Turismo

Santiago de Compostela: Perdão para todos os pecados

Por Eliane Barbosa | Com AE
| Tempo de leitura: 6 min

Pelo caminho para Santiago de Compostela, o difícil é escolher qual a catedral mais bonita. Conheça suas peculiaridades, passando pelas maravilhosas construções de Burgos e León.

Os vitrais da Catedral de Santa María de La Regla , em León, são deslumbrantes. São três andares com 737 coloridos vitrais, colocados dos séculos 13 ao 16. Sobressai-se o azul cobalto, do período medieval, presente nos desenhos mais antigos. Quando a luz passa pela rosácea da fachada, o colorido dela é refletido no vidro dentro da catedral. Um espetáculo.

Saindo do templo, ande pelo bonito centro histórico de León. A cidade vale uma caminhada com calma. À noite, os bares das ruelas antigas fervem. Em Léon, está uma das três edificações de Antoni Gaudí fora da Catalunha. A Casa Botines (34-987-29-2500) hoje é sede da Caja de España. Quando há exibições no piso térreo, ele é aberto ao público. Outro projeto de Gaudí fora de sua terra natal também está na Província de León, mas em Astorga. O Palacio Episcopal acabou não abrigando bispos. Desde 1963, lá funciona o Museu dos Caminhos.

À mesa, a especialidade culinária de Astorga é o cocido maragato com nove carnes. Também pode ser saboreado em Castrillo de Polvazares. Pedra é a tônica do simpático povoado. Mas não imagine que o vilarejo é escuro. Além das ruas, as casas são feitas de pedras num tom mais claro que o do tijolo e têm portas e janelas verdes. A maioria data dos séculos 17 e 18.

O trajeto segue em cima das pedras. Em Foncebadón, os peregrinos depositam a sua no monte da Cruz de Ferro. Dizem que é para agradecer pelo trecho até ali e que se pode escolher ainda um pecado a ser perdoado, como um incentivo para o que virá em Santiago, depois de cumprido o percurso.

“A Compostela perdoa todos os pecados, desde que sejam cumpridos os pré-requisitos e que a pessoa seja religiosa; caso contrário, é apenas mais um papel”, explicou Josechu, como prefere ser identificado o webmaster da Federação Espanhola de Associações de Amigos do Caminho de Santiago.

As exigências a que ele se referiu são: percorrer a quilometragem mínima, assistir à missa, confessar-se e comungar 15 dias antes ou depois da chegada a Santiago.

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Burgos é Patrimônio da Humanidade

As duas mais belas catedrais da região, Burgos e León, pertencem à Comunidade Autônoma de Castilla y León (www.turismocastillayleon.com). Ambas preciosas, belas, góticas.

O que as diferencia? A de León conta com os vitrais medievais e a de Burgos, com desenho monumental. Para quem faz o caminho Portugal-País Basco (rota oeste), Burgos (www.turismoburgos.org) é a primeira parada.

Declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 1984, a Catedral de Santa María de Burgos, que começou a ser edificada em 1221, convida a um olhar para cima, por conta do teto que impressiona com algumas estrelas de oito pontas (influência dos muçulmanos que dominaram toda a Península Ibérica entre os séculos 8 e 15) e pelo relógio chamado de papa-moscas, com boneco que anuncia as horas.

Os turistas são atraídos à catedral não só por sua beleza arquitetônica e pelo boneco das horas. A igreja abriga o túmulo de Rodrigo Díaz de Villar - El Cid, figura lendária da Reconquista Espanhola contra os mouros - e de sua mulher, doña Jimena. E capelas com relicários de entalhes maravilhosos.

Muitos bauruenses e paulistas já foram e se encantaram com Burgos, que é uma beleza de cidade. Principalmente nesta época do ano, quando o sol reina. Por toda a cidade, nas ruas e praças centrais, funcionam cafés que convidam a uma sentadinha para admirar o fluxo de gente passando, ler o periódico da região ou simplesmente descansar.

Um prazer que só as cidades européias e em especial as espanholas oferecem, incluindo canteiros floridos de roseiras multicoloridas. Reserve pelo menos um dia para permanecer em Burgos curtindo à noite seus bares e restaurantes aprazíveis. A maioria fica no centro histórico. Caso do La Fábula (34-947-26-3092), que tem ótima cozinha e decoração moderna.

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Escalas dão ânimo aos peregrinos

Depois de Burgos, seguindo viagem, conheça a Província de Palência, que também faz parte da Comunidade Autônoma de Castilla y León e que oferece opções de turismo rural e religioso. Há, como em toda a rota que leva a Compostela, uma infinidade de igrejas graciosas, como a Igreja de San Martín, do século 11, que faz de Frómista (www.fromista.com) uma parada obrigatória para quem aprecia arquitetura românica.

A entrada para a Igreja de San Martín custa 1 euro - peregrinos, como é usual no Caminho de Santiago, têm desconto e pagam 0,70 euro. Seu estilo arquitetônico se difere das demais do trecho, ou seja, é diferente das românicas, que costumam ser escuras e baixas. A de San Martín é mais arejada. Com colunas onde estão representados animais e cenas cotidianas naquele tempo, como a colheita da uva.

A próxima “escala” da viagem pode ser feita em Villalcázar de Sirga, um refresco para conseguir ânimo antes de se encarar o caminho rumo ao oeste. Há restaurantes e estabelecimentos mais simples pela cidadela, com destaque para o Pablo El Mesonero de Villasirga (34-979-88-8022), que recria a atmosfera medieval. O maitrê da casa faz as vezes de peregrino na recepção aos visitantes.

Coma sem medo da balança, pois trata-se de cozinha regional, com sustância como se diz aqui no Brasil, com um detalhe para ser lembrado em suas memórias peregrinas: o pão tem o formato da vieira, a concha usada pelos peregrinos.

Quem dormir em paz, rezando? Basta cruzar a rua e entrar na Igreja de Santa María la Blanca, que fica em frente ao restaurante, considerada a mais importante construção de Villalcázar de Sirga. No seu interior, mesclam-se estilos, do gótico ao renascentista.

Seguindo para a cidade de León, se tiver disposição, visite a Igreja de Santa María del Camino, logo na entrada de Carrión de Los Condes.

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O Monte do Gozo e a Catedral

Depois de muito sobe e desce por montanhas, com passagens por templos, pinguelas, ermidas, mosteiros, castelos, conventos, igrejas e ruínas, chega-se a Compostela, passando-se antes por Lavacolla, em cujo rio no passado os peregrinos se lavavam antes de iniciarem a última subida, a que conduz ao Monte do Gozo, de onde se avista as torres da catedral compostelana.

Já no centro urbano, pela rua de São Pedro, chega-se à Porta do Caminho e sobe-se pela rua das Casas Reais até à Praça de Cervantes (onde funcionou no passado um mercado concorrido).

O peregrino encontra-se então já em pleno centro histórico de Santiago, dentro das muralhas desaparecidas, e a escassos metros da fachada da Azabacheria, à qual se chega pela rua do mesmo nome; se o viajante fizer a peregrinação num ano santo - o último em 2004 e o próximo será em 2010 -, a Porta Santa, na abside, estará aberta.

Dentro do impressionante templo, Patrimônio da Humanidade, fica a arca de prata com os restos mortais de Santiago Apóstolo. Todos cumprem então o ritual de colocar os dedos no Pórtico da Glória (a obra-prima do romântico europeu), dar três cabeçadas na figura do Mestre Mateus (que construiu a catedral) sob a crença de “roubar-lhe um pouco de sua inteligência) e abraçar o busto de Santiago (sobre o altar-mor), rezando diante da grade que protege a arca de prata, no subterrâneo. Só assim a peregrinação terá valido a pena.

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