Tribuna do Leitor

Gols, novelas e samba no pé


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Estamos muito próximos do período que compreenderá as campanhas eleitorais municipais deste ano com seus respectivos candidatos a prefeitos e vereadores. O democrático (?) voto obrigatório me leva a presenciar em épocas como essas atos constrangedores por parte dos cidadãos-eleitores. A maior parte das pessoas dirige-se até o colégio eleitoral como um boi ao matadouro. Movidos pela obrigatoriedade mais do que pela consciência cívica, digitam nas urnas seus votos que, na maioria das vezes, é efetuado sem uma real assimilação da importância do ato que se desenvolve ali. Votam direcionados mais por suas emoções - conquistadas ao longo de meses de maceração demagógica por parte dos candidatos - do que por suas convicções ou ideais políticos e sociais. Na maior parte dos casos, não sabem o que fazem e por que o fazem. Um dos fatores que originam esse estado permanente de alienação é, para mim, aquilo que denomino como sendo a “tríade perniciosa” que governa subjetivamente nosso país.

Formada pelo trinômio “futebol - novela - carnaval”, essa tríade imiscuí-se de forma destrutiva na formação social e cívica de nosso povo. Deixo bem claro que considero o futebol, a novela e o carnaval válidos como formas de entretenimento. O que me assusta, sobremaneira, é quando o que começa a definir e caracterizar o indivíduo como cidadão é o time pelo qual ele torce e não o que ele pode fazer pelo seu país ou o que este representa para ele; é o fato de que o ápice da manisfestação patriótica se dê apenas de quatro em quatro anos – e se dá não nos ciclos quadrienais que separam uma eleição presidencial e estadual, ou municipal, da outra - mas sim no ciclo que traz ao ávido torcedor patriota, sedento por mais uma Copa do Mundo, as peripécias futebolísticas do Brasil no gramado.

O que me incomoda é que o veículo principal de conscientização do valor da cidadania, civismo e valores sociais sejam as tendenciosas e superficiais novelas, e que a identidade cultural brasileira se defina através de uma festa cujo maior mérito é, na verdade, a projeção externa do turismo sexual e o enaltecimento velado do banditismo e da prostituição (estes sim, os maiores financiadores carnavalescos) na condição de patrimônios culturais do país.

Nesse jogo, Povo x Governo, perdemos de goleada e estamos condenados, como cidadãos, a permanecer perpétuamente chafurdando na lama da segunda divisão se não valorizarmos nossos direitos - e também deveres - acima da superfluidade vigente. Na nossa novela cívica, o vilão da manipulação nos espezinha a cada novo capítulo, impedindo com cada vez mais afinco, que tenhamos a chance de sequer vislumbrar um final feliz. E em nossa eterna prévia carnavalesca (que dura, em média, onze meses por ano), nosso povo samba; despreocupada e alegremente, o samba do crioulo-doido; inebriado pelo poder altamente sedutor desse reino de faz-de-conta.

Panis et circensis, pra que te quero! Civismo não deve continuar sendo uma palavra relegada ao ostracismo nos dicionários, mas sim um instrumento utilizado e ostentado por cada um de nós com a devida consciência para a melhoria de nossa condição como brasileiros livres em um país que detém um potencial enorme - seja nos seus recursos naturais, seja na pessoa de seus cidadãos – tanto quanto qualquer outro país de primeiro mundo. Por que, até então, se por alguma misericórdia do destino temos marcado algum gol, esse tem sido contra. Se temos derramado alguma lágrima, essa tem caído pelos motivos errados, e se temos ainda samba no pé e fantasias que sobejam em plumas e paetês, é para desviar a atenção de quão miserável, feia e raquítica é a verdadeira situação de nosso povo.

David Quartieri

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