Regional

Interno era controlado só com remédio

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Jaú - Antes de repetir o ato de matar uma pessoa a golpes de barra de ferro, o paciente psiquiátrico Avelino Pedro dos Santos, 45 anos, aguardava vaga em manicômio judiciário há pelo menos 14 anos, conforme frisa nota encaminhada ontem pela direção da Associação Hospitalar Thereza Perlatti, em Jaú (47 quilômetros de Bauru).

No último sábado, Avelino matou com golpes de um pé de cadeira de ferro o paciente Paulo Delpupo, 59 anos, em uma ala de internos do Thereza Perlatti. Pelas características da unidade hospitalar, a gerente técnica Regina Célia Mathiazzi Mombach revela que o paciente era contido com medicação forte.

“Se você pegar a prescrição médica dele (Avelino), você vai entender aquilo como uma medida de segurança absurda. Um cidadão comum que tomar 10% da medicação que ele toma, provavelmente não conseguiria andar direito. Falar direito. E ele faz tudo normal. Ele é um paciente que tem delírio permanente. Ele tem alterações perceptivas constantemente. Ele tem delírios, tem alucinações”, descreve Mombach.

Os 14 anos em que Avelino permanece internado no Thereza Perlatti compreendem apenas o período em que o paciente psiquiátrico estava sob os cuidados da nova direção da unidade hospitalar, que passou por reestruturação, inclusive com intervenção em 1993. O primeiro homicídio cometido por Avelino ocorreu em 1985 (há 23 anos), também no Thereza Perlatti, conforme relembra Mombach.

Avelino convivia com os outros internos, mas não poderia. Pelo menos é o que se infere de um trecho da nota assinada pela diretoria administrativa, diretoria clínica e diretoria técnica da unidade hospitalar. “Somente como exemplo do indesejável, temos a dizer que o paciente envolvido nesse episódio de agressão está sob nossos cuidados há 14 anos, aguardando encaminhamento a instâncias adequadas, isto é, a um ‘hospital de custódia’, onde o tratamento da saúde mental leve em conta o nível de periculosidade da pessoa atendida.”

O texto ainda faz um alerta para a atenção que está sendo dada a casos complexos, como o de Avelino. “Assim, não sendo possível a reversão do ocorrido (homicídio), esperamos que ele ao menos evidencie a urgência necessária à resolução desse quadro, sendo necessária para isso a união da saúde mental, do sistema judiciário e do apoio da população, para que todos, recebam integralmente os cuidados de que necessitam, nas instituições mais tecnicamente adequadas possível. O que, aliás é um dos pilares de nosso sistema de saúde pública.”

O quadro a que se refere a nota esconde um detalhe perigoso em que o Thereza Perlatti abriga em seus leitos pacientes com periculosidade cumprindo ordem de internação judicial, como o caso de Avelino. Mombach explica que o dado de 30% de pacientes internados por ordem do Poder Judiciário (medida de segurança) engloba vários históricos. “Às vezes, é porque não conseguiu vaga na rede e recorreu ao promotor (Ministério Público) e consegue a vaga. Ou, às vezes, é só um alcoolista que está com dificuldade de ter essa vaga ou é um paciente que tem um histórico de agressão ou algum delito”, ressalta.

Ela explica que o hospital possui um média de 200 pacientes internados, em diferentes setores. Mombach disse que Avelino estava em setor com 50 pacientes e que o hospital não tem alas com número maior de internos.

Segundo a direção, o hospital é especializado no atendimento a pessoas portadoras de transtornos mentais: “Lidamos com toda sorte de alterações comportamentais advindas destes transtornos. Caracteriza-se nossa entidade, por ser uma instituição de saúde, isto é, tratamos de oferecer a essa população a abordagem terapêutica preconizada para esses casos de transtornos mentais, no que diz respeito à remissão dos sintomas psiquiátricos e à reintegração social do paciente”, frisa. Avelino está preso na Cadeia de Barra Bonita em cela isolada. Ele é acusado por homicídio com pena prevista de 6 a 30 anos de reclusão.

Comentários

Comentários