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Agricultura perde um grande homem


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No momento em que o mundo acorda para uma possível falta de alimentos, a agricultura perde um lutador incansável e o Brasil um de seus maiores defensores. Faleceu dia 4 de maio, nos EUA, o professor americano com fortes laços com nosso País G. Edward Schuh. Sua esposa e genro são piracicabanos. Trabalhou no Brasil pela primeira vez na década de 1960, na Universidade Federal de Viçosa. Retornou aos EUA, mas nunca mais nos abandonou, até o último dia 4. Pediu que suas cinzas venham para o Brasil, o país que, em 2006, lhe concedeu a Grã-Cruz do Mérito Científico.

Ano passado, aposentado (mas em atividade como Regents Professor Emeritus da Universidade de Minnesota), Schuh dedicou-se intensivamente a ministrar cursos de Pós-Graduação na ESALQ/USP. Visitou inclusive Bauru. Conhecidíssimo entre os estudiosos de Economia Agrícola, ex-diretor de desenvolvimento rural do Banco Mundial, tinha uma fazenda no Mato Grosso e era admirado também por importantes empresários. Foi meu orientador nos EUA quando, bolsista do CNPq, concluía meu doutorado. Não encontro forma para homenageá-lo, a não ser repassar a meus conterrâneos (sou duartinense e neta de bauruenses) algumas de suas idéias e preocupações.

Sobre produção de alimentos, Schuh discordava daqueles que afirmam estar o problema solucionado em termos tecnológicos. Insistia na necessidade de geração de tecnologia específicas para as regiões. No caso da África, o Brasil poderia ter enorme participação na solução dos problemas: “A tecnologia dominada pelo Brasil no cerrado pode ser usada nas savanas”, dizia com entusiasmo a seus alunos de várias partes do mundo. Devo lembrá-los que aí está uma fonte de divisas, ainda inexplorada. “A sociedade brasileira precisa discutir ciência e tecnologia”, insistiu recentemente, preocupado. Eu gostaria que acordássemos para a relevância do tema. O caminho do crescimento econômico passa, necessariamente, pela da geração do conhecimento científico e tecnológico. Com as vantagens que o Brasil tem na produção de alimentos, não devemos adiar a discussão. Schuh encontrou dados da agricultura paulista que o preocuparam: (a) a grande especialização que nos permite usufruir os benefícios do comércio internacional, mas aumenta os riscos, e (b) o grande número de produtores pequenos à margem do mercado internacional, sem política específica para eles. Considerava equívoco a política de reforma agrária. Insistia na necessidade de investimento em educação para preparar novas gerações para as oportunidades de trabalho que surgem, com o desenvolvimento, fora da agricultura. A educação, para ele, era o motor do desenvolvimento.

Schuh pretendia propor um sistema de financiamento internacional de pesquisa. Estimulava a discussão sobre o assunto. “De onde viriam recursos para financiar a pesquisa agrícola?”. Ele imaginava que fosse um fundo vinculado à Organização Mundial do Comércio. Cogitou que os recursos poderiam vir das exportações agropecuárias, mas aí seria muito pesado para o Brasil e então repensava. Queria encontrar uma fórmula em que cada país entrasse com um dado peso no cálculo. Comentei que os países com indústrias de insumo avançadas, que ganhariam com a modernização, poderiam pagar mais. “Isso tornaria a modernização da agricultura mais cara e isso não quero”, respondeu. Aumento na produtividade agrícola libera recursos (principalmente terra) para a produção de bio-combustíveis. Argumentei que produtores de bio-combustíveis poderiam ter peso maior no cálculo. Novamente, o peso seria muito alto para o Brasil, alertou Schuh. Esse financiamento mundial da pesquisa era uma de suas maiores preocupações. Se não me falha a memória, pretendia entregar uma proposta de cálculo mês passado. Não sei se concluiu.. Cumpriu, brilhantemente, sua parte. Agora é conosco.

A autora, Elaine Mendonça Bernardes, é professora da Unesp

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