Alguns acontecimentos marcam a vida das pessoas com tal intensidade que as imagens vividas nos acompanham por anos a fio. Em 12/5/2008 passei por essa experiência. Por volta das 15h30, recebo uma ligação de minha filha adolescente dizendo: “Me socorre pai, tem ladrão dentro de casa. Tranquei-me no seu quarto dentro de seu banheiro, corre antes que ele me ache aqui”. Uma ligação dessas tem um efeito devastador na capacidade de raciocinar. Sem carro, a pé, pedi ajuda a um amigo que de imediato se prontificou auxiliar. Acionei o 190 já com o carro em movimento. No trajeto as ligações por socorro se sucediam. Como que por encanto surge uma viatura da Polícia Militar, nela estava o tenente Valentin, a quem tenho muito a agradecer. Com os carros em movimento e emparelhados o tenente disse: “Corre, não sei onde é a rua, estou te seguindo”. A rua é difícil de localizar, noto quando peço pizza para entregar. Naquele desespero os segundos transformam-se em horas.
Por mais rápido que se vá não é suficiente. Em questão de minutos atravessamos a cidade. Envelheci anos durante esses minutos. Na residência, portão aberto, porta estourada, vidro quebrado e, incrível, outra viatura da PM chegando, eles encontraram o local e, mais outra viatura atrás dessa outra. Rua cercada. Um silêncio aterrador dentro do imóvel. Acho que dei mais trabalho aos policiais do que os próprios ladrões - eram dois - querendo entrar na casa. Um se entregou rápido, outro ainda procurou saída, mas desistiu ao escutar o helicóptero. Ninguém ferido ou machucado. A violência imaginada pelo desespero da filha no telefone não se concretizou pela pronta intervenção dos policiais. Exatamente, esse é o ponto. Pronta intervenção.
Essa mesma polícia espezinhada, desprezada, desdenhada agiu com uma eficiência só vista em filmes de ação e, como trazer a público esse reconhecimento? Alguns críticos dirão, por que reconhecimento, não fizeram mais que a obrigação. Sei distinguir quando se trabalha por obrigação e quando se trabalha por amor. É só percorrer alguns guichês de pronto-socorro, INSS, e outros institutos que facilmente reconhecemos aqueles que trabalham por obrigação e aqueles que trabalham pelo amor em servir ao próximo. Têm muita diferença. Sentimos no tratamento que é designado a nós. O semblante de todos os policiais ali envolvidos era de retirar em segurança minha filha do alcance dos ladrões. Isso era nítido, claro, transparente. E, com esse espírito, essa eficiência, essa agilidade foi o que determinou que minha filha saísse sã, salva e ilesa. E, só quem passou por isso é capaz de dar o devido valor à Polícia Militar.
Necessário valorar condutas como esta. Tenho que parabenizar um a um os policiais pelo que fizeram por minha família. Não há preço que pague por essa entrega em bem servir. Realmente pela obrigação de trabalhar o Estado paga seus soldos, mas a dedicação, a vontade, o desprendimento, a firmeza, a coragem demonstrada não existe preço que pague. São pessoas deste quilate que fazem com que algumas instituições tenham credibilidade no Brasil. Fácil notar pelo descrédito disseminado que são pessoas raras. A todos os soldados envolvidos na ocorrência, meu maior muito obrigado.
Celso Luiz de Magalhães