Lula trocou a seringueira por um mangabeira. É impressionante essa insensibilidade bio-ambiental. O presidente humilhou a nossa Irmã Dulce Verde ao entregar ao ministro Roberto Mangabeira Unger, da suposta Secretaria Especial de Ações a Longo Prazo (Sealopra, a propósito), a coordenação do Plano Amazônia Sustentável (PAS). Marina Silva cresceu em meio aos seringais do Acre, assumiu o papel de Chico Mendes e é mais uma das incontáveis vítimas dos destruidores da floresta. Em termos de intensidade e repercussão internacional, a exoneração de Marina somente foi superada pela queda dos ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci. A grande diferença é que a senadora não se tornou alvo de nenhuma crítica da imprensa internacional. Ao contrário, teve seu nome colocado entre os maiores defensores do patrimônio natural, principalmente da Amazônia.
Quando Lula anunciou a nomeação de Marina Silva, sua intenção foi a de sublinhar diante do mundo a importância dada pelo seu governo à questão ambiental. A ministra foi uma pessoa pobre, analfabeta até a adolescência e profundamente tocada pela problemática da vida dos povos da floresta. A mensagem clara era entregar a gestão da política ambiental a alguém que se tornara símbolo da luta preservacionista. Do discurso à realidade o abismo é profundo. O impacto da demissão de Marina foi o pior possível.Um jornal inglês comentou o assunto e lembrou que a ministra “parecia uma voz solitária no governo brasileiro, derrotada em votações como a introdução de grãos geneticamente modificados, a construção de uma nova usina nuclear, grandes represas para hidrelétricas e a construção de uma nova estrada na Amazônia”.
Marina Silva foi substituída imediatamente por outro político petista, saído de Ipanema, o deputado carioca Carlos Minc. Dizem que o grande mérito no novo ministro é o de ter ajudado o bauruense Darcy Rodrigues a carregar o cofre da amante de Adhemar de Barros, sob a supervisão de Dilma Roussef. Nada contra. Foi uma expropriação em nome do povo, durante a ditadura militar. Tarefa ainda muito mais pesada será a de proteger a floresta nativa da devastação dos plantadores de soja liderados pelo governador do MT Blairo Maggi, riquíssimo financiador de campanhas políticas. Lula teve pressa para resolver logo a pendenga e não passar recibo da imensa perda moral e ética que lhe escancarou o lado cruel da face. Minc estava em Paris. Rejeitou o convite. O presidente insistiu. Tratava-se de uma emergência. “Já que não tem tu, vai tu mesmo”.
Conta-se no Planalto que Marina Silva, cansada de clamar inutilmente por providências policiais contra os madeireiros clandestinos, contra os fazedores de carvão e invasores de reservas indígenas, foi “a palácio”, como dizem em Brasília, falar com o chefe. Lula ouviu tudo com eloqüente silêncio e no fim contou a historinha do forasteiro que chegou a uma cidade louco de fome, viu o vendedor de cachorro-quente, pediu um sanduíche e pagou. Ao comer percebeu que no meio do pão só havia molho de tomate e cebola. “E a salsicha?” - reclamou. “Você não é daqui, não é verdade?” - disse o barraqueiro com voz de enfado. A política ambiental no Brasil é assim. Estranha só quem está chegando agora...
Domingo passado o fleumático jornal inglês “Financial Times” chamou Lula de “sortudo”. Diz o diário que o Congresso Nacional está paralisado, mas dois anos e meio depois do escândalo do mensalão o presidente nada com largas braçadas nas águas plácidas de um mar que na ocasião esteve a ponto de tragá-lo. Para o FT, “na época do escândalo do mensalão, no fim do primeiro mandato, Lula era visto não apenas como inelegível como corria o risco de sofrer um impeachment a qualquer momento”. Agora, na avaliação do jornal, “investimentos, crédito e emprego atingiram níveis não vistos há décadas e o consumo está crescendo no mesmo passo da popularidade do presidente, que deixará o cargo aclamado como “o presidente do grau de investimento”. FHC ficou com o mico do “presidente do apagão”.
Um lembrete também apareceu na matéria: “Os gastos públicos, no entanto, crescem a uma taxa anual de 9,4%, cerca de duas vezes mais do que a taxa de crescimento anual do País”. A situação decore da “ânsia do governo em garantir maioria nas duas Casas do Congresso”. O periódico britânico concluiu que “Lula será sortudo o bastante para eleger o seu sucessor”. Acho que o observador londrino está certo: até o povo ficar sabendo o que é “dossiê” e que “investment grade” é bom só para banqueiros e especuladores, Dilma Roussef já terá sido eleita. A conferir. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)