Assim como outras cidades do Interior paulista, Bauru cresceu com a ajuda do desenvolvimento trazido pelas ferrovias. Bairros inteiros, como a Vila Falcão, Jardim Bela Vista e mesmo o Centro antigo da cidade, foram formados e ganharam fôlego graças a essa atividade.
Tudo começou quando, aos nove anos de emancipação, Bauru recebeu sua primeira ferrovia. Em 1905, a Estrada de Ferro Sorocabana foi a responsável por ligar o município a São Paulo. Cinco anos mais tarde, mais duas grandes ferrovias entraram em operação: Noroeste do Brasil (NOB) e a Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
Cem anos depois, essas empresas já não existem mais, mas Bauru ainda conta com um legado histórico, cultural, patrimonial e econômico deixado por elas, avistado dos pontos mais altos da cidade e presentes em fachadas de imóveis, museus e na memória dos moradores que vivenciaram esses ricos momentos da história.
De acordo João Francisco Tidei de Lima, professor de história moderna e contemporânea da Universidade do Sagrado Coração (USC), não é exagero dizer que a cidade é fruto do movimento ferroviário. “Antes da chegada da linha férrea, Bauru tinha cerca de 500 pessoas; cinco anos depois, com três empresas em operação, a cidade já contava com mais de 10 mil habitantes”, relata.
Pelos trilhos das três ferrovias que cortavam a cidade, chegavam gente, mercadorias, dinheiro e também por elas foi escoada toda a produção cafeeira da região. Toneladas de grãos de café saíam de Bauru com destino a diversos portos e outros países. Nessa época, os trens de carga que passavam por Bauru ficaram conhecidos como “cata-café”, já que eles só vinham à cidade para buscar a produção cafeeira da região.
Pouco tempo depois, com a decadência da produção cafeeira, Bauru descobriu então a sua verdadeira vocação, que nunca esteve ligada à agricultura ou à indústria: a cidade se transformou em referência na prestação de serviços, com milhares de pessoas vindo para cá para vender e comprar produtos.
Foi quando a cidade se tornou parada obrigatória dos chamados “caixeiros viajantes”, que desembarcavam na estação ferroviária para vender e comprar seus produtos na região. “Essas pessoas movimentaram a economia local durante muitos anos e foram os responsáveis pelo crescimento econômico de Bauru”, explica o professor Nilson Ghirardello, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Com isso o comércio em torno da antiga estação ferroviária cresceu, hotéis, restaurantes e pequenas pousadas abriam suas portas nas proximidades da estação de embarque e desembarque de passageiros. “No final da década de 50, cerca de 1.000 pessoas passavam todos os dias pela estação ferroviária Bauru, que registrava diariamente a passagem de 28 trens com destinos diversos”, conta Lima.
As empresas ferroviárias construíam casas e até vilas inteiras se formaram para que altos funcionários pudessem residir em Bauru, considerada ponto estratégico para o comércio e chegada para famílias inteiras que integraram outras cidades em torno de Bauru.
Com a grande movimentação comercial e de pessoas que desembarcavam a todo momento na estação ferroviária, Bauru viu sua economia aquecida e a cidade prosperou ainda mais com investidores que vinham até aqui para explorar o potencial da cidade.
Com a decadência das ferrovias no País, que teve início na década de 70 e se acentuou no final da década de 80, todo o progresso passou a fazer parte da história de Bauru. “Em 1989, o último trem de passageiro saiu da cidade e a Ferrovia Bandeirantes (Ferroban) anunciou que no dia seguinte não haveria mais transporte de passageiros por trens em todo o Interior de São Paulo” recorda Lima.
Hoje boa parte do patrimônio se encontra preservado nos museus da cidade e no dois centro de documentação histórica locais, mantidos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade do Sagrado Coração (USC). A outra herança, que inclui o patrimônio arquitetônico construído pelas ferrovias, se encontra em boa parte nas mãos do município, sendo utilizado para abrigar secretarias municipais e outra parte se deteriorando pela ação do tempo.