JC Criança

Livre para voar

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 7 min

Está chegando a época dos ventos, e com ela, velhas conhecidas da garotada começam a ganhar os céus da cidade: as pipas. Apesar das crianças ainda estarem entretidas com o ioiô e as bolinhas de gude, já tem gente cruzando os céus com suas pipas. O JC Criança saiu às ruas para encontrar alguns desses aventureiros dos céus e os encontrou na periferia da cidade, mais precisamente no Parque Santa Edwirges.

Com poucas opções de lazer no bairro, os garotos brincam na rua de terra mesmo, mas não ligam com isso. O mais importante é a diversão, e uma pipa faz a alegria de muita gente. Rogério César da Silva, por exemplo, decidiu fazer uma pipa e soltá-la, mesmo sem estar na época certa, como ele mesmo conta. “Ainda não tem gente soltando, mas deu vontade de fazer e colocar no ar”, explicou o garoto de 16 anos, que aprendeu a fazer suas pipas com 6 anos.

Os amigos de Rogério, Samuel Leite de Souza e Jhonatas de Souza, o acompanham na brincadeira. Ambos preferem fazer as pipas, mas a sensação da força do vento nas mãos também chama a atenção, sem falar no desafio.

Rogério conta que na segunda-feira, logo que fizeram a pipa, deixaram a lata de linha amarrada em um terreno e soltaram a pipa, que ficou voando, sem a ajuda de nenhum dos garotos. “Quando a gente voltou ela ainda estava lá no alto. Foi legal”, contam.

Mas não pense que a pipa é brincadeira dos meninos mais velhos. As meninas e os mais novos também se encantam com o brinquedo. Isabela Santos Soares e Ariele Taís da Silva adoram brincar de boneca, mas também não dispensam a pipa, quando alguém faz para elas. “Eu gosto de empinar, mas meu tio tem que fazer para mim”, conta Isabela.

Já o pequeno Luís Henrique Narciso Tinoco, de 6 anos, é conhecido no bairro por já ter muita habilidade com a pipa. Ele ainda não aprendeu fazer, mas garante que seu tio vai ensinar. “Eu ainda sou muito pequeno, mas quando crescer vou aprender, só que eu gosto mesmo é de empinar”, contou.

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Pelos ventos da história

Para fazer a alegria das crianças, a pipa percorreu um longo caminho até aqui. Desde sempre o homem manifestou sua vontade de voar como os pássaros. Como não tinha asas, começou a procurar meios para alcançar os céus, nem que fosse em sua imaginação.

A mitologia grega conta, por exemplo, que Ícaro e seu pai, Dédalo, aprisionados no labirinto de Creta pelo rei Minos, tentaram alcançar a liberdade voando. Construíram asas com cera e penas e conseguiram escapar. Dédalos orientou o filho para não voar muito perto do sol, mas, desobediente, Ícaro subiu muito, derretendo a cera que prendia as asas, e caiu no mar.

A partir daí, o homem sempre buscou meios de se aproximar das nuvens. As pipas surgiram de várias tentativas frustradas de voar, quando o homem transferiu para um artefato de varetas, papel, cola e linha sua vontade de planar, de alçar vôo de terra firme. Não se sabe a data certa que a primeira pipa foi lançada ao céu, mas, segundo o site www.pipas.com.br, a teoria é que ela teria surgido cerca de 200 anos antes de Cristo, na China.

No Egito, hieróglifos antigos já contavam de objetos que voavam controlados por fios. Os fenícios também conheciam seus segredos, assim como os africanos, hindus e polinésios.

Até o grande navegador Marco Polo (1254-1324) explorou o potencial das pipas, embora levado por motivos menos lúdicos. Conta-se que, em suas andanças pela China, ao ver-se encurralado por inimigos locais, fez voar uma pipa carregada de fogos de artifício presos de cabeça para baixo, que explodiram no ar em direção à terra, provocando o primeiro bombardeio aéreo da história da humanidade.

Nos países orientais foi e continua sendo grande a utilização de pipas com motivos religiosos e místicos, como atrativo da felicidade, sorte, nascimento, fertilidade e vitória. Exemplo disto são as pipas com pintura de dragões, que atraem a prosperidade, com uma tartaruga (longa vida), coruja (sabedoria) e assim por diante.

Os exemplos se multiplicam. Nós, brasileiros, conhecemos as pipas através dos colonizadores portugueses por volta de 1596. Eles, por sua vez, as conheceram através de suas viagens ao Oriente.

Um fato pouco conhecido de nossa história deu-se no Quilombo dos Palmares, quando sentinelas avançadas anunciavam por meio de pipas quando algum perigo se aproximava - mais uma prova de que a pipa era conhecida na África há muito mais tempo, pois os negros já cultuavam-na como oferenda aos deuses. A exemplo do Éolo, da mitologia grega, os negros também tinham o seu deus dos ventos e das tempestades, personificado na figura de Iansã.

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Mil e uma utilidades

Você sabia que o inventor do telefone, Graham Bell aproveitou um teste feito com pipas para aperfeiçoar seu aparelho? Em 12 de dezembro de 1921, Marconi utilizou pipas para fazer experiências com a transmissão de rádio, teste que, mais tarde, seria utilizado por Bell em seu invento.

Segundo o arteducador Guilherme dos Reis Pereira, o Tio Gui, se encostarmos um copo plástico na linha da pipa quando ela estiver no ar, o barulho será enorme. Foi a partir desse teste que o telefone foi aperfeiçoado.

Isso mostra que, mais do que uma brincadeira, as pipas serviram à ciência. Já imaginou um mundo sem energia elétrica? Pois saiba que um dos primeiros testes com eletricidade foi feito com uma pipa. Em 1752 uma experiência de Benjamim Franklin demonstrou definitivamente a importância das pipas na história da ciência. Prendendo uma chave ao fio da pipa, ele empinou num dia de tempestade. Acontece que a eletricidade das nuvens foi captada pela chave e pelo fio molhado, descobrindo-se assim o pára-raio.

No século 18, época das grandes descobertas, o brasileiro Bartolomeu de Gusmão mostrou os projetos de sua aeronave Passarola ao rei de Portugal, graças a estudos conseguidos através das pipas. Em 1749, na Grã-Bretanha, Alexandre Wilson empinou um série de seis pipas presas em uma mesma linha (trem), cada qual carregando um termômetro, conseguindo determinar as variações de temperatura, em função das diferentes altitudes.

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Fazer e soltar: diversão garantida

Há quem goste mais de fazer a pipa do que soltar. Aliás, fazer pipas é uma arte, como bem explica o arteducador Guilherme dos Reis Pereira, o Tio Gui. Segundo ele, há uma série de modelos de pipas que dão muita satisfação em fazer.

À reportagem do JC Criança, ele mostrou a ‘carambola’, uma pipa de estrutura, que não precisa da rabiola para voar, já que a forma da pipa faz com que ela tenha estabilidade. “A rabiola nada mais é que uma forma de estabilizar a pipa. No caso das pipas de estrutura, não precisam dela, pois o vento passa por dentro e as estabiliza”, diz.

Além da carambola, outros tipos de pipa mais comuns são: o albatroz, o maranhão ou pipa carioca, a arraia e a asa delta. No entanto, Tio Gui conta que a confecção de pipas depende muito da imaginação de cada um. “Os modelos são infinitos, vai da criatividade de cada um”, diz, mostrando um modelo de pipa feito por ele, que é a réplica do avião 14 Bis.

Para quem quiser aprender a fazer uma pipa, vale a dica de acessar o site do Tio Gui: www.tiogui.com.br. Lá, você encontra um passo-a-passo para entrar na brincadeira.

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Cerol não!

O cerol é uma mistura de cola de madeira com vidro moído que as crianças passam na linha das pipas para cortar a linha das pipas de outras crianças. Esta mistura de cola e vidro moído faz com que a linha se torne uma verdadeira navalha, causadora de muitos acidentes fatais.

São utilizados também variações de pó cortante, como o pó de ferro. O pó de ferro tem um agravante pode conduzir eletricidade quando toca nos fios de alta tensão, provocando curtos circuitos e até morte em quem solta as pipas.

Os maiores riscos do uso do cerol são os cortes causados pelas linhas, sendo os motociclistas as principais vítimas. Num acidente, o pescoço é a parte mais atingida, principalmente devido à falta de proteção. Neste local passa uma artéria de grande calibre e o corte dela pode provocar um sangramento muito intenso, causando a morte em poucos minutos. Por isso, nada de usar cerol.

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