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Um fosso social


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A humanidade está inserida num processo acelerado de mudanças. Estamos vivendo uma era onde a educação e a informação têm papel central. Houve um aumento na velocidade da produção do conhecimento que, por sinal, se espalha muito depressa. Hoje, uma teoria verdadeira não é mais do que uma hipótese que resistiu, até agora, a todo esforço para refutá-la; leis físicas traduzem, na verdade, possibilidades ou probabilidades. Alguns denominam a sociedade que emerge deste processo, como a “sociedade do conhecimento” ou “da informação”, mas talvez, o nome mais apropriado seja “sociedade da aprendizagem” pelo papel chave que tem a educação continuada. Muitos autores dizem que a habilidade mais competitiva hoje é a de aprender e a aprendizagem é a matéria-prima estratégica para o desenvolvimento do Brasil.

Entre nós esta sociedade cria duas classes, ou melhor, duas categorias de seres humanos: os que têm educação e cidadania e os que não têm e, entre eles, um fosso social. Por isso a escola precisa acompanhar a velocidade com que o conhecimento avança. A escola e nossos governantes precisam, também, assumir a responsabilidade com a construção de um País onde não haja ruptura da espécie humana. O ensino básico público é uma necessidade social imediata para elevar o nível cultural da população. O investimento feito nos níveis inferiores de ensino é mais eqüitativo. O estudo “Equidade e Eficiência na Educação: Motivações e Metas”, conduzido pela Fundação Getúlio Vargas, demonstra que um real investido no ensino fundamental tem duas vezes e meia mais capacidade de chegar aos pobres do que o mesmo real aplicado no ensino médio e vinte e duas vezes mais chances de atingi-los do que se fosse destinado ao ensino superior.

Imediatamente vem a pergunta: qual deve ser a postura da Universidade em face deste diagnóstico? Daria duas respostas a esta pergunta. Primeira - Só a educação pode mudar o destino deste País, portanto, a Universidade tem papel fundamental na formação do professor e na difusão do conhecimento, imprescindíveis para a conquista da cidadania. O abandono do ensino é talvez o maior dos sintomas de equívoco de uma Universidade pública que, fora de sintonia, olha muito mais para o exterior do que para o interior do País. A principal causa desta inversão de prioridades não se deve só a Universidade, mas também, a falta de uma política pública séria para o setor. O ensino básico gratuito padece de crônica falta de investimentos, é mal acomodado, não tem a mais elementar infra-estrutura laboratorial e não pode nem separar o joio do trigo. O fato de carecer de regras que, inclusive, preservem a integridade física do professor e oferecer uma remuneração indigna, faz com que a licenciatura seja relegada pelos vestibulandos.

Segunda resposta - é preciso trazer o Brasil para a Universidade. Esta opinião do ex-Ministro Cristovam Buarque é compartilhada pelo Professor Charles Mady, da Faculdade de Medicina da USP, em seu artigo “Reforma universitária – importância social”, publicado recentemente no Estadão. Nele o autor menciona com muita propriedade: “Não há a menor dúvida que é fundamental o desenvolvimento de tecnologias de ponta. Quando, porém, transplantamos corações de pacientes com doença de Chagas, mas não temos remédio para tratar a causa da moléstia; quando desenvolvemos pesquisas sobre células-tronco, mas ocorre um surto mortal de dengue, algo está errado: a Universidade está isolada do povo”.

O sociólogo Simon Schwartzman, em entrevista à revista Veja – edição de 7 de maio, enfatiza que a “Universidade pública não atende às demandas da sociedade e do setor empresarial”. Isto porque seus docentes “são estimulados a publicar artigos em revistas internacionais” e, evidentemente, para inserir artigos nestas revistas é preciso pesquisar algo de interesse delas. No entanto, o Brasil tem fome, precisa erradicar a pobreza, desenvolver o agronegócio e técnicas alternativas tanto para moradia popular como para o transporte urbano que resultam de uma crise social e ecológica. É dever da Universidade questionar, não o fato de alguns pobres não terem filhos médicos, mas o fato de que os pobres não terão médicos para seus filhos. A Universidade brasileira não precisaria, com ciência e tecnologia, contestar o que é importado para contribuir com a geração de emprego e riqueza? Por isso a Universidade pública precisa opor-se a competência que não leva em conta as necessidades da sociedade brasileira e deixar de perseguir objetivos de eficiência como se fossem fins em si mesmos.Se não agirem agora, nossos governantes correm o risco de perderem o respeito da sociedade e a Universidade pública deixará de ser pertinente. Aqueles que podem pagar vão optar pelo sistema privado já a partir do ensino básico e, depois, pela sofisticação e excelência de alguns poucos Institutos isolados de ensino superior ou por um outro país.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia do Câmpus de Bauru - Unesp

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