Esportes

Tênis bauruense atravessa gerações

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 9 min

JC - Como nasceu seu gosto pelo tênis?

Roberto Cardoso - Meu pai jogava mais ou menos e eu gostava muito de futebol. Mas meu pai não queria que eu me encaminhasse para o futebol. Eu jogava relativamente bem quando era moleque, mas ele me encaminhou para o tênis para eu ir me afastando do futebol. Foi assim que comecei.

JC – Seu pai não queria que você fosse jogador?

Cardoso – Não queria que eu praticasse o futebol, que é um esporte mais violento, com mais contato físico, enquanto o tênis não tem o contato físico. Pode ser até mais desgastante que o próprio futebol, pois o tênis é contínuo e você não pára um segundo. No futebol são onze e, quando a bola está lá na frente, a defesa está descansando, e vice-versa. Tanto que tem partida de tênis que dura mais de cinco horas, não é brincadeira. Além disso, na minha época não tinha preparo físico. Eu nunca fiz preparo físico. Esse negócio de aquecimento, na minha época, não tinha nada disso. Chegava, entrava na quadra e jogava.

JC – Era um tempo mais, digamos, romântico...

Cardoso – Era amadorismo mesmo. Hoje em dia, o jogador que se sobressai só faz isso na vida. Os tenistas tops de linha têm preparador físico, fisioterapeuta, técnico, nutricionista. É uma equipe que trabalha com eles e só fazem isso na vida.

JC – Em Bauru o senhor começou jogando onde?

Cardoso – No BTC.

JC – Com quantos anos o senhor começou a jogar?

Cardoso – Comecei, mais ou menos, aos 10 anos. Já comecei velho para o tênis. Isso porque, naquela época, era muito difícil. Os campeonatos de tênis eram infanto-juvenil, infantis e juveni e não tinha separação. O que tinha 10, 12 anos jogava com um que estava completando 18 anos de idade. Hoje é por categoria, por idade, e é mais fácil, mais igual. Naquela época eu trabalhava, entrava às 8h da manhã no serviço e saía às 6h da tarde. Tinha casa de comércio com meu pai na rua Batista e depois fiz concurso para o INPS e entrei. Era difícil conciliar. Treinava das 6h da manhã até as sete e pouco e ia correndo trabalhar. Saía às 18h, ia direto para a quadra de tênis e treinava mais umas duas horas.

JC – Como o senhor conseguiu evoluir na carreira e conquistar tantos títulos?

Cardoso – Era muita força de vontade. Sabe, para jogador e esportista do interior tudo é mais difícil, quando comparado com os da capital.

JC – Por que o senhor diz isso?

Cardoso – Os tenistas da capital sempre tem algum privilégio, seja pela Federação Paulista de Tênis. Sabe, aquele grupinho que comanda o esporte, como em todo esporte. Era difícil um jogador do interior ser convocado para uma equipe paulista ou brasileira. Me sinto orgulhoso por isso, pois eu, sem pistolão e com meu esforço, fiz parte da seleção paulista e ganhamos um campeonato brasileiro. Também fiz parte da equipe do Brasil também na Taça Davis, em 1951.

JC – Esse é o seu feito mais significativo?

Cardoso – Sim. Para um tenista do interior, que nunca se profissionalizou, ser convocado era muito difícil. Me sinto orgulhoso nessa parte.

JC – O senhor considera essa participação na Davis e na seleção paulista como o ápice de sua carreira?

Cardoso – Foi. Em 1951, fiz parte de duas equipes do Brasil. O primeiro Jogos Pan-Americanos, que foi realizado na Argentina, em Buenos Aires, participei pela equipe do Brasil. Em 1951, integrei a equipe da Taça Davis, quando fomos jogar lá na Finlândia. E na época, como era o mês de Roland Garros, fomos convidados pela federação francesa para jogar lá. Tive a honra de jogar Roland Garros. Perdi no primeiro jogo, mas já valeu só por pisar e, principalmente, na quadra central com um francês.

JC – O que o senhor se recorda dessas participações na Davis? Que casos o senhor lembra?

Cardoso – Fomos visitar as quadras de tênis em que íamos jogar contra os finlandeses. Eram mais ou menos 6h da tarde e eles marcaram os jogos para as 19h. Achamos esquisito aquilo, porque não tinha iluminação artificial. Eles deram um sorrisinho e não falaram nada. Para encurtar a história, à meia-noite estávamos vendo o sol ainda, que era o famoso sol da meia-noite. Além disso, o capitão da equipe brasileira, que era o doutor Álvaro Osório, contratou um fisioterapeuta para fazer umas massagens na equipe brasileira. Só que era uma massagem completamente diferente daqui, pois batiam com força, davam pancadas. Estranhamos e, desse jeito, ele só foi contratado por um dia (risos).

JC – É verdade que o senhor, quando jogava, não tinha dó dos adversários?

Cardoso – Não gostava de perder. Mas o esporte ensina muita coisa para o ser humano. Ensina a ganhar, mas, principalmente, ensina a saber perder. Quando eu perdia, não desanimava. Treinava como um louco para poder ter uma chance de ter a revanche de quem eu perdi. No Bauru Tênis Clube, quando eu já era veterano, tinha um campeonato mensal que a diretoria dava ao 1.º lugar uma raquete, dava material esportivo para quem se classificasse entre os quatro ou cinco melhores da categoria. E tinha o campeonato permanente de classificação e eu era o número um. Com o passar do tempo, o número dois me desafiou, que era o Júlio Góes, o Meca, e ganhou de mim. Fiquei louco, treinei que nem um louco, mas não podia desafiá-lo porque perdi dele. Por isso, tive de jogar com o número três, ganhei dele e aí sim podia desafiá-lo de novo. Desafiei e ganhei dele. Terminou o jogo, cheguei para o Cláudio Sacomandi, que é o que administrava a parte de tênis, e falei para tirar meu nome da classificação. Falei que não disputaria mais porque não estava para morrer na quadra (risos). Já era veterano e jogar com essa garotada que estava subindo era duro. Por isso, brinco que o único tenista de Bauru, desses todos que estão aí até hoje, que conseguiu ganhar de mim uma vez foi o Meca. Meu treino não era bem um treino, era um jogo. Treinava como se estivesse jogando o campeonato. Talvez seja por isso que, quando entrava na quadra, não tremia. Tem jogador que parece campeão do mundo quando está batendo bola, mas quando chega no campeonato dá tremedeira. Já treinava para ganhar e não gostava de perder.

JC – O que é ser um tenista para o senhor? Como é que o senhor define um tenista?

Cardoso – Ser um tenista eu defino da seguinte maneira: precisa levar muito a sério. Em primeiro lugar, não beber, não fumar e levar uma vida bem regrada, disciplinada, porque senão não vai pra frente.

JC – O senhor considera que hoje é mais fácil ou mais difícil jogar tênis?

Cardoso – Acho mais fácil. Na minha época era muito difícil praticar o tênis por várias razões. O garoto não tinha muito incentivo, tanto que não tínhamos pegador de bola, não tínhamos bola. Para treinar, quando era moleque, jogávamos com oito, dez bolas na quadra, tudo meio careca já. A gente jogava tropeçando nas bolas, porque não tinha pegador. Era tudo mais difícil, mesmo para jogar contra os melhores. Não tínhamos técnico. Nunca tive um professor de tênis e a maioria na época não tinha professor.

JC – Então vocês aprendiam e evoluíam jogando o, sem ter outra orientação?

Cardoso – É. Vendo a empunhadura da raquete, do jeito que achava melhor para devolver, e a gente ia progredindo assim.

JC – Não tinha treino específico como hoje...

Cardoso – Não tinha. Para jogar com os melhores era muito difícil. Por exemplo, na minha época, eu estava com 10, 11, 12 anos, já crescendo no tênis, e os mais velhos não gostavam de jogar com os garotos. O que meu pai fazia? Meu pai ia comigo no sábado e no domingo ao clube e ficava apostando contra os melhores jogadores um tubo de bola. E assim foi onde consegui progredir. Tanto que cheguei a ter 42 tubos de bola Dunlop fechados. Foi o jeito que o meu pai achou para poder progredir. E talvez, por isso, comecei a jogar tênis com responsabilidade. Já comecei com essa responsabilidade, pois precisava ganhar para não fazer meu pai gastar dinheiro.

JC –Quem foi o maior jogador de tênis de todos os tempos no Brasil e no exterior?

Cardoso – O Pete Sampras foi um dos maiores jogadores, mas não sei diferenciar se o Federer atualmente é melhor que ele. No Brasil foi o Guga, no masculino, e a Maria Esther Bueno, no feminino. Vai ser difícil aparecer outro Guga.

JC – O senhor acha que o esporte não é massificado ainda no País?

Cardoso – Não sei. Tenho impressão que as escolas argentina e chilena, na América do Sul, são melhores que a do Brasil. Não sei diferenciar o porquê. Será porque o tênis lá seria mais popularizado do que aqui no Brasil? Pode ser.

JC – Mas o senhor acha que o tênis no Brasil já deixou ser um esporte de elite?

Cardoso – Não, ainda está longe disso. Quando estive em 51 na Argentina, jogando o primeiro Jogos Pan-americanos, passávamos nas avenidas com parques de um lado, de fora a fora, que possuíam uma quantidade enorme de quadras de tênis populares, públicas. Além disso, a federação de tênis da Argentina tem olheiros, que ficam correndo esses parques. Quando eles detectam um garoto com futuro, eles já separam e a federação os encaminhava para clubes, dando incentivo e materiais para poder desenvolver. Aqui no Brasil não existe isso.

JC –Uma de suas vitórias memoráveis foi contra o Armando Vieira. É verdade que ele era meio esnobe?

Cardoso – O Armando Vieira foi campeão brasileiro e sempre se achava superior a todos. Na Taça Davis, em 51, ele também fez parte da equipe, pois era o campeão brasileiro da época e o número 1 da equipe. Essa vitória foi no último campeonato que joguei de veterano, ocorrido no Tênis Clube de Santos, em 1988. Depois que terminei essa competição, vim para Bauru. Sempre tive um problema de quadril, que não é o mesmo enfrentando pelo Guga, pois o meu era mais grave. Fui no médico e ele disse que teria de fazer uma prótese de quadril. Por isso, brinquei mais uns três ou quatro anos sem competir com os amigos, e, em 1994 fiz a cirurgia de quadril. Depois disso nunca mais entrei numa quadra.

JC – Qual conselho o senhor daria para quem pensa em fazer carreira no tênis?

Cardoso – Não beber, não fumar e ter uma vida regrada. Além disso, não querer praticar tudo quanto é esporte e ter incentivo da família, porque sem isso não adianta.

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