Economia & Negócios

Para Delfim Netto, acesso ao crédito não gera inflação

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Do alto de seus 80 anos, cinco mandatos consecutivos como deputado federal (entre 1986 e 2002) e quase 20 anos comandando ministérios, Antonio Delfim Netto vaticina: a crescente facilidade de acesso ao crédito a que o Brasil assiste atualmente não implicará em aumento dos índices de inflação.

Na última semana, Delfim veio a Bauru para ministrar uma palestra na Instituição Toledo de Ensino (ITE), em comemoração aos 5 anos da Tv Tem. Entre os variados assuntos sobre os quais tem total intimidade para discorrer – bagagem adquirida ao longo de mais de 40 anos ‘fazendo política’ -, ele comentou sobre o temor equivocado de que o crédito bancário facilitado possa provocar falta de alguns produtos no mercado, gerando inflação.

De fato, o ‘boom’ do acesso a financiamentos, marcadamente em relação ao setor automotivo, já tem gerado um desequilíbrio entre demanda e oferta. Conforme publicou o JC no início do mês, o aumento da procura por carros, por exemplo, tem feito os compradores de Bauru esperarem por até 120 dias para ter o produto.

Esta defasagem poderia acarretar o que os economistas denominam inflação de demanda, ou seja, se há carência de um certo produto no mercado, como conseqüência ocorre uma pressão nos preços em função da demanda reprimida.

Apesar de admitir que os índices de inflação subiram “uma coisinha mínima” nos últimos dois anos (coincidentemente, ou não, período em que as barreiras para obter crédito diminuíram), Delfim Netto não vê motivos para alarde.

“Na verdade, o nível de crédito no Brasil é muito baixo e não há sinais claros de aumento de demanda, talvez em um ou outro setor. Mas os setores estão se ajustando, a oferta está crescendo também”, defende, dizendo que são os fatores externos, em sua maioria, os responsáveis pelas pressões nos preços.

Salvador

A inflação, aliás, deverá se manter como uma realidade distante da vida dos brasileiros pelos próximos anos, avalia o ex-ministro. Para ele, a possibilidade de volta dos preços inflacionados, aliás, continua sendo debatida apenas pela imprensa antilulista.

“Se alguém chegasse de Marte e lesse os jornais do Brasil, teria a impressão de que nós estamos na iminência de uma hiperinflação, mas é evidente que não estamos”, ironiza. E apresenta os números. “No ano de 2002, a inflação foi de 12,5%. Neste ano, nós estamos com uma inflação de 5%. Na passagem do governo FHC para o governo Lula, no entanto, estávamos ameaçados com uma inflação de 30% ao ano”, pontua.

Mesmo tecendo duras críticas ao governo de Fernando Henrique Cardoso, Delfim Netto reconhece que o Plano Real foi o ponto inicial para o processo de estabilização da economia brasileira. No entanto, ressalta que o programa somente foi aperfeiçoado e bem sucedido durante os dois mandatos exercidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, político a quem é todo elogios.

“Na verdade, o Lula foi o salvador do capitalismo no Brasil. O mercado é um processo de competição feroz, como se fosse uma corrida. E o que se exige, em uma corrida, é que todos saiam do mesmo ponto de partida e tenham duas pernas, ou seja, que tenham as mesmas oportunidades. Esta é a intuição do Lula. Foi o aumento da igualdade de oportunidades que salvou o capitalismo brasileiro”, sentencia.

Atuação

Apesar de não exercer cargo político atualmente, Delfim Netto continua presente no ambiente político atuando como conselheiro informal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre outras atribuições. Após ser eleito cinco vezes consecutivas para o cargo de deputado federal, o economista não obteve votos suficientes nas eleições de 2006 e deixou a Câmara.

Antes, foi ministro da Fazenda (1967-74) nos governos do general Artur da Costa e Silva e do general Emílio Garrastazu Médici, ministro da Agricultura (1979) e ministro-chefe da Secretaria de Planejamento da Presidência da República (1979-85) no governo do general João Baptista Figueiredo. No entanto, iniciou na vida política como secretário da Fazenda do Estado de São Paulo (1966-67).

Delfim também foi embaixador do Brasil na França (1975 a 77) e fez carreira acadêmica na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), onde é professor emérito. Hoje, profere palestras em todo o País (a preço estimado de R$ 10 mil cada) e é colunista do jornal “Folha de S. Paulo” e da revista “Carta Capital”.

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