Desde que eu comecei a me entender por gente, ouvia dizer que ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. O pensamento e prognóstico são de Saint-Hilaire, o sábio naturalista francês que se meteu Brasil adentro, de 1816 a 1822, com o intuito de estudar a flora brasileira. Os ensinamentos deixados por ele, no livro que escreveu, não deixam dúvidas sobre a nosso “verde tesouro” - a mata atlântica e a hiléia amazônica. Mal sabia ele que, decorridos 180 anos da sua morte, tivemos praga muito mais devastadora que a saúva - o próprio bicho homem.
Existe outra calamidade igualmente grave, no Brasil, que é o objeto destas mal-traçadas: o analfabetismo. A sua extinção é bandeira de todos os candidatos. Suponho que se buscou concretizar a promessa, mas a eficácia foi nula. Iniciamos um novo milênio e o desafio permanece inalterado. A Unesco diz que Brasil, China, Bangladesh, Burundi, Haiti, Iraque, Sudão e mais 70 nações correm o risco de não reduzir o analfabetismo adulto pela metade até 2015. O autor do relatório lamenta que o número significativo de analfabetos no Brasil pode comprometer até a sua economia. Porque “muitos ficarão excluídos do processo de desenvolvimento econômico e até político”.
Na época do Mobral houve uma tentativa pífia dos governos militares de acabar com essa mancha. Os alfabetizados continuavam analfabetos porque só aprenderam a garatujar o nome de batismo. O país continua crescendo demograficamente e todos os bebês nascem analfabetos. É preciso dar conta deles, com boas escolas e professores bem remunerados para não corrermos o risco do sucedido com a mãe do presidente Lula, que “nasceu analfabeta” e assim continuou. Este é um país ágrafo. Ou seja, sem escrita. Temos 16,3 milhões de analfabetos no Brasil, segundo as últimas estatísticas, mas os “analfabetos funcionais” somam 37 milhões. Pessoas que não conseguem interpretar um texto simples de quatro linhas. Bem por isso as tiragens de nossos jornais são ridículas. No máximo 300 mil exemplares diários. Somente um jornal no Japão, o Yomiuri, tem um recorde de tiragem de 16 milhões num só dia. Duas vezes e meia o número de exemplares de todos os diários brasileiros, somados.
A Unesco executa um Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Caem na prova questões sobre matemática e ciências em nível médio. O resultado é ainda mais desastroso. Dos 50 países submetidos ao programa o Brasil ocupou o 44º lugar. O governo, em vez de melhorar o ensino prefere questionar a metodologia da pesquisa. No primeiro governo de Lula os pedagogos do PT atribuíam o descalabro à “herança maldita” do projeto educacional tucano. Continua a mesma coisa, ou pior. Sabemos bem, por exemplo, o que está atrás da diminuição da repetência e da evasão. Nos últimos anos o governo federal implementou gradativamente uma política de progressão continuada nas escolas públicas. Trata-se de um eufemismo para “aprovação automática” que só serve para maquiar problemas e inflar números de excelência. Os professores simplesmente não podem mais reprovar um aluno que na pior das hipóteses, vai para uma turma de “aceleração”. Dessa forma alunos são aprovados sem ter os requisitos mínimos para cursar a série seguinte sob o pretexto paternalista de que a reprovação causa danos psíquicos, como a perda da auto-estima.O resultado desse psicologismo é a constatação de que é possível encontrarmos alunos da 8ª série incapazes de saber, por exemplo, que pré-história vem antes da história contemporânea.
É evidente que não dá para entrar no mérito da degradação financeira da profissão do professor na escola pública. É pouco espaço para tanta tragédia. Ainda me lembro de quando o diretor de escola era “autoridade” e tinha salário equiparado ao do promotor público e ao do juiz.
E o ensino universitário? “Aceitamos cheque pré-datado”. Em 1991, a Universidade de São Paulo era a maior do país com 31 mil alunos. Outras nove universidades públicas estavam entre as 20 maiores. Desde 2001, a maior universidade do país é a Universidade Paulista (UNIP). Naquele ano tinha 81 mil alunos. Agora, não sei... Em segundo lugar vem a Estácio de Sá, carioca, com 60 mil. Além dessas duas, atualmente mais 14 instituições privadas aparecem no ranking das 20 maiores, incluindo um “centro universitário” de trocadilho infame: a UniverCidade. Com certeza não é o país o beneficiado com essa expansão O que o Brasil precisa não é de diplomados. O que precisamos é de conhecimento e pesquisa.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC