Cultura

Página livre 3 Filosofia e Bioética


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A ciência tem se apresentado a partir da modernidade (século XVI) como uma das formas de saber que tem modificado radicalmente a vida humana e as outras formas de vida. A partir de seus procedimentos obtivemos bons resultados nos campos da indústria, da tecnologia, da saúde e da medicina entre outros, contudo, muitas vezes esses resultados não nos legaram apenas beneces, mas também inúmeros problemas. A bomba atômica, as armas biológicas, a devastação do planeta, os problemas naturais como o efeito estufa e os buracos na camada de ozônio, são apenas alguns exemplos imediatos a serem citados. A ciência se tornara autônoma demais, sem controle, e até passou, quando mal conduzida, a ser uma ameaça à espécie humana e ao mundo em que habitamos, por isso torna-se necessário discuti-la, direcioná-la, e orientá-la. É nesse contexto que surge a bioética.

A expressão bioética surgiu por volta de 1970 nos Estados Unidos da América, para cristalizar um movimento que põe em discussão os discursos, as causas, os avanços, as práticas, as técnicas e os resultados alcançados pela ciência. O que a bioética defende na verdade é a preservação da espécie humana e o planeta de aberrações que possam surgir a partir das pesquisas científicas desenvolvidas pela ciência. Não se trata de um ramo da ética, mas a própria ética no campo prático tentando aplainar as arestas existentes entre o “ser” e o “dever-ser” no contexto da tecnociência, da biogenética e da ecologia, isto porque no nosso planeta existem três formas de vida: a humana, a animal irracional e a vegetativa, e todas devem ser igualmente preservadas e cuidadas, dentro de uma responsabilidade que é de todos, daí porque é necessário que ciência e ética se conciliem, para que haja a superação de todo tipo de rejeições e desconfianças existentes entre ambas, para caminhar juntas rumo a um mesmo objetivo: o melhoramento da vida humana com cuidado e responsabilidade.

O que se percebe é que a ciência quer ser independente das inferências de outras áreas, como a filosofia e a religião, por exemplo, mas é cediço que nem a ciência, nem a filosofia e nem a religião tem condições de sozinhas explicitar todas as formas de saber e de significações a partir de parâmetros claros e aceitáveis, pois o homem não se reduz apenas à matéria, e muito menos a uma só dimensão, seja ela espiritual, ou ética.

De fato, a ciência não é uma deusa onipotente que possa se posicionar contra o homem que a conduz, mas ao contrário é produto da genialidade humana, e somente a este ela deve servir.

A verdade é que a sociedade de uma forma geral apenas toma conhecimento de todos os êxitos e sucessos alcançados pela ciência, e em contra partida todos os erros e equívocos cometidos por ela são suprimidos ou ocultados. É importante ressaltar, também, que muitas vezes a ciência serve a interesses escusos (como os imperativos econômicos e políticos), a ideologias que agridem ou eliminam seres humanos, que manipulam a vida de forma irresponsável ou descompromissada.

É, de fato, a ciência em si, muito difusa, o que dificulta seu controle, e além do mais, há todo um trabalho propagandístico do capitalismo em apresentar uma ciência vitoriosa, irresistível, viável e mítica, a partir de um progresso consumístico desenfreado, confinado a um pequeno número de pessoas que podem usufruir de seus resultados, na crença de que ela resolverá todos os problemas da humanidade (a qualquer custo e independente dos meios que se utilizam).

O que a bioética deseja é que a ciência se ocupe de ações prudentes impregnadas de razão que possam servir ao homem como um todo. É inadimissível que o homem possa se tornar um mero objeto ou uma coisa nas mãos de cientistas inescrupulosos, ferindo-se os princípios da dignidade da pessoa humana. Exemplos clássicos sobre isto existem às pencas, como as experiências praticadas por Josef Mengele nos campos de concentração nazistas na segunda guerra mundial, ou as experiências antiéticas denunciadas pelo médico anestesista Henry Beecher em 1966 ao publicar a obra Ethics and Clinical Research, que deixou atônita toda a mídia norte americana ao divulgar que, em 22 artigos científicos, de uma seleção de 50 escolhidos por ele para análise, os cientistas haviam submetido pessoas incapazes a experimentos, sem a autorização destes ou de seus responsáveis, pois entre eles encontravam-se presidiários, soldados, internos de hospitais de caridade, idosos, recém nascidos, crianças com retardo mental e adultos com algum tipo de deficiência. Ressalte-se que as pesquisas antiéticas não são realizadas apenas em regimes autoritários.

É preciso que a ciência torne público aquilo que faz (com seus sucessos ou insucessos), para que a sociedade possa discutir os rumos que ela está tomando. É preciso discutir o agir da ciência sob os parâmetros da grandeza humana, obedecendo algumas normas éticas fundamentais. Das pesquisas científicas poderão surgir algumas indagações que a bioética certamente irá se ocupar, como por exemplo: Até que ponto o prolongamento artificial da vida humana é desejável? A sociedade está preparada para receber tais idosos? A ciência deve proceder pesquisas no sentido de programar a mente humana? Seria aceitável o transplante de cérebro? Isso mudaria a identidade do sujeito? O uso de embriões humanos em pesquisas de células-tronco é o único caminho possível para as doenças degenerativas? Esses embriões são humanos ou não, já que possuem princípios vitais? Como conduzir a vida, pelo meio natural ou artificial? Deve-se ou não clonar o ser humano? É possível criar um humano híbrido?

É por essas e outras questões que a partir da bioética a ciência deverá não só indagar o como, mas também os porquês de suas ações. A vida humana e outros tipos de vida não podem ficar vulneráveis, ao contrário devem ser defendidas, mas não por aqueles que estão envolvidos no processo científico. A ciência pode falar de ciência, de ética fala a Filosofia.

Ivan José Abel

(44 anos) é mestre e professor do curso de Filosofia da Universidade do Sagrado Coração

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