei criar a Academia Brasileira de Letras, mas nem todos ali merecem pertencê-la. Tornei-me um grande amigo do seu pai, “seu” Machado, como era tratado carinhosamente por todos do Jardim Bela Vista.
Conversamos todos os dias, disse-me que também foi funcionário público como eu, contou-me que no início de sua carreira foi “jogado” dentro de valetas com uma pá e picareta, na Vila Quaggio, abrindo valetas para canalização de águas fluviais, às vezes atolado até os joelhos, serviço bastante insalubre, vindo contrair uma doença, enfisema pulmonar da qual nunca sarou, vindo a falecer desta enfermidade, sofrendo desta enfermidade durante mais de trinta anos tomando remédios, sob os cuidados de sua mãe. Contou-me também que foi transferido devido a sua enfermidade, para a Praça dos Expedicionários onde plantou um pé de ipê roxo existente até hoje. Que figura maravilhosa é seu pai, mesmo doente, com um corpo esquelético consumido pela doença, nas horas de folga fazia obras de caridade na Irmandade de São Vicente de Paula, percorrendo as ruas do Jardim Bela Vista, angariando donativos aos pobres. Como tesoureiro da instituição, na sua coleta de auxílio nunca poderia faltar um só centavo, quando o contribuinte não dava o auxílio, seu pai inteirava do próprio bolso, mesmo ganhando salário de “barnabé”, que virtude. Confesso a você, Luiz, depois que seu pai foi incluído nesta Academia, pouca gente teve tal privilégio, político mesmo, nenhum. Falei o mínimo das virtudes do “seu” Machado, agora vamos ver a minha homenagem.
Aquilo parecia tão real, como acompanhá-lo até aquela praça abandonada pelo órgão público, pois levava seu nome! Mostrar-lhe um chafariz desativado, pois deveria ser um “chafariz” iluminado para atrair “gente”, acabaria vendo um “chamariz” alagado para atrair “dengue”.
A outra homenagem seria a rua Rui Barbosa, no Jardim Bela Vista, como mostrar aquela rua toda esburacada, se atingíssemos a quadra 13 onde mora minha mãe, que vergonha! Onde existe um ginásio onde também leva o nome de um educador, José Aparecido Guedes de Azevedo, com verdadeiras crateras na rua, e a calçada com o mato tomando conta de todo espaço, seria muito vergonhoso para o “seu” Rui, e para mim.
Acordei assustado com o telefone tocando, era minha irmã alertando-me que iríamos conduzir nossa mãe ao Hospital Amaral Carvalho para dar continuidade ao seu tratamento. Cheguei um pouco atrasado para apanhar minha genitora, mas o buraco continuava ali bem defronte à sua casa, o mato também estava lá, porém um pouco mais alto e o buraco um pouco mais fundo, que tristeza!!
Luiz Tadeu Machado