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Entrevista da semana: José Botelho de Figueiredo

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 10 min

Dono e criador de um império no ramo de prestação de serviços, com administradora de condomínios, manutenção de elevadores, segurança monitorada e patrimonial, o bancário aposentado José Botelho de Figueiredo, 76 anos, mais conhecido por Juca, completa no ano que vem 50 anos na área empresarial.

O início de tudo foi uma sala alugada na Vila Falcão, onde iniciou os trabalhos de um escritório de contabilidade com uma máquina de escrever emprestada. Começou com um funcionário, atualmente dá emprego para cerca de 600 pessoas.

Mesmo depois de aposentado, Juca não pára de trabalhar. Segundo ele próprio admite, faz uns quatro anos que não tira férias. Mas já está empenhado na transferência de responsabilidades para os filhos.

Na entrevista concedida ao Jornal da Cidade, Juca fala do início da carreira como empresário e dos empreendimentos realizados. Acompanhe.

Jornal da Cidade - Antes de ingressar definitivamente nessa vida de empresário, o senhor foi bancário. Como isso começou e por quanto tempo durou?

José Botelho de Figueiredo - Durou 32 anos. Eu comecei a trabalhar em banco em Pederneiras. Foi no Banco Nacional Paulista, que era um banco regional de pequeno porte. Isso foi no começo da década de 1950. Eu comecei como escriturário, mas quando abriram uma agência em Campinas, eu fui transferido para lá para trabalhar como subcontador. Hoje, a contabilidade bancária é unificada. Naquele tempo não. Cada banco tinha sua contabilidade. Os novos funcionários do banco, que foram contratados para trabalhar na agência de Campinas, não sabiam como fazer a contabilidade do Banco Nacional Paulista.

JC - E o senhor conhecia o serviço?

Juca - Eu conhecia. E por muito tempo o banco dependeu muito de mim por causa disso. Eu trabalhava dia e noite. Só dava tempo de eu ir para casa tomar banho, tomar café e voltava para o banco. Eu só folgava nos fins de semana que eu vinha para Pederneiras para namorar. Um dia recebi um telefonema da diretoria do banco dizendo que eles ficaram sabendo que eu estava trabalhando demais. Por conta disso, decidiram recompensar meu esforço. Eu iria receber meu salário normal na agência de Campinas e outro seria depositado pela agência de Pederneiras.

JC - Então, o senhor passou a receber dois salários?

Juca - Dois salários. Foi a forma que o banco encontrou de me recompensar por tudo o que eu estava fazendo. Fiquei muito contente. Mas pouco depois abriu uma vaga na contadoria da agência de Bauru e novamente o pessoal da diretoria me ligou. Eles disseram que sabiam que minha noiva era daqui e, por isso, queriam saber se me interessava a vaga. Eu aceitei. Isso foi em abril de 54.

JC - Permaneceu pouco tempo em Campinas?

Juca - Fiquei lá nove meses.

JC - E quando veio para Bauru o senhor perdeu a gratificação de um salário a mais por mês?

Juca - É, aí cessou. Eu passei a receber só o salário de contador. E em 1955, eu me casei. Três anos depois, o Banco Nacional Paulista foi comprado pelo Banco Português do Brasil e eu continuei como contador. Em 1959, eu já tinha três filhos e o orçamento da família estava apertado. Para melhorar a renda, decidi iniciar um negócio próprio.

JC - Que tipo de negócio?

Juca - Quando morava em Pederneiras, eu fazia a escrita fiscal de alguns botecos e ganhava uns trocos por isso. Então, decidi abrir um escritório de contabilidade na Vila Falcão. Naquela época não existia nenhum e era um bairro grande. Aluguei uma sala e precisava de pelo menos uma máquina de escrever e eu não tinha dinheiro para comprar uma. Então, a mesma pessoa que alugou a sala para mim, me emprestou uma máquina. Começou assim.

JC - O senhor ia para o escritório todos os dias?

Juca - Eu saía de casa, todos dias, por volta das 5h30. Eu morava na rua Agenor Meira e, como não tinha carro, ia andando até a Falcão. Ficava lá até as 8h. Aí eu pegava um ônibus e ia trabalhar no banco. Arrumei um garoto para ficar no escritório durante o dia para atender os clientes, pagar impostos. Quando saía do banco, eu ia para casa, tomava um banho, jantava e 19h eu ia para o escritório e ficava lá até por volta da meia-noite. Isso durou uns dois anos.

JC - E o que aconteceu depois desses dois anos?

Juca - Eu aluguei uma sala no Centro da cidade. A clientela tinha crescido bastante e eu precisava de um espaço maior. Encontrei um salão que tinha uma casa no fundo. Aluguei os dois e fui morar lá. Fiz sociedade com o menino que trabalhava para mim e também com um cunhado. E o negócio continuou crescendo. O relacionamento com os clientes do banco me ajudou muito. Mas em 1954 fui transferido para Bariri. Eu tinha acabado de construir uma casa na rua Agenor Meira com todo carinho, móveis novos, minha mulher toda entusiasmada. Quando estávamos para mudar, tivemos que ir para Bariri. Eu iria assumir o cargo de gerente.

JC - Ficou difícil de recusar a oferta?

Juca - Eu fiquei pensando: ‘se eu recusar, pode ser que nunca mais me apareça outra oportunidade. Eu vou tentar’. O escritório ia bem sem a minha presença. Eu poderia dar uma olhada nos papéis nos fins de semana. Imediatamente, vendi a casa, com dor no coração. Pensei que nunca mais voltaria para Bauru.

JC - E voltou quanto tempo depois?

Juca - Permaneci em Bariri por seis meses. Aí, por solicitação da clientela, que fez até um abaixo-assinado pedindo que eu voltasse, vim trabalhar como gerente em Bauru. Isso tudo me deixou muito envaidecido. Em 1967, o Banco Auxiliar de São Paulo ia inaugurar uma agência em Bauru e me convidou para ser gerente. No início, eu relutei em aceitar. Afinal de contas, eu estava há 18 anos no mesmo banco. Quando o Banco Português encampou o Banco Nacional Paulista todos meus diretos trabalhistas foram preservados. Mas não teve jeito. A proposta foi muito tentadora, acabei aceitando. Fiquei nove anos na gerência do Banco Auxiliar. O mesmo aconteceu quando o Banco Mercantil abriu agência em Bauru. Fui convidado para assumir a gerência e aceitei. Fiquei mais seis anos e me aposentei. Desde então, já se passaram 27 anos.

JC - Então, na verdade, a Consiste surgiu de uma necessidade financeira?

Juca - Correto. Em 2009, estaremos completando 50 anos de atividade. Começamos como Escritório Comercial Progresso, na Vila Falcão. Depois fomos para o Centro. Compramos a casa da Eny (um prostíbulo famoso da cidade), na rua Rio Branco, para mudar o escritório para lá.

JC - Imagino que na época a compra deve ter gerado alguns comentários. Afinal de contas, a casa havia ficado muito conhecida em todo o Brasil.

Juca - Já fazia algum tempo que o lugar tinha deixado de ser um meretrício, mas as pessoas comentavam sim. No dia da inauguração, alguém disse ‘ah, se essas paredes falassem’ (risos).

JC - A Organização Progresso continuou crescendo?

Juca - Algum tempo depois, nós montamos a imobiliária.

JC - Tudo isso ao mesmo tempo? Escritório de contabilidade, banco e imobiliária? O senhor trabalhava nos três?

Juca - Nos três.

JC - E quando foi e por que vocês mudaram o nome das empresas para Consiste?

Juca - Um dia chegou um grupo de aventureiros aqui em Bauru e abriu diversas lojas de móveis. E deram o nome de Progresso. As pessoas passaram a confundir as coisas. Tinha gente que ia no escritório e dizia que eu estava crescendo, porque até loja de móveis eu estava abrindo. Tinha aqueles que compravam e depois diziam que tinham comprado na minha loja. E eu sempre corrigia e falava que as lojas não eram minhas. Não demorou muito, as lojas fecharam e deram um tombo na praça. Foi aí que eu decidi mudar de nome. De Progresso, nós passamos a atender por Consiste. Isso em 1988.

JC - Logo depois, vocês lançaram a administradora de condomínios. Quantos condomínios existiam na cidade naquela época?

Juca - Acho que uns 50 a 60 condomínios. Eram poucos, mas a modalidade pegou. O pessoal gostou da novidade. Porque esse tipo de serviço não existia na cidade.

JC - Que tipo de serviço vocês ofereciam?

Juca - Nós oferecíamos um trabalho diferenciado. Em São Paulo, existiam muitas administradoras, mas nenhuma oferecia o empregado. O empregado era o condomínio que contratava. A administradora apenas ajudava na seleção dos funcionários, na contabilidade, emitia recibo de pagamento de condomínio, convocava e participava de assembléias. Nosso diferencial era que nós oferecíamos o serviço e o empregado. Desde o zelador até o faxineiro, a responsabilidade era nossa. Em pouco tempo, já tínhamos um grande número de condomínios. No começo foi difícil porque era eu que tomava conta de tudo. Às vezes, me ligavam à meia-noite para dizer que o porteiro não tinha ido trabalhar. Eu levantava da cama, pegava o carro e saía à procura de um porteiro de folga para substituir aquele que tinha faltado. Depois a empresa foi crescendo e tivemos condições de contratar um supervisor que ficasse 24 horas à disposição para esse tipo de emergência.

JC - E quantos clientes vocês têm hoje?

Juca - Nós temos cerca de 4 mil apartamentos sob nossa responsabilidade.

JC - Imagino que ter uma administradora de condomínios e uma imobiliária dentro do mesmo grupo é algo extremamente vantajoso?

Juca - Para a imobiliária, era um filezinho muito bom porque a administradora tem o cadastro de todos os proprietários. Mas nós tivemos de largar a imobiliária há um ano e meio, aproximadamente, porque ela tem uma característica peculiar. O dono precisa estar à frente do negócio. Ele é que tem de atender o cliente para criar o vínculo. Quando você delega esse serviço corre um risco muito grande. Porque o funcionário cria o vínculo com o cliente e se ele decide montar um negócio próprio o cliente vai junto porque confia no trabalho dele.

JC - Vocês deixaram a imobiliária, mas iniciaram algum negócio novo?

Juca - Em conversa com meus filhos, que trabalham comigo, nós decidimos abrir uma corretora de seguros. Percebemos também, graças à administradora de condomínios, que a manutenção dos elevadores estavam nas mãos de três empresas. Era quase um cartel. Eles cobravam o que queriam. Então resolvemos montar também uma empresa que dá assistência em elevadores. Também tem sido um sucesso. Hoje, nós administramos, entre Bauru, Marília, Presidente Prudente e Londrina, cerca de 1.200 elevadores. Temos também uma empresa de segurança e vigilância que atende Bauru, Jaú e Araraquara. Vimos também a necessidade de criar uma empresa de segurança monitorada. De Bauru, nós sabemos o que está acontecendo em uma empresa de outra cidade. Nós monitoramos daqui.

JC - Quase todas as empresas que o senhor criou cresceram e continuam fazendo sucesso. A que o senhor atribui essas conquistas?

Juca - Eu atribuo o sucesso das minhas empresas e de qualquer outra à honestidade e transparência com os clientes. Esses me parecem ser os pontos principais. Além disso, é preciso muito trabalho. Tem um ditado que diz que não existe dificuldade que o trabalho não resolva.

JC - Quando não está trabalhando, o que o senhor faz para relaxar?

Juca - Eu tenho uma chácara aqui em Bauru faz uns 26 anos. É lá que eu passo o fim de semana. É o ponto de encontro da família. Invariavelmente, no almoço de domingo está todo mundo lá. Todos os filhos, netos, amigos. É uma casa boa. Tem piscina, sauna, hidromassagem, campo de bocha. É meu pedaço do paraíso.

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Perfil

Nome: José Botelho de Figueiredo

Idade: 76 anos

Local de nascimento: Pederneiras

Mulher: Aparecida Antônia de Souza Figueiredo

Filhos: Maria Antônia, Leilane e Joaquim Pedro

Hobby: “Gosto de ler e assistir noticiário de TV”

Livro de cabeceira: “Prefiro revistas”

Filme preferido: Filmes históricos

Estilo musical predileto: MPB

Time: São Paulo e Noroeste

Para quem dá nota 10: Para os ex-prefeitos Alcides Franciscato e Oswaldo Sbeghen

Para quem dá nota 0: Para a violência

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