Deco e Naldinho ganham a vida fazendo fretes a bordo de um barco. Quando conhecem a stripper Karinna, os três iniciam uma amizade que acaba se desenvolvendo em uma relação de amor a três. A incapacidade de lidar com o sentimento, a relação incomum de três pessoas se amarem simultaneamente e a problemática do submundo em que vivem fazem com que o ciúme corroa seus pensamentos. Apesar da situação desafiadora, os três, porém, não conseguem ficar sozinhos.
“Cidade Baixa”, de Sérgio Machado nos confronta não somente com a ilegalidade daqueles que procuram sobreviver, mas com a realidade do relacionamento de amor que pode ser vivenciado em qualquer classe social. Um filme que questiona a duvidosa relação entre amor e posse, como também a necessidade da relação entre sentimento e senso crítico.
Na Bíblia, mais precisamente na primeira carta de São João, encontramos duas frases que são extremamente realistas e profundamente teológicas. A primeira diz “Ninguém jamais viu a Deus”. Realmente, se falamos e acreditamos em Deus estamos falando e acreditando em uma realidade imensa demais para os olhos humanos. Este ser transcendente deu origem a todo universo e à vida. Universo do qual não sabemos ainda os limites e vida sobre a qual conhecemos muito pouco. Se Deus existe, Ele não se revela de uma forma visível a nossos olhos. Mas, se não podemos ver a Deus, podemos sim experimentá-lo.
Neste sentido encontra-se a segunda frase da carta de São João: “Deus é amor”. Com ela, o texto procura nos dizer que podemos fazer a experiência profunda de Deus através de um sentimento nobre ao qual damos o nome de amor. Através da experiência de amar e ser amado nos aproximamos de nossa compreensão do que seja Deus, porque nesta experiência nos sentimos verdadeiramente vivos. O sentimento de amor é fundamental para o nosso desenvolvimento como pessoa humana. Triste a pessoa que nunca foi amada por alguém e triste a pessoa que nunca conseguiu amar alguém.
O amor nos faz ser mais gente, o amor nos faz ser mais humanos, o amor nos faz sair da periferia da vida e entrar em sua essência valorizando aquilo que deve ser realmente valorizado em nossa passagem por esta existência. Infelizmente há milhões de jovens em nosso país que não foram amados em sua infância e por isso possuem grande dificuldade em amar alguém concretamente, a nossa sociedade e a própria vida. O amor é fundamental para a nossa realização pessoal e social. Graças a esta importância do sentimento de amor que teologicamente podemos defini-lo como experiência de Deus, ou a verdadeira morada de Deus.
Costuma-se afirmar que as igrejas são as casas de Deus, mas a mais profunda e sólida morada divina é o amor que pode surgir entre os seres humanos. O amor, porém, não pode ser idealizado. Qualquer sentimento humano deve ser acompanhado pela razão. Para que o amor seja realmente uma verdadeira experiência de Deus é necessário que ele seja, pela razão humana, compreendido, dialogado e orientado. Toda forma de amor vale a pena.
Mas também é verdade que toda forma de amor, seja de pais para filhos, de amigos, de irmãos ou de amantes, pode se tornar dependência doentia, posse, submissão ou anulação da personalidade, caso o amor não esteja acompanhado de criticidade. No que diz respeito ao amor entre amantes é necessário compreender que um verdadeiro relacionamento amoroso nunca é a fusão de duas metades, mas sempre a aproximação de inteiros. Em outras palavras, o amor é essencialmente dialogal, ou seja, a construção mútua de um discurso existencial entre pessoas.
Relacionar-se, e principalmente amorosamente, não é um movimento unilateral, mas depende da interação entre pessoas que possuem livremente a vontade de compartilhar a vida juntos sem deixar de ser elas mesmas. Aqui encontramos a plataforma fundamental para o amor: a liberdade. Eu permaneço junto a uma pessoa porque me sinto à vontade ao seu lado. Este sentir-se à vontade é o espaço de liberdade que deve existir no relacionamento de amor.
A liberdade é pré-requisito do amor, porque ninguém consegue amar se sentindo um escravo. E amar é justamente a aceitação do outro em sua individualidade. Amar é deixar com que o outro seja e possa se desenvolver da sua forma de se desenvolver. Na mesma intensidade, a razão necessita da liberdade. Nós só conseguimos pensar e refletir em um ambiente arejado e de horizontes abertos. O amor, a criticidade e a liberdade são três condições básicas para qualquer tipo de relacionamento amoroso e as três permitem que pessoas possam viver com mais leveza relacionamentos que venham a enriquecer a todos. Se faltar algum destes pré-requisitos a relação entre seres humanos deixa de ser humana e passa a ser destrutiva não somente para os amantes.