Economia & Negócios

Em seis anos, poderá faltar café

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Dentro de aproximadamente seis anos, poderá faltar café para atender à demanda mundial. A informação é de Maurício Lima Verde, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e da Comissão Nacional do Café (CNC). Segundo ele, este foi o principal assunto discutido na última reunião da Organização Internacional do Café (OIC), realizada no final do mês passado em Londres, Inglaterra.

De acordo com Lima Verde, que nos encontros da OIC é o representante brasileiro do setor privado, a projeção se baseia em uma relação bastante objetiva e lógica: o crescimento mundial do consumo do produto nos últimos anos contra números bem menos positivos em relação à produção.

Se a previsão dos especialistas se confirmar, o Brasil poderá viver a irônica situação de se tornar exportador de petróleo - com as novas fontes descobertas recentemente no País pela Petrobras - e ter que importar café para suprir a demanda interna. Atualmente, o Brasil é o maior produtor de café do mundo. Entre os principais países consumidores ocupa a segunda posição, perdendo para os Estados Unidos.

Segundo Lima Verde, nos últimos três anos o consumo mundial de café cresce em torno de 7% a 8% ao ano, o que corresponde a aproximadamente 800 mil sacas do produto ao ano. Por outro lado, não existe perspectiva de aumento da produção - pelo menos não em proporção semelhante.

“Atualmente, a produção mundial de café gira em torno de 127 milhões de sacas ao ano, contra 125 milhões (de sacas) consumidas. Se o ritmo atual for mantido, a estimativa é de que se chegue a um consumo em torno de 140 milhões de sacas dentro de seis anos sem aumento da produção. Assim como vem ocorrendo no Brasil, em vários outros países a área de cultivo de café está sendo ocupada por outras culturas, principalmente aquelas utilizadas para a produção de energia limpa (como a cana-de-açúcar)”, observa.

Segundo Lima Verde, isso vem ocorrendo, inclusive, em países cuja economia depende basicamente do café, como a África.

Consumo

Entre os motivos para o crescente consumo da bebida, ele aponta o bom desempenho da economia mundial e as campanhas de estímulo ao consumo do produto desenvolvidas em vários países, como o próprio Brasil e os Estados Unidos - onde há estudos científicos sobre os benefícios do café à saúde, tema amplamente divulgado por profissionais da área médica a seus pacientes naquele país.

“A economia mundial melhorou muito, então o café se tornou mais acessível, porque em alguns países uma xícara de café custa caro. Além disso, nos últimos anos foram desenvolvidas diversas campanhas de estímulo ao consumo do café, baseadas em informações sobre os benefícios que ele traz à saúde. Então, foi desmitificada aquela história que sempre se ouviu falar, de que beber muito café faz mal. Já foi provado que uma pessoa saudável pode tomar, tranqüilamente, de quatro a cinco xícaras de café por dia.”

Números

No ano passado foram consumidas no Brasil 17 milhões de sacas de café e exportadas 28 milhões. “No Brasil, 10 milhões de pessoas dependem diretamente do trabalho com o café, e existem cerca de 400 mil propriedades cafeeiras”, destaca Lima Verde.

De acordo com ele, atualmente o preço da saca de 60 quilos de café está cotada em torno de US$ 140. Porém, para o produtor os números são bem diferentes, pois não se consegue remuneração semelhante no momento da venda. Além disso, no Brasil os insumos tiveram alta de 80%. Soma-se a tudo isso o fato de tratar-se de uma cultura que demora aproximadamente quatro anos para começar a gerar algum retorno dos investimentos feitos.

“Nos primeiros três anos, a pessoa fica só injetando dinheiro para firmar a produção. Só depois disso é que começa a colher os resultados. Então, não existe perspectiva de aumento da produção. Além de tudo isso, como o café é cotado em bolsa de valores, acaba não ficando sujeito à lei da oferta e procura. Ou seja, nessa cultura não se aplica a lógica de ter mais interessados investindo diante do aumento da demanda pelo produto”, explica Lima Verde.

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Saúde

Entre os benefícios da ingestão de café citados em estudos científicos estão alguns relacionados à função hepática do organismo humano. O site da Organização Internacional do Café (OIC) traz dados divulgados em 2003 pelo Serviço de Informações sobre Nutrição de Roma, Itália. Entre eles, o de que a bebida protege “de forma significativa” contra a cirrose hepática (doença que causa dano progressivo às funções do fígado), reduz os riscos de formação de cálculos hepáticos e aumenta a atividade das enzimas hepáticas.

Pesquisas também já demonstraram que o consumo de café está relacionado à redução dos riscos de surgimento de câncer colo-retal. Estudo feito no Canadá revelou que o risco diminuía quando se aumentava o consumo para cinco xícaras diárias da bebida, especialmente entre os homens.

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