As crianças tomaram de Adriana mais tempo do que ela previa, mas os anos que lhes dedicou ensinaram algo.
A fase “Partimpim” ajudou a cantora, agora novamente Calcanhotto, a se livrar do ônus de se preocupar demais em agradar ao público. “Isso me interessa menos agora. Porque as crianças não fingem. Você faz a sua coisa, e elas gostam ou não gostam. Não adianta ficar tentando agradar. Bem melhor assim.”
Com sua peculiar serenidade, refletida também nas faixas de seu mais recente álbum adulto, “Maré”, a gaúcha de 42 anos dá início, neste final de semana, em São Paulo, a sua turnê nacional. É o primeiro trabalho com a assinatura Adriana Calcanhotto desde “Cantada” (2002). No ínterim, só fez os shows de “Adriana Partimpim”, CD de 2004 cujo sucesso “não lhe deu opção” a não ser lançar um DVD em 2005.
Mas agradar talvez seja um costume do qual ela não pode se livrar facilmente. O teste foi em Lisboa, segunda cidade no mundo a receber a nova turnê (a primeira foi Buenos Aires). Faltando cinco músicas para o fim do show no Coliseu, uma queda de luz deixou “Mulher sem Razão” (Dé Palmeira/ Bebel Gilberto/ Cazuza) inconclusa. Meia hora depois, luzes de emergência sobre os persistentes portugueses na platéia, Adriana Calcanhotto retornou ao palco, ainda escuro.
“Os meninos pegaram umas coisinhas acústicas, fizemos três músicas. As pessoas do fundo não me ouviam, então começaram a vir, e aquilo começou a embolar na frente do palco. Foi bonito”, lembra.
Os “meninos” - Domenico Lancellotti, Marcelo Costa e Alberto Continentino, que participaram das gravações de “Maré”, mais o tecladista Bruno Medina (Los Hermanos) - ajudaram-na ainda a dar fluidez ao show. Às poucas faixas do disco atual, foram acrescidas outras de “Maritmo” (1998), que antecede “Maré” na trilogia ainda inacabada de águas salgadas da cantora.
O desafio foi encontrar uma personalidade na qual os dois discos coubessem. “Teve resultados interessantes. Por exemplo, não aconteceu muita coisa com ‘Asas’ no ‘Maritmo’, ela nunca se prestou às coisas que faço com voz e violão. Com os novos arranjos, descobri como ela deveria ser”, diz. Mais bem-sucedidas no álbum de 1998, “Vambora” e “Mais Feliz” entram junto com outras “obrigatórias”, como “Esquadros” e “Maresia”.
Entre uma concha imponente, “linda, que nos deixa pequenininhos”, e véus que lembram águas turvas e límpidas, Adriana Calcanhotto aparece num vestido de seda sobreposto por um camisetão. E de Havaianas nos pés. “Para o Hélio (Eichbauer, cenógrafo), sou uma Tétis (deusa do mar) contemporânea”, diz. Mas de Havaianas? “É que do ponto de vista Gilda (Midani, figurinista) sou quase uma surfista”, esclarece.
O visual praieiro do show encontra ambiente apropriado no Rio, para onde o show segue dias 27, 28 e 29. Juiz de Fora é a parada seguinte, no dia 6 de julho.
• Serviço
Adriana Calcanhotto faz show hoje e amanhã, às 22h, e domingo às 20h no Citibank Hall (avenida dos Jamaris, 213, São Paulo). Ingressos de R$ 60,00 a R$ 120,00. Mais informações: (11) 6846-6040.