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Sensibilidade e mãos sujas de graxa

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 5 min

Imagine a cena: você chega próximo a uma roda de meninas e elas estão falando sobre motores, injeção eletrônica, comando de válvula, velas, pistons, correias, bronzinas e afins. Se você considera esta cena impossível de acontecer, está na hora de rever seus conceitos. Foi-se o tempo em que as adolescentes falavam só dos ‘gatinhos’ da TV e do cinema, e comentavam sobre as últimas tendências da moda. Elas também falam sobre, e fazem, mecânica de automóveis.

Hoje é a formatura de duas turmas de mecânica do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de Bauru. Entre os cerca de 60 alunos que vão receber o certificado de conclusão do curso estão nove meninas, todas extremamente competentes, segundo o técnico de ensino do Senai Ubirajara Negrão. “Em algumas coisas elas têm muito mais habilidade do que os meninos, são mais detalhistas”, afirma Negrão, que incentiva as meninas a não pararem só no curso do Senai. “Agora precisa fazer o curso técnico e depois engenharia mecânica. Continuar na área”, ressalta.

Mas o que levou as meninas a procurarem um curso considerado tipicamente masculino? O JC foi ao Senai conversar com as formandas e descobriu que, de curiosidade à influência da família estão entre os motivos. Mas independentemente do que as levou para a mecânica, o certo é que dificilmente elas saem da área. Thamires Coelho, Jéssica Moura, Jéssika Rodrigues, Camila Teles e Chaene Cristina Silva, todas de 17 anos, receberam a reportagem na oficina do Senai, onde são realizadas as aulas práticas, e contaram um pouco da trajetória nesses dois anos, ou quatro termos, de curso profissionalizante.

Thamires conta que não tinha certeza que queria fazer o curso e foi levada ao Senai por mera curiosidade. No começo ela pensou até em desistir, pois acreditava que não tinha aptidão para a profissão escolhida. No entanto, o incentivo de amigos e familiares acabou determinando a permanência dela. Atualmente Thamires estagia em uma grande empresa da região e comenta que a reação das pessoas é estranha. “Eles acham que a gente só suja a mão de graxa e troca pneu, mas a mecânica é muito mais complexa do que isso”, afirma.

Da mesma forma que Thamires, a colega de turma Jéssica Moura afirma ter escolhido o curso por curiosidade, até porque, segundo ela, não se imaginava sujando as mãos de graxa. Uma das preocupações quando entrou no Senai era se haveria outras meninas na sala. Havia uma, Thamires. Elas são apenas duas em uma sala de 30 alunos. A outra turma possui sete meninas.

O fato de ter companheiras de curso fez com que Jéssica se mantivesse no curso, e hoje ela recebe o certificado de conclusão, resultado da persistência em se manter em um lugar que a sociedade masculinizou. Para provar que esse é um conceito errado, o maior apoio veio da mãe, de acordo com ela. “Minha mãe foi a que mais deu apoio, até porque quando eu soube que passei na prova, eu não queria muito, porque ia ter que estudar à noite, deixar minhas amigas, mas, você constrói uma família aqui dentro”, explica a mecânica, que também faz estágio em uma empresa da região.

Exemplos

Já Camila teve exemplos dentro de casa. Os irmãos fizeram curso no Senai e ela foi se interessando pelo que eles contavam, como era a rotina do curso, da oficina. “Eu não conhecia mecânica, não tinha nenhuma habilidade, mas decidi fazer. Prestei a prova, passei, quando comecei o curso fiquei ainda mais interessada, vendo que a mecânica serve para diversas áreas”, destaca.

A formanda afirma ainda que não é apenas um curso profissionalizante, mas que serve para desenvolver as habilidades pessoais. “Tanto para a prática no dia-a-dia, quanto para o trabalho em uma empresa, se precisar auxiliar algum amigo ou algo assim”, diz, contando que a mãe achou estranha a escolha pela mecânica de autos, mas depois se acostumou.

Chaene é outra que veio movida pela curiosidade e por sugestão de um amigo que ia fazer a prova para entrar no Senai. Ela conta que, quando passou na prova e contou ao pai, a reação dele foi de espanto, chegando a questionar a escolha da filha. “Mas eu queria fazer algo diferente, então entrei. O primeiro termo foi ruim, porque não conhecia ninguém, mas aí fui fazendo amizades e foi bom”, ressalta.

Por outro lado, Jéssika Rodrigues decidiu fazer o curso por influência dos amigos e do irmão que, segundo ela, sempre a chamava para observar quando ia mexer no carro.

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Amigas e namorados

E o que fazem as amigas que estão fora do Senai. Qual a reação delas. As meninas são praticamente unânimes na resposta: todas acham estranho. Thamires conta que a primeira imagem que as pessoas têm de uma oficina mecânica é o clichê criado em cima da profissão e dos profissionais: uma garagem no fundo do quintal, toda suja. Apesar da estranheza causada pela escolha das meninas, as amigas até que recebem bem o fato delas estarem em um curso “masculino”.

Já os namorados. Aí é a velha história do preconceito, machismo e, é óbvio, dos ciúmes. Afinal, são poucas meninas em um ambiente rodeado por meninos. Segundo as formanda, os namorados acham que elas estão no Senai mais para curtir do que para aprender de verdade.

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Meninos

Agora formandas, as alunas do curso de mecânica de veículos lembram que os meninos olhavam para elas com curiosidade no início. “Com umas caras esquisitas, do tipo ‘o que essas meninas estão fazendo aqui?’. Mas depois de passado o impacto inicial, meninas e meninos se tornaram amigos – aliás, os meninos confessam que curtiram a idéia de ter meninas na sala e que a primeira coisa que queriam saber é se elas eram bonitas.

“A primeira coisa que você olha é a beleza, fala: ‘nossa, aquela menina é gatinha’. E vê a quantidade também. Na minha sala tinha oito, mas uma saiu. Quanto mais, melhor”, diz o honesto Maycon da Silva Araújo, afirmando que no começo achou que elas não conseguiriam terminar o curso. “Mas nada é impossível”, completa.

Completam a lista dos desconfiados César Augusto dos Santos, Rafael Diego Braga, Anderson Franco, Wildson Peliçari e Bruno Manduca. Mesmo tendo demorado a aceitar a presença das meninas no curso, hoje eles afirmam que elas têm capacidade para qualquer serviço. “Antes, quando ia formar os grupos, ninguém queria ficar com as meninas, mas agora não tem mais nada disso”, afirma Anderson.

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