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Entrevista da semana: Maria Cecília Martha Campos: ‘Injustiças ainda me deixam indignada’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 10 min

Cerca 40 anos atrás, quando ainda era adolescente, Maria Cecília Martha Campos sonhava em ser bióloga. Como, então, uma pessoa como ela, amante da vida ao ar livre (até hoje costuma fazer caminhadas, logo que amanhece), foi se tornar socióloga?

Neta de Felisbino Martha (um dos pioneiros da imigração portuguesa na cidade) e do ferroviário Jorge Pimentel, que ajudou a fundar o asilo da Vila Vicentina, a hoje coordenadora do curso de comunicação social da Universidade Paulista (Unip) em Bauru sempre carregou consigo uma característica marcante: desde jovem, sempre sentiu repulsa por toda e qualquer forma de injustiça.

Depois que conheceu as obras de história do Brasil dos pensadores Caio Prado Júnior e Celso Furtado, quando tinha apenas 17 anos, Maria Cecília não teve mais dúvidas sobre a carreira que iria seguir. A única coisa que não sabia, no momento em que se matriculou no curso de ciências sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, é que, a partir de então, sua vida nunca mais seria a mesma.

Maria Cecília militou no movimento estudantil, no fase mais sangrenta da ditadura militar (final dos anos 60 e início da década de 70); morou em uma comunidade alternativa, na Capital; levou uma vida quase “camponesa” no Interior do Piauí ao lado do marido, o também sociólogo José Ralf de Oliveira Campos (já falecido); e participou da corrente “Liberdade e Luta” (Libelu), braço da Organização Socialista Internacionalista (OSI), de orientação trotskista, que, mais tarde, ajudaria a dar origem ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Graças a essas idas e vindas, Maria Cecília demorou quase 11 anos para concluir o curso de graduação. Viu, ainda, o marido ser preso, por conta da militância política que ele desenvolvia contra o regime militar. Isso sem contar os inúmeros outros contratempos que teve de enfrentar depois disso, como a necessidade de cuidar da família, a doença do filho mais novo e o fim do casamento.

Nada que impedisse Maria Cecília de experimentar o novo. Atualmente, aos 61 anos de idade, ela tem se dedicado aos estudos de semiótica no campo da comunicação social, em especial na área de publicidade e propaganda.

Nos últimos tempos, aliás, Maria Cecília, que também é avó, resolveu se enveredar por uma nova área de pesquisa, o jornalismo literário. Metamorfose ambulante, educadora por vocação, amante das artes e da boa música (tanto para ouvir quanto para dançar), ela mantém, ainda hoje, a mesma indignação de 40 anos atrás.

Na última semana, ela recebeu a reportagem do Jornal da Cidade e, entre um bolinho de chuva e outro (afinal, Maria Cecília já é avó), ela narrou alguns casos de sua vida de resistência. Acompanhe a entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Seu nome de solteira, Martha, é bastante conhecido em Bauru. A senhora tem algum parentesco com o comendador (José da Silva Martha, pioneiro da imigração portuguesa na cidade)?

Maria Cecília Martha Campos - Sou neta de Felisbino Martha, um dos irmãos do comendador. Meu outro avô foi Jorge Pimentel. Ele era ferroviário, trabalhou na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) e ajudou a fundar o asilo da Vila Vicentina. Morei com ele durante alguns meses, sem contar que fui vizinha dele durante grande parte da minha infância. Ele, sem dúvida alguma, foi uma das principais influências positivas que tive na minha vida. Lembro-me de uma frase que ele me falou, quando eu tinha apenas 9 anos de idade: ‘O que merece ser feito merece ser bem feito’. Isso e a dedicação que ele tinha em favor do próximo são coisas que me marcaram profundamente, para o resto da vida.

JC - Quando a senhora percebeu que esse sentimento em favor do próximo começava a falar mais alto?

Maria Cecília - Quando eu tinha 15 anos de idade e estudava no Colégio São José, estava bastante influenciada pela encíclica “Mater et Magistra”, do papa João XXIII, cujo pontos básicos eram “ver, julgar e agir”. Minha família era católica praticante e eu costumava freqüentar reuniões de grupos de jovens para discutir problemas sociais. Desde aquela época, as injustiças me incomodavam profundamente. Depois disso, aos 17 anos de idade, fui morar nos Estados Unidos, durante um ano, e passei a ter uma nova visão de mim mesma.

JC - Como assim?

Maria Cecília - Quando fui para os Estados Unidos, o preço das ligações telefônicas era caríssimo, por isso passei quase um ano sem conversar com meus pais. Acabei, portanto, ficando completamente imersa naquela sociedade. Percebi, então, que lá existia um outro nível de vida, diferente daquele a que eu estava acostumada. Nos Estados Unidos, eu era pobre, latino-americana e católica...

JC - E como foi retornar para um Brasil mergulhado em um regime autoritário?

Maria Cecília - Quando voltei para casa, percebi que muita coisa havia mudado no País. Meus amigos de ginásio, por exemplo, a maioria militava em movimentos de contestação. A música e as artes em geral já não eram mais as mesmas. O jovem passava a ganhar mais espaço na sociedade, com as canções de protesto e a Jovem Guarda.

JC - Pensando nos princípios básicos da ‘Mater et Magister’, a partir de que momento a senhora avançou do ver e do julgar para o agir?

Maria Cecília - Em 1967, fui cursar ciências sociais na PUC de São Paulo. O interessante é, que até então, eu estava encantada pela biologia.

JC - Qual a razão para essa mudança de rota?

Maria Cecília - É que, ainda no curso preparatório para o vestibular, entrei em contato com as obras de história do Brasil de Caio Prado Júnior e de Celso Furtado. Aquilo mudou minha forma de enxergar o mundo, e acabei optando pelas ciências sociais.

JC - Foi assim que a senhora entrou em contato com o movimento estudantil?

Maria Cecília - No começo, eu sentia uma certa dificuldade para diferenciar as tendências que existiam no movimento estudantil e acabei ficando mais próxima dos membros da Ação Popular (grupo criado a partir da idéia da Juventude Estudantil Católica). Para mim, o momento mais marcante daquela época foi quando os estudantes ocuparam “militarmente” o prédio da PUC (a invasão duraria até o ano seguinte).

JC - Que tipo de militância a senhora desenvolvia no movimento?

Maria Cecília - Era um trabalho de massa. Eu me dirigia até o colégio Equipe, recolhia alguns panfletos de estudo que eram impressos na gráfica deles e depois saía distribuindo em locais específicos, como o Teatro Oficina. Hoje, eu pensando a respeito de tudo isso, vejo o tamanho do risco a que estava submetida. Se eu chegasse a ser presa, não seria capaz de indicar o nome de um líder sequer, pois não conhecia nenhum membro importante do movimento. Ainda assim, correria o risco de ser torturada.

JC - A senhora conheceu seu marido naquela época?

Maria Cecília - Em 69, depois do Ato Institucional Número 5 (AI-5), a PUC ficou difícil de ser freqüentada, pois todo aquele esquemão de direita havia voltado ao poder. Eu também estava desencantada com o movimento estudantil, por isso resolvi me transferir para a Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo (USP). Lá, acabei conhecendo o Ralf, que também cursava ciências sociais e, na época, estava envolvido com grupos alternativos.

JC - Como foi o namoro?

Maria Cecília - Cerca de um mês após nos conhecermos, já estávamos morando juntos. Aquilo foi um choque para minha família. Vivemos durante quatro meses numa espécie de república que reunia gente de toda espécie. O Ralf se formou primeiro do que eu e arrumou emprego em uma cidadezinha chamada Bom Jesus do Gurguéia, no sul do Piauí. Acredito que essa decisão tenha sido uma espécie de fuga daquele estado de coisas que imperava no Sudeste. Acabamos nos mudando para lá e levamos uma vida quase camponesa.

JC - Quanto tempo durou essa fase camponesa da vida de vocês?

Maria Cecília - O Ralf resolveu fazer mestrado na Universidade de Brasília (UnB), e resolvi concluir meu curso de graduação, que se encontrava há cerca de três anos parado. Foi assim que retomamos contato com o movimento estudantil, através de um grupo chamado OSI. No movimento estudantil, o principal braço da organização era a Libelu, que mais tarde daria origem à corrente “O Trabalho”, do PT.

JC - Pelo visto, vocês estavam mesmo decididos a deixar a tranqüilidade para trás...

Maria Cecília - O Ralf acabou sendo detido em três ocasiões e, depois, passou a ser procurado pela polícia. Isso foi em maio de 67, logo depois de nosso primeiro filho, Cassiano, ter nascido. O Ralf passou um bom tempo sumido, depois acabou sendo preso de verdade.

JC - Foi assim que vocês acabaram retornando a Bauru?

Maria Cecília - Primeiro fomos para Mogi e começamos a trabalhar como professores em universidade particular de lá. Nesse meio tempo, nasceu a Júlia, nossa segunda filha. O Ralf se deixava levar cada vez mais pela política, ao passo que eu me dedicava mais e mais à família.

JC - O casamento de vocês entrou em crise...

Maria Cecília – O nosso afastamento em definitivo, ocorrido em fevereiro de 1991, foi resultado de um longo processo, que incluiu a conclusão de meu projeto de mestrado na PUC (onde teve aulas com expoentes da semiótica como Lúcia Santaella, Haroldo de Campos e Décio Pignatari) e o fato do Ralf estar cada vez mais determinado na militância política. Isso se agravou, em 1984, com o nascimento de nosso terceiro filho, que tinha graves problemas de saúde.

JC - A senhora se importa em dizer quais problemas eram?

Maria Cecília - O Leonardo nasceu com síndrome de Down e também sofria de uma grave doença chamada atresia anal (malformação do intestino). Ele não tinha o ânus e parte do reto e precisou passar por cinco cirurgias, até ficar recuperado. Lembro-me de que o tratamento era feito em São Paulo, no Hospital Infantil Darcy Vargas, e o Léo costumava passar semanas inteiras internado. Havia apenas uma cadeira no quarto, além da cama do paciente, e as enfermeiras costumavam deixar uma coberta debaixo do leito para que eu pudesse dormir perto dele.

JC - Nesse tempo, a senhora já estava morando em Bauru?

Maria Cecília - Sim, eu tinha vários empregos diferentes e costumava deixar as crianças sozinhas o dia todo. Foi então que percebi que eu precisava fazer um doutorado. Acabei ingressando no programa de pós-graduação em semiótica do curso de letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara. Nessa época, eu dava aulas de inglês instrumental no câmpus de Bauru. Foi então que, em 1996, acabei sendo convidada para coordenar o curso de comunicação da Unip, que na época estava começando a ser implantado na cidade. Ajudei a implantar o curso de publicidade e propaganda e, oito anos depois, o de jornalismo.

JC - A senhora continua se definindo como uma pessoa de esquerda?

Maria Cecília - Muitos daqueles ideais que faziam parte de meu entendimento de mundo acabaram se perdendo pelo meio do caminho, depois da queda do Muro de Berlim e com o avanço do neoliberalismo. É como se eu vivesse numa fase pós-utópica. Por outro lado, minha indignação com relação às injustiças permanece.

JC - Qual sua avaliação sobre o governo Lula?

Maria Cecília - No geral, acredito que o governo atual trouxe grandes conquistas para as camadas menos favorecidas da população. Por outro lado, percebo que, no poder, o partido se desviou de diversas de suas lideranças históricas e de alguns de seus princípios básicos.

JC - E o que a senhora pensa sobre a postura que os jovens de hoje em dia têm em relação à política?

Maria Cecília - O mundo de hoje é diferente daquele em que eu vivi quando jovem, com suas dualidades e utopias. A realidade atual é mais complexa e as lutas e contradições são difusas, fragmentárias.

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Perfil

• Nome: Maria Cecília Martha Campos

• Idade: 61 anos

• Local de nascimento: Bauru

• Marido: José Ralf de Oliveira Campos (falecido)

• Filhos: Cassiano, Júlia e Leonardo

• Hobby: Caminhadas

• Filme: “Ensaio de Orquestra” e “La Nave Va”, ambos de Federico Fellini

• Livro: Obras de história do Brasil de Caio Prado Júnior e Celso Furtado

• Música: “Sabiá”, de Tom Jobim

• Nota 10: Uma aula bastante participativa

• Nota 0: Violência contra crianças

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