Esportes

Goleiro: Uma posição em alta

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

“Eu vou lhe avisar, goleiro não pode falhar”, diz uma antiga canção de Jorge Ben Jor. A letra já dá a dimensão da responsabilidade de jogar debaixo da trave. O goleiro vive de evitar a alegria - da torcida rival entenda-se - procurando impedir o que todos querem ver no futebol: o gol. Muitas vezes, ainda tem de conviver com a desconfiança, a cobrança e a incompreensão dos próprios torcedores. Além do mais, é o único em campo que, quando falha, é gol certo.

Seria, então, uma posição amaldiçoada? Nem tanto. Quem não se lembra de uma partida de seu time em que o goleiro fechou o gol? Como é reconfortante olhar para trás e ficar tranqüilo, lá está o nosso paredão! O goleiro é a última esperança e, muitas vezes, a única, como na cobrança de pênalti. O goleiro é o homem de confiança, da torcida e do time. E, se dizem que onde ele joga não nasce nem grama, também dizem que um bom time começa por um bom goleiro.

O goleiro brasileiro está em alta e isso se reflete nos garotos, que já não pensam em ser apenas o goleador do time, muitos querem jogar lá atrás e serem reconhecidos pelas defesas e não pelos gols. Foi-se o tempo em que só era goleiro quem não tinha intimidade com a bola nos pés. Hoje temos os goleiros por vocação.

Para o preparador de goleiros do time profissional do Norusca, Ubiratan Vieira de Mello, o Bira, os goleiros brasileiros subiram de qualidade nos últimos anos e ganharam status de ídolos, o que atrai os meninos para a posição. “Hoje, os garotos estão procurando os clubes e as escolinhas de futebol já direcionados a serem goleiros. Tendo em vista a evolução que houve em relação à posição, os garotos procuram se espelhar nos ídolos, como Marcos, Rogério Ceni, Dida... O Brasil se tornou um grande celeiro de goleiros. Então, os garotos estão vindo com esta mentalidade de se tornarem goleiros”, considera.

Bira revela também a chave para o salto de qualidade no gol do futebol brasileiro. “O maior mérito está na evolução do treinamento específico. Sempre digo que os profissionais que estão trabalhando com a preparação dos goleiros é que estão dando este respaldo. Então, esta união de fatores, condicionada à boa estrutura dos clubes, dá este resultado dos goleiros terem esta performance boa”, comenta.

José Evandro Pontalti, preparador de goleiros das categorias de base do Noroeste, concorda com Bira. “O que mudou muito foi a preparação dos goleiros. O goleiro hoje tem um preparador, que foi goleiro, que jogou. Hoje, uma criança de oito, nove anos já quer ser goleiro. Ela já vai para o campo pensando em ser goleiro. O pai já compra a luva e o material esportivo para ela ser goleiro. Antigamente, não. Antigamente, você era ruim e ia para o gol. Falava-se que onde o goleiro pisava não nascia nem grama. Hoje, os garotos já estão procurando mais esta profissão”, acrescenta.

Pontalti, que trabalha com todos os times de base do Norusca, diz que a seleção para um bom goleiro começa muito cedo e que tamanho, pelo menos nesta posição do futebol, é documento. “(Altura é importante) Principalmente para os meninos de 12, 13 anos, que têm pouca noção do gol. O que têm é muita vontade. Colocam uma luva e querem ser goleiro. Então, a gente vê primeiro a altura. É fundamental. Depois, a agilidade. Mas, para avaliar ele debaixo da trave, é difícil. Por isso, perguntamos se ele quer ser goleiro para analisá-lo. Se ele quiser realmente ser goleiro, as coisas vão caminhar para um lugar melhor”, afirma.

Pontalti comenta ainda sobre a dura rotina dos goleiros e a complexidade da posição. “Em dia de folga dos jogadores, o goleiro está treinando. São muitos fundamentos. O goleiro tem de arremessar com as mãos de forma perfeita, tem que saber bater na bola, tiro de meta, batida à meia altura, tem que ter uma saída de gol muito boa. Por isso, um tempo só não é suficiente para ele treinar. Tem de treinar dois períodos. Tem que ser o primeiro a chegar e o último a sair. Eles (garotos das categorias de base), que estão se formando, têm de treinar muito mais ainda”, decreta.

Bira ratifica o sacrifício da posição, mas diz que a qualidade do treino de hoje evita desgaste desnessário ao goleiro. “O volume de treinamento é intenso. Temos um trabalho que exige bastante força e o atleta tem de estar bem condicionado fisicamente, porque tem várias situações que exigem do goleiro. Caso contrário, não vai agüentar o trabalho. Tem uma carga maior, principalmente de força, explosão, reação. Isso causa um desgaste. Mas, em contrapartida, mudou em relação a antes. Antigamente, pensava-se ‘se o goleiro não estiver morto, não acabou o treino’. Hoje não existe mais isso. O que existe é uma qualidade maior no treinamento”, explica.

Entre os fatores para se formar um bom goleiro estão a boa colocação, a estatura e a explosão, mas Bira cita uma qualidade, em sua opinião, fundamental para o goleiro conquistar seu espaço: a personalidade. “O goleiro deve se impor dentro de um comando de uma equipe. Se ele fizer isso, já tem meio caminho andado”, ensina.

É perigoso o caminho do goleiro em uma partida de futebol. Muitas vezes herói, outras vilão. Mas, quando o goleiro “salva a pátria”, o reconhecimento das arquibancadas vem até dos torcedores rivais, que se rendem a uma defesa espetacular. Como odiá-lo? “O goleiro é um homem de elástico”, como diz outra canção, esta de Nando Reis e Samuel Rosa.

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