Tribuna do Leitor

O que faço com os cachorros?!


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Os cães, assim como os gatos, têm um alto poder de procriação, enquanto um casal humano tem um filho por ano os animais tem em média 10 ou mais filhotes resultantes de duas ou mais gestações anuais, e em pouco mais de seis meses estes mesmos filhotes também já serão pais e estarão gerando mais e mais descendentes em progressão geométrica.

A população brasileira por sua vez é absolutamente despreparada moral e psicologicamente para o manejo correto de animais. Traz em seu inconsciente coletivo um ranço colonial ainda latente, resultante do modelo “casa grande e senzala” que originou o nosso país, calcado na exploração das matas, dos índios, dos escravos, dos mais fracos e dos animais. O que esperar de uma população que atira seus filhos em lagoas, nas lixeiras e das janelas dos edifícios? Imaginem então o que não fazem com os animais? Alguns até acreditam que rodeio é cultura e diversão!

O resultado deste despreparo, desta falta de educação, desta falta de humanidade é um número absurdo de animais vagando pelas ruas, famintos, doentes, sofridos. Estima-se que existam em média 01 (um) cão para cada 05 (cinco) habitantes nas cidades brasileiras, sendo que pelo menos 10% deles encontram-se em situação de abandono.

A partir desta premissa, a cidade de Bauru tendo aproximadamente 350 mil habitantes, tem em torno de 70 mil animais, existindo, portanto, em torno de 7 mil animais errantes.

É de se perguntar qual seria a ONG ou entidade capaz de acolher 7.000 (sete mil) animais, disponibilizar viaturas e pessoal preparado para a captura, prover moradia adequada, alimentação sadia, vacinação eficaz, vermifugação confiável, acompanhamento veterinário, medicação, cirurgias, etc etc e etc? Quantos milhares de reais seriam necessários para tal empreitada?

Os cães de rua não recebem vacinação, conjugada tal situação com a desnutrição tornam-se assim focos de inúmeras doenças oportunistas, que acabam se tornando questão de saúde pública, não restando outra alternativa ao Centro de Controle de Zoonoses senão o sacrifício. A Prefeitura mal cuida das crianças, irá cuidar de animais???

A única saída para tal impasse se daria através da adoção de três medidas: educação, educação e educação de todas as crianças, com matérias de cunho humanista, ambiental, sociológico e filosófico desde os primeiros anos escolares. Mas aí observamos também que não há, até o presente momento pelo menos, o menor interesse das elites governantes em dar educação de qualidade aos filhos dos trabalhadores.

A escola pública é propositalmente sucateada, difamada, os professores humilhados com míseros salários e condições insalutíferas de trabalho, há um achincalhe programado, uma vez que entendem os detentores do poder que basta ensinar a ler e escrever acrescendo-se o aprendizado das quatro operações rudimentares da matemática, produzindo assim, mão de obra barata e de fácil manejo para o mercado de trabalho. O que esperar de um presidente que se vangloria de ser semi-alfabetizado?

E que elege a ignorância a patamares de virtude? Vale ressaltar o que disse Francisco de Assis no longínquo ano de 1206, em pleno vigor do espírito feudal: "Nada define melhor a condição humana do que a capacidade de amar os bichos".

Fátima Schroeder - bióloga e presidente da ONG Naturae Vitae - www.naturaevitae.org

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