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Por quem os sinos dobram?


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Nós estamos aqui para fazer a diferença. Um dia por vez, um ato por vez, pelo tempo que for preciso para fazer do mundo um lugar de justiça e compaixão, onde os solitários não estejam sós e os carentes encontrem ajuda; onde a súplica do fraco seja atendida e os injustiçados sejam ouvidos.

Se durante o breve intervalo de tempo de nossas vidas, demos ânimo novo a alguém, atenuamos a pobreza ou a solidão de outro ser humano ou o brindamos com um momento de graça ou de justiça que não teria acontecido senão por um ato nosso, fizemos a diferença. São fatos e momentos simples como estes, presentes num cotidiano isento de heroísmo, que definem o sentido de uma vida bem vivida.

Por que devemos nos sentir moralmente implicados com as vítimas de um terremoto ou de conflitos étnicos se estas coisas estão acontecendo longe de nós, a pessoas que não conhecemos e com as quais pouco temos em comum, coisas cujos desdobramentos e conseqüências provavelmente não nos abalarão?

Por que eu teria qualquer relação com o futuro dos desempregados, dos sem-teto, dos carentes na sociedade em que vivo? Por que eu teria que me preocupar com a conservação da praça ou com o mato que cresce no condomínio ou no bairro onde moro? Poderia argumentar: estes problemas são extensos demais para que minhas ações façam diferença.

Em troca de impostos, nós nos habituamos a delegar as responsabilidades ao governo, substituindo assim, a ética pela política, a obrigação moral por fria legislação e o envolvimento pessoal por órgãos públicos sem rosto. Como resultado, o princípio da ética tende a se ocultar, transformando em escolha pessoal aquilo que, na verdade, é responsabilidade coletiva.

Houve um tempo em que as pessoas viviam em contato próximo e constante com os vizinhos, criando redes de valores compartilhadas e obrigações recíprocas. Hoje, somos cidadãos anônimos, vivendo entre estranhos, gente cujos códigos religiosos, culturais e morais diferem dos nossos.

Devemos nos preocupar com a humanidade. Quando se vê doença, pobreza, desespero, não se deve parar para perguntar quem está sofrendo. É preciso agir. As lágrimas são uma linguagem universal, como é universal o mandamento de prestar ajuda. Não se deve enxergar a religião como um castelo isolado, mas como uma janela que se abre para um mundo maior. É preciso ver a imagem do Criador no rosto de um desconhecido e ouvir Sua voz no murmúrio de uma criança faminta.

Deve-se levar em conta que é da natureza do homem necessitar de muitas coisas para subsistir. Ele precisa de um conjunto de pessoas que faça cada uma das coisas da qual carece. Cada uma dessas pessoas também se encontra na mesma situação, preenchendo uma a outra o que é necessário para a subsistência mútua. É impossível ao ser humano viver sem o concurso de vários indivíduos. É somente pelo trabalho conjunto, que reúne tudo o que cada um precisa, que a vida se torna possível.

Todos nós temos um grande débito com as famílias que nos criam, com os amigos que nos orientam, com os educadores que nos ensinam e com as nações que nos protegem. É óbvio que devemos restituir este débito fazendo o que quer que esteja ao nosso alcance para melhorar a sociedade. Pense, apenas por um momento, o quão diferente seria sua vida se ninguém tivesse exercido a responsabilidade de cuidar de Você e educá-lo.

Devemos reconhecer que não somos indivíduos auto-suficientes; que todos fazemos parte de uma comunidade mais ampla e, por conseguinte, somos responsáveis uns pelos outros. Isto significa fazermos uma fogueira no lugar de vestirmos um casaco de peles. A diferença é que o casaco de pele aquece apenas a pessoa que o veste, enquanto a fogueira, qualquer um que dela se aproxime.

Isenta de responsabilidade, a vida humana não faz jus à dignidade e não contribui em instância alguma para assegurar nossa sobrevivência como espécie.

É preciso existir um pacto de solidariedade humana. O poeta inglês John Donne (1572 - 1631) disse isto de forma memorável há muito tempo: “Toda a humanidade tem um único autor e é um só volume. Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo... ...a morte de qualquer ser humano me diminui, porque eu faço parte da humanidade... ...nunca perguntai: por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti”.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru

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