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O bem, o mal e o livre arbítrio


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Na história do mundo, muitas batalhas foram e são travadas, mas talvez a maior de todas seja aquela entre o bem e o mal. Em nossos corações temos uma propensão natural para a justiça e para a virtude, mas infelizmente, o egoísmo prevalece por priorizarmos o material em detrimento do espiritual. Assim como a escuridão é eliminada pela chama de uma vela, poderia definir o mal como, apenas, a ausência de uma pequena porção de bondade. No entanto, se o bem e o mal não existissem, não seríamos livres, a vida seria puramente mecânica e nós, autômatos.

Quando uma pessoa caminha por uma estrada perfeitamente reta, ele jamais perderá de vista o seu ponto de partida, a sua origem – basta que ele se vire e olhe para trás. Porém, quando o caminho se bifurca, quando o viajante opta por um desvio, em ângulo com o seu caminho anterior, ele não pode mais vislumbrar sua origem. Ao olhar para trás, tudo o que ele pode ver é uma solitária encruzilhada. As bifurcações que aparecem em nosso caminho proporcionam uma estrutura dentro da qual podemos exercer o livre arbítrio. Podemos escolher o melhor caminho e enxergar sua incrível beleza, o seu propósito e, isto é bom. Ao contrário, podemos escolher um atalho cheio de acidentes de percurso, perder de vista nossa origem, eventualmente, até nos esquecermos dela e isto é mau. O bem e o mal estão a apenas um passo um do outro e a escolha é nossa.

Não devemos considerar nossos problemas decorrentes de uma escolha errada como sendo um castigo divino. O erro é um método de aprendizagem e quanto mais doer, mais será lembrado. O tamanho da dor é sempre proporcional ao problema causado. Assim, se achamos que sofremos em demasia é porque causamos estragos em demasia. Se julgarmos que não merecemos é porque causamos desgraças a quem não merecia.

A vontade, a atitude e a emoção de realizar algo colocam o ser humano, exatamente, no caminho que merece estar. Qualquer que seja a escolha haverá uma conseqüência e qualquer que seja a recompensa, poderá ser revogada. Quanto mais difícil a vida, maior o resgate a amortizar. Assim, se as coisas não vão bem, devemos procurar as causas pelos caminhos já percorridos.

Tudo o que tenha sido criado obedece, cedo ou tarde, à lei do retorno ou da ação e reação. Existe uma diferença básica entre as leis de causa e efeito na espiritualidade e nas ciências naturais. No mundo do dia-a-dia basta o salto de um telhado para se perceber a tolice do ato. O resultado negativo aparece em poucos segundos. Espiritualmente, porém, podemos dar vários saltos negligentes, podemos experimentar a emoção do pulo sem sentir dor, pelo menos durante algum tempo. A razão para este intervalo de tempo entre causa e efeito, no plano da espiritualidade, é simples e bastante reveladora.

Se vivêssemos num mundo onde os efeitos da ação negativa se manifestassem imediatamente, o elemento de escolha desapareceria de nossas vidas. Para entender isto, imagine se toda ação negativa fosse, imediatamente, punida com um forte choque elétrico. Não levaria muito tempo para que a negatividade desaparecesse do comportamento humano – mas, teria sido por supressão e não por escolha. Por isto, também, não somos recompensados, no mesmo instante, cada vez que escolhemos a ação correta. A ação correta não pode acontecer por medo da punição ou pelo prazer da recompensa. Ela só tem valor quando é por decisão positiva e pró-ativa. Cada um de nós vem a este mundo trazendo uma bagagem. Cada vez que deixamos de resistir ao nosso comportamento reativo, temos que fazer uma correção em algum ponto do futuro. Tudo o que é desconfortável para nós é parte da nossa necessária correção.

Com respeito às leis espirituais, a correlação entre causa e efeito está oculta para preservar nosso livre arbítrio, o nosso poder de escolha. Sob este enfoque, é possível definir o tempo como sendo a separação ou a distância entre a causa e o efeito, entre as ações e seus dividendos. O tempo é o espaço entre a atividade e a repercussão e o divisor entre o crime e a conseqüência. Ele cria a ilusão de caos quando, na verdade, existe uma ordem oculta. O caos parece ser real porque o tempo separou a causa do efeito.

Para toda obra concluída, um preço é estabelecido. O homem é medido pelo valor das suas obras. A obra provém do pensamento e este, do que temos no coração. Nada é injusto. O que chamamos de injustiça divina é um remédio necessário que faz arder o coração e a consciência daquele que precisa ser corrigido. Eventualmente, quando estamos totalmente confusos, podemos até culpar o Criador – mas, isto é tão ridículo quanto culpar a lei da gravidade pela dor do impacto na calçada quando se pula do telhado. É também lamentável que tão poucos de nós queiramos se beneficiar da memória de experiências passadas, já que nelas repousam toda a sabedoria, os motivos de nossa existência e as nossas ferramentas educacionais.

Todas as formas de dor, sofrimento, doença e prejuízo têm a sua origem na correção e existem para propiciar um crescimento espiritual, mas, a correção em si não deve ser interpretada de forma fatalista. Se alguém precisa de uma correção por meio da dor, sempre haverá alguém disposto a fazê-la. A trama do mundo os coloca unidos para que ambos sejam beneficiados. Não podemos fugir das conseqüências de atos passados, mas, podemos mudar os resultados pelo que fazemos agora. O único meio de mudar as coisas é mudar a si próprio.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia do câmpus da Unesp em Bauru

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