Articulistas

Furtaram, furtam, furtarão


| Tempo de leitura: 3 min

Lendo “Os Sermões” do orador sacro, Padre Antônio Vieira (1608-1687), um deles me chamou atenção ao se referir a um dos mais terríveis cânceres já existente na sua época: a corrupção. Na tribuna do leitor do dia 21/05, li no artigo intitulado “A Corrupção Nacional” escrito pelo senhor Jônathos Pessoa Siqueira, estas afirmações: “a corrupção grassa desde a era colonial e sempre serviu de meio de sobrevivência para nossas elites e seus apaniguados. Hoje, faz parte de nossa cultura...”

“Cá e lá, más fadas há” (Camões). Ambas as leituras me induziram a fazer com o tolerante e inteligente leitor uma revisão dos verbos não sob a ótica do ensino cansativo da gramática dos nossos bancos escolares, mas sim da gramática que constrói uma ponte sólida com a escola da vida.

Nada mais oportuno que escolher como paradigma da nossa revisão o verbo “furtar” que é da primeira conjugação e bem fácil de aprender e usar principalmente pelos nossos insignes representantes que integram os poderes legislativo e executivo.

O verbo furtar é empregado em todas as pessoas, em todos os escalões, mas a mais comum é a terceira pessoa do plural (furtaram, furtam, furtarão), é a pessoa da impunidade, pois não se descobre ou não se quer saber quem pratica a ação, o sujeito nessas ocasiões é indeterminado.

Emprega-se este verbo por todos os modos, por malas, laranjas, sindicatos, caixa 2, mensalões, cartões corporativos e ultimamente até pelo BNDES. É uma vergonha nacional.

O modo “indicativo” é realmente o mais empregado, o “subjuntivo” também, pois a maioria deles está sob suspeição. O “imperativo” é um modo forte; ordens, conselhos são dados através dele para se mentir ou denunciar. Furtam-se as consciências, a dignidade de nossos homens públicos.

Quanto às formas nominais, furtam pelo “infinitivo” (furtar) porque não tem fim o furtar desses ilustres representantes do povo; pelo gerúndio (furtando) e pelo particípio (furtado), porque independentes das circunstâncias, furtam em qualquer lugar e hora, em Brasília, nos Estados, nos Municípios, hoje, amanhã, durante o dia e à noite. Descalabro total!

Referindo-se aos tempos, o momento é agora, é o presente (furtam) para estes míseros imortais, insatisfeitos na sua ambição.

Quando menos se espera, o verbo furtar é conjugado no “pretérito” (furtaram, furtavam). É que se esquecem muito facilmente que a justiça é para hoje e que Deus mora no presente! O passado para eles cheira a mofo e o futuro (furtarão)... quem sabe nas próximas eleições?

As vozes verbais dependem da ação dos nossos nobres eleitos. Há corrupção “ativa” e “passiva”. A “reflexiva” acontece quando legislam em causa própria. A criatividade dos homens públicos, nessa voz, é impressionante: auxílo-moradia, auxílio-cabide, e o último agora auxílio-funeral, é auxílio que não acaba mais. Com tantos auxílios, parece-nos que são mais mendigos que homens públicos com cargos eletivos. A voz reflexiva se faz presente com mais volúpia, quando se trata de aumento de seus salários. Para eles, tudo; para os aposentados do INSS, professores, polícia militar e civil, saúde, nada.

Ao encerrarmos nossa revisão, alertamos aos pacientes leitores que, em geral as regras gramaticais têm exceções, como também na política há, felizmente, homens dignos e honestos, não muitos, mas há.

Peçamos a Deus que todos os membros do Legislativo e Executivo assumam a nobre posição de independência, de trabalho, de dever cívico melhorando assim o conceito negativo que a maioria do povo lhes atribui.

Que o verbo “furtar” seja abolido de seus dicionários!

O autor, Gino Crês, é professor e colaborador de Opinião

Comentários

Comentários