Cultura

Nasi revisa sua carreira com novo show

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

“Já está claro que eu estou na ativa”. É assim que Marcos Valadão Rodolfo, muito mais conhecido como Nasi, contempla seu atual momento. Ainda enfrentando e movendo processos judiciais que provocaram/foram provocados por sua saída do Ira!, ele montou uma nova banda e volta a Bauru, hoje à noite, para um show na “Série Grandes Nomes” do Alameda Quality Center, no restaurante Beef Street.

A “excelente banda”, em sua definição, conta com o baixista Gaspa, parceiro no Ira! pelos últimos 25 anos. Para Nasi, isso é a prova de que se alguém continua com a “herança do Ira!”, são eles mesmos. “Tentaram vender para o público que eu era o problema da banda. Hoje, estou com o Gaspa e estamos muito bem”, afirma o músico, em entrevista ao JC Cultura.

No ano passado, depois do lançamento do elogiado álbum “Invisível DJ”, Nasi decidiu retirar-se do Ira! após uma briga com seu irmão e empresário da banda, Airton Valadão Rodolfo Júnior. O vocalista acusou o empresário de ter fraudado prestação de contas e furtado o dinheiro da banda. Do outro lado, o irmão e o pai de Nasi pediram sua interdição judicial (que transfere a gestão de direitos de uma pessoa a um terceiro, em razão de incapacidade de praticar atos da vida civil).

Na ocasião, outros membros do Ira! vieram a público para lamentar a atitude de Nasi. Foram feitas referências, inclusive, a problemas com dependência de drogas e álcool. O vocalista, então, afirmou que tratou-se de seu vício em cocaína em 1997 e não mais era dependente.

Segundo Nasi, o Ira! havia planejado férias para o ano de 2008 e isso, em sua opinião, teria sido a melhor coisa para a banda. “Infelizmente, minha relação com o Edgard (Scandurra, guitarrista do Ira!) estava desgastada e essa era uma situação que as pessoas estavam tentando jogar para debaixo do tapete. Isso não é digno de uma banda”, lamenta o músico.

“Eu pretendia ter viajado para fora do Brasil, mas tenho de ficar aqui, por conta dos muitos processos que estou enfrentando. Não tinha planejado que o Ira! ia se dissolver, mas descobri que fui enganado pelo ex-empresário (seu irmão, Airton)”, afirma Nasi.

Ele revela que deve receber o laudo da prestação de contas do Ira! até amanhã. “Vou anunciar que toda a farsa que foi montada tinha como pano de fundo simplesmente impedir essa prestação de contas, porque eu fui roubado! É duro dizer isso, que eu fui furtado pelo meu irmão. Infelizmente, não foi uma briguinha, ninguém lamenta mais do que eu tudo o que aconteceu, mas não vou poder botar panos quentes”, diz. “O dinheiro corrompe as pessoas”, completa.

Força total

Com a permanência no Brasil, Nasi enfrentou um novo desafio. Convidado pelo diretor Tiaraju Aranovich, o músico aceitou o papel de protagonista do longa “Sem Fio”, que deve ser lançado neste ano. “Cinema é uma arte do diretor, então ainda não sei do resultado final. Vi alguns trechos, conheço bem a história e o filme tem tudo para ser bem legal. Tem ação e elementos contemporâneos, como a solidão, a comunicação digital”, entrega Nasi.

Seu personagem no longa é Castro, um mentiroso raivoso e viciado em cocaína que trabalha em um centro de atendimento telefônico, uma espécie de CVV. “Ele é complexo, desiludido, auto-destrutivo. As gravações ocorreram no meio de todos aqueles fatos, da separação, brigas, processos... De uma maneira, digamos, surpreendente, isso criou o caos emocional que compôs o personagem. Tudo o que eu vivi foi canalizado para esse santo personagem (risos).”

Depois do filme, Nasi voltou à música. Desde meados de março, ele vem fazendo shows nessa carreira solo, agora não mais como um projeto paralelo ao Ira!. Além do baixista Gaspa, sua nova banda conta com Júnior Moreno (baterista do Blue Jeans, que tocou com o músico em seu mais recente disco solo), Nivaldo Campopiano (guitarrista do Musak e parceiro em composições) e André Youssef (tecladista que toca pela primeira vez com o blues-roqueiro).

“Esses shows são como uma retomada da minha carreira, um apanhado de músicas que gravei com o Ira!, muita coisa dos meus CDs solo, da fase mais blues e do disco recente (‘Onde os Anjos Não Ousam Pisar’). Tem também versões de compositores que acho legais, ‘Verdades e Mentiras’, dos Voluntários da Pátria, que foi o meu primeiro disco”, lista Nasi.

Entre os hits do Ira!, que o músico não deixa de cantar justamente por se considerar o herdeiro do legado da banda, estão “Tarde Vazia”, “Bebendo Vinho”, “Por Amor”, “Eu Vou Tentar”, “Flores em Você”, “Eu Quero Sempre Mais” e “Dias de Luta”. Com certeza, são provas de que Nasi seguiu em frente, mas não precisa nem quer apagar e reescrever sua história.

Ele destaca uma outra canção que está no show: “O Tempo Não Pára”, de Cazuza. “Não é a toa que canto essa música. Infelizes do Edgard (Scandurra) e do André (Jung, ex-baterista do Ira!), que deveriam ter ficado do lado de um companheiro, porque também foram roubados. O que sinto é que as pessoas perceberam a verdade e me dão apoio, seja com um abraço na rua ou as palmas nos shows”, afirma.

A intenção de Nasi é fazer um DVD com a atual turnê, porém não há pressa para nada. “Quero chegar ao ponto de ter composições novas, que hão de vir. Não estou concentrado em compor”.

Ele comemora ainda uma boa notícia, que analisa como a consolidação do trabalho atual: o convite para dividir o palco com a banda inglesa Echo & The Bunnymen, na festa de uma rádio da Capital, no início do próximo mês. “No momento, estou muito bem servido”, finaliza.

• Serviço

Série “Grandes Nomes” apresenta Nasi no restaurante Beef Street, no Alameda Quality Center, hoje a partir das 21h. Ingressos: R$ 89,90 (com jantar). O Alameda Quality Center fica na rua Luis Levorato, 1-55, no quilômetro 335 da rodovia Marechal Rondon. Mais informações: (14) 3321-5000.

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O fim do Ira!

No final do ano passado, depois das discussões e desentendimentos do Ira!, o guitarrista Edgard Scandurra anunciou que a banda havia chegado ao fim e que um novo grupo seria iniciado. Chamado apenas de Trio, a banda teria o baterista André Jung e o baixista Gaspa, além de Scandurra nas guitarras e vocais. Antes mesmo de acontecer, o projeto foi cancelado, conforme informou Jung, em fevereiro deste ano.

Scandurra está envolvido com seu projeto de eletro-rock Benzina (com o qual já veio a Bauru) e também no retorno do Smack - banda que integrou no início dos anos 80. Jung está no projeto Urban ToTem.

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