Tribuna do Leitor

Final da malandragem


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Na época em que ainda não existia o fax e muito menos a internet, e que as viagens eram realizadas na maioria por via férrea e ônibus circulando por precárias estradas desprovidas de asfalto, as transações comerciais eram feitas através dos viajantes, que em nossa cidade se hospedavam no antigo Hotel Central, Cariani, Luso, Popular e outros.

Esses viajantes proporcionavam à cidade uma movimentada vida noturna, haja vista que a Boate Lorde que se localizava na antiga rua Costa Ribeiro, hoje rua Presidente Kennedy funcionava de terça-feira a domingo, com folga apenas nas segundas-feiras.

Assim se conclui facilmente que circulava muito dinheiro, principalmente nas noites, e o dinheiro atraía a ambição de malandros forasteiros jogadores de cartas, pois o jogo de pôquer e pif-paf era freqüentado pelas altas rodas no Automóvel Clube, Bandeirante e outros clubes da nossa cidade. Acontece que os malandros aqui da terrinha eram mais espertos do que os malandros forasteiros, e estes acabavam sendo depenados e muitas vezes tinham que vender a própria mala de viagem para voltar às suas origens.

Na Boate Lord havia espetáculos de balé todas as noites, executados por lindas bailarinas, mas no final da temporada os empresários dessas “meninas” sofriam grande decepção, pois a maioria delas acabava se amancebando com algum viajante e assim ficava desfeito o quadro de bailarinas. Sabedores desse problema, os empresários passaram a relutar em aceitar propostas para que o corpo de balé que representavam, atuasse na Boate Lorde. Na minha juventude tive um amigo no Jardim Bela, um baianinho de nome Victor, cujo apelido era Caculé.

Era um jovem muito vivo e certa ocasião instalou-se um parque de diversões na baixada da rua 13 de Maio, e entre as diversões havia uma barraca de jogos praticados com pequenas bolas, as quais os jogadores as lançavam por algumas canaletas e o barraqueiro contava os pontos feitos pelos jogadores e sempre no final da contagem dos pontos o barraqueiro pedia ao jogador que tirasse do interior de um saquinho de pedras de víspora uma pedra que deveria ser a pedra 90 e se isso acontecesse o jogador receberia um ótimo prêmio em dinheiro.

O Caculé era assíduo freqüentador da barraca e como nunca havia presenciado alguém abiscoitar o polpudo prêmio, teve então uma brilhante idéia, pois levou de sua casa num dos bolsos a famigerada pedra 90 e partiu para o jogo. Jogou algumas partidas normalmente e após perder algum dinheiro, lançou mão da pedra 90 e escondeu-a entre os dedos e enfiou a mão no saco de pedras, chacoalhou-o e apresentou a famigerada pedra 90. Foi motivo para grande vibração entre os demais apostadores.

Ocorreu entretanto que houve grande relutância por parte do parque para que fosse efetuado o pagamento do prêmio, sob a alegação de que era impossível o Caculé ter tirado a pedra 90 e só faltou alegar que tal pedra não existia no saquinho. O Caculé com o apoio da galera e sob a ameaça de chamar a polícia, resolveram efetuar o pagamento e fecharam aquela barraca. Por tudo isso é que até hoje Bauru tem a fama no círculo dos malandros de ser o ponto final da malandragem forasteira, pois graças a Deus, malandros já bastam os nossos. Na minha juventude eu adorava a vida noturna, por essa razão presenciei muitos fatos pitorescos ocorridos nas madrugadas.

Argemiro Trindade - advogado - OAB-SP 83.059

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