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Entrevista da semana: José Carlos Octaviani

Alcir Zago
| Tempo de leitura: 11 min

A seis meses de terminar o seu segundo mandato seguido como prefeito de Agudos, José Carlos Octaviani, 49 anos, mais conhecido como Carlão, tem uma característica que o diferencia da maioria dos chefes do Executivo. Ele se autodefine como uma locomotiva e, em algumas vezes, os vagões também. “Não cometo falhas por ser um prefeito parado, que deixa as coisas acontecerem. Vou de encontro aos problemas”, afirma Octaviani, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Esse jeito próprio já levou o prefeito de Agudos a brigar com a CPFL, devido ao fechamento do escritório de representação na cidade. O prefeito ameaçou suspender o pagamento à companhia e ingressou com uma ação na Justiça. O resultado: a CPFL reabriu o escritório. Também enfrenta problemas na Justiça, segundo ele, por ter contratado servidores sem concurso público. “Naquele momento, precisávamos desses funcionários. Estou em paz, não me omiti quando a cidade precisou”, conta.

Octaviani, que critica o fato de não poder concorrer uma terceira vez e não quer deixar a prefeitura sem fazer seu sucessor. O candidato da atual administração é seu sobrinho. Caso ele seja eleito, o atual administrador pretende ser chefe de gabinete ou diretor de obras. O entrevistado nega que pretenda concorrer em 2010 para deputado estadual. A respeito da hipótese de se candidatar a prefeito de Bauru, disse que não aceitou porque a população de Agudos não aceitou sua renúncia.

Jornal da Cidade - Antes de ingressar na política, qual foi sua trajetória profissional?

José Carlos Octaviani - Nasci em Agudos. Aos 9 anos, comecei a trabalhar como sorveteiro. Dos 12 aos 14 anos, fui mascate e depois passei a gari da prefeitura, levado pelas mãos do ex-prefeito Antonio Conde. Ali, fiquei por oito anos. Depois, trabalhei nos bancos Unibanco e Real no cargo de escriturário.

JC - Como a política surgiu em sua vida?

Octaviani - No dia em que resolvi pleitear um cargo político, quando eu tinha 22 anos, o gerente do Unibanco me chamou e disse que funcionários do seu quadro não poderiam fazer parte de agremiação política ou disputar eleição. Eu teria de escolher: ou política ou o cargo no banco. Naquele momento, me desliguei do banco. Fui disputar minha primeira eleição (para vereador) e Deus quis que fosse o terceiro mais votado em minha cidade. Na época, estava no PTB. Quatro anos depois, fui reeleito, novamente como o terceiro mais votado. Na eleição seguinte, no PMDB, consegui ser o vereador mais votado de Agudos.

JC - A disputa para prefeito foi uma conseqüência dessa trajetória?

Octaviani - Sim. Em 1996, estava num grupo político muito forte, mas acabei perdendo a eleição para Afonso Conde. Tomei uma surra danada, com uma diferença de 2.001 votos. Nessa época, voltei a fazer o que gostava bastante: vender carros. Como Deus faz as coisas da forma que Ele melhor entende, em 2000 voltei a disputar a eleição contra o mesmo Afonso Conde e venci por uma margem apertada de votos. A diferença foi de 341 votos. Creio que o número 2.001 é importante na minha vida, porque assumi a prefeitura justamente no ano em que, quatro anos antes, perdi por 2.001 votos. Na última eleição, nos confrontamos novamente e, dessa vez, somei 70% dos votos.

JC - Que avaliação o senhor faz desses oito anos como prefeito de Agudos?

Octaviani - Graças a Deus, temos feito um mandato muito bom para o nosso povo. Nas obras de substituição de lâmpadas, postes, asfalto, guias e sarjetas, faço com uma paixão danada e vejo a alegria das pessoas. Isso me entusiasma a fazer cada vez mais. Sei que, muitas vezes, o trabalho acaba estourando as contas do Município, arrebentando um pouco os cofres públicos, mas acima desse cumprimento do que a legislação exige, está o interesse público maior. Hoje, temos as finanças totalmente equilibradas. Vou entregar a prefeitura ao meu sucessor com a infra-estrutura quase pronta. Estamos iniciando o asfaltamento de um bairro bastante antigo e populoso. Vai restar para o próximo prefeito asfaltar o Parque Santa Cândida e outras obras importantes. Que Deus dê para a nossa cidade um homem bastante capaz, competente, para que trabalhe com paixão, afinco, da mesma forma como nós fazemos.

JC - Nesses oito anos como prefeito, destacaria alguma obra como mais marcante?

Octaviani - Considero todas as obras como de relevada importância, como asfaltamento em vários bairros da cidade, interligação entre eles, reforma de praças e escolas, iluminação pública, construção de posto de saúde. É difícil destacar a obra mais importante. As pessoas citam a reconstrução da Praça Tiradentes e a duplicação da avenida Carvalho Pinto.

JC - O Município dispõe de boa receita para realizar as obras necessárias ou foram feitos convênios com o Estado e a União?

Octaviani - Os recursos da prefeitura são insuficientes para atender a demanda. Mas temos um importante aliado, o deputado estadual Pedro Tobias. Considero ele o prefeito de Agudos, porque teve mais votos que eu. Ainda neste mês, estive no Palácio dos Bandeirantes assinando convênio de R$ 1 milhão para atender o Parque Pampulha. Só em 2007, o deputado conseguiu junto ao governo mais de R$ 2 milhões, uma soma bastante considerável para uma cidade do porte de Agudos.

JC - O senhor não pode concorrer novamente, porque já foi reeleito em 2004. Como o grupo está trabalhando seu sucessor?

Octaviani - Lamentavelmente, não posso concorrer a uma terceira eleição. Um senador, um deputado ou um vereador podem concorrer quantas vezes quiser. Por que o prefeito, o governador e o presidente estão impedidos? Isso não é uma democracia de fato. Ao povo compete escolher, colocando ou tirando o político de lá. Se o político é ladrão ou incompetente, pé na bunda dele. Se o trabalho é feito com amor e carinho, que o povo reconduza. Lamento que a lei brasileira impeça a pessoa de disputar um terceiro mandato. Com a paixão que tenho pela minha cidade, continuaria trabalhando do mesmo jeito por mais quatro anos. Nestes oito anos, não tirei um único dia de descanso ou de férias. Não posso deixar tudo a cargo de funcionários; o prefeito tem de estar à frente de tudo.

JC - E em relação ao sucessor?

Octaviani - Para nos suceder, temos talvez o mais jovem candidato a prefeito do Brasil. É o meu sobrinho Everton Octaviani, tem 23 anos, criado numa família voltada para a política - meu pai também foi vereador. Ele é funcionário da prefeitura, concursado como auxiliar de farmácia. Caso venha a vencer, tenho certeza que fará um mandato muito bom. A convenção para confirmá-lo como candidato será no dia 30.

JC - O que o senhor pretende fazer quando terminar seu mandato?

Octaviani - Meu sonho é ver meu sobrinho prefeito da cidade. Caso venha a se confirmar sua vitória nas urnas, serei o chefe de gabinete ou diretor de obras da prefeitura. Estarei ao lado para continuar a impulsionar o Município.

JC - E no caso de derrota do seu sobrinho nas urnas?

Octaviani - Só trabalhamos com a hipótese de, se Deus quiser, vencer as eleições. Estamos bastante otimistas. Já recebi convite para participar da eleição em 2010 ao cargo de deputado estadual, mas quero dizer que nossa cidade estará dobrando sempre com o deputado Pedro Tobias, numa demonstração de carinho e agradecimento. Não me passa pela cabeça a pretensão de disputar a eleição para deputado, mas sim ajudar o Pedro.

JC - Como foi a tentativa de viabilizar a candidatura a prefeito de Bauru? Por que ela não se efetivou?

Octaviani - Fui convidado por alguns partidos, como o PTB, do Ricardo Oliveira. Confesso que nunca tenha dito que topava a parada, estava alimentando no coração e no sonho de vir disputar a eleição em Bauru. Mas houve uma pesquisa tanto em Agudos quanto em Bauru me colocando numa boa posição. O problema é que, em Agudos, não aceitavam minha renúncia, talvez pela distância que meu vice tem mantido da prefeitura. Levei um sonoro “não” da população, mas foi o “não” mais gostoso da minha vida. Decidi que não poderia trair uma população que tinha dado quase 70% dos votos no último pleito, a maior votação da história de Agudos. Como sonho ainda em governar minha cidade, resolvi recuar.

JC - No futuro, está descartada a hipótese de concorrer a prefeito de Bauru?

Octaviani - Não descarto, mas gostaria de estar, hoje, voltado com o sonho da disputa em Agudos ao lado do meu sobrinho e trabalhando com ele para o crescimento da cidade.

JC - Como define seu estilo de governar?

Octaviani - O prefeito não pode ficar com a bunda grudada na cadeira do gabinete. O prefeito é a locomotiva da cidade e, às vezes, também os vagões. Não sou um prefeito perfeito, tenho minhas falhas, mas essas falhas são porque sou um homem de iniciativa. Não cometo falhas por ser um prefeito parado, bunda-mole, que deixa as coisas acontecerem. Mas vou de encontro aos problemas e, dessa forma, às vezes ultrapassamos o limite e ferimos a lei. Tenho alguns processos na Justiça em Agudos, mas tenho certeza de que haverá bom senso e compreensão da promotoria e da Justiça, porque o prefeito não está agindo de má-fé, no entanto com o intuito de levar o melhor para o povo de Agudos. Fiz algumas contratações de funcionários em caráter temporário, sem concurso público, motivo pelo qual a promotoria entrou com ação contra o prefeito. Naquele momento, precisávamos desses funcionários. Estou em paz, não me omiti quando a cidade precisou. Temos em Agudos o transporte coletivo gratuito e, nesses dias, precisei contratar mais quatro motoristas para que as pessoas não fiquem no ponto esperando. Tenho certeza que o processo será arquivado, porque não agi de má-fé.

JC - Conte como foi a briga para reativar o escritório da CPFL em Agudos?

Octaviani - A CPFL inventou essa droga de 0800, que não serve para nada. Desafio qualquer pessoa a tentar falar no 0800 com alguém. A máquina não resolve nada. Será que é demais manter uma pessoa no escritório de representação em Agudos? É um absurdo. Havia pedido para que reabrissem o escritório na cidade. Depois, coloquei um anúncio pago no jornal informando que, a partir daquele dia, estaria suspendendo o pagamento à CPFL até que reabrisse o escritório. Ingressei com uma ação na Justiça e ganhei. Fica um alerta a todos os prefeitos da região onde não há escritório de representação: ingressem com ação na Justiça e terão ganho de causa, assim como eu ganhei.

JC - Qual obra o senhor considera prioritária para seu sucessor?

Octaviani - O asfalto em bairros da cidade, a troca de ônibus circulares, que transportam 10 mil pessoas por dia gratuitamente. É um dinheiro que a população economiza e reverte para a família. O próximo prefeito precisa também fazer a interligação entre os bairros. Agudos está longe do ideal em infra-estrutura. Tem muito o que fazer.

JC - E o relacionamento com a família? Fica em segundo plano?

Octaviani - Tenho esposa e filhos maravilhosos e compreensivos. Quando entra na política, a gente acaba sendo marido e pai ausentes, pela necessidade de estar presente nos compromissos da cidade. Já que recebi do povo esse compromisso, tenho ocupado esse tempo com a população. Confesso que saio cedo de casa e chego tarde todos os dias. Às vezes, passo 15 dias sem ver a minha mãe, que tem 73 anos. E quando alguém quer falar com o prefeito, não tem aquela frescura e aquela babaquice de ter de marcar audiência. Chegou lá, o prefeito atende. Se o prefeito não estiver, ai da secretária se não der o número do meu telefone celular ou da minha casa. Mesmo na minha casa, aparece algum cidadão procurando atendimento. Meu filho trabalha no Correio em Bauru e viaja todo dia. Já pensou que vergonha seria para ele se ouvisse alguém falar mal do prefeito, que não presta ou é incompetente? Como diz aquele ditado: ‘o povo engorda com o dono olhando’. Abraço e beijo meus funcionários, mas brigo muito também quando as coisas não andam como quero. Não aceito corpo mole. Se fizer isso, dou até gancho.

JC - Como o senhor se sente, a poucos meses de terminar o mandato?

Octaviani - Nesse final de mandato, sinto prazer do dever cumprido. Do que me propus para a cidade, realizei 95%. Eu vivo o dia-a-dia de Agudos, respiro Agudos desde que levanto até a hora de dormir. Quando tem show na praça e o cantor fala do prefeito, graças a Deus nunca toma vaia. Sempre é aplaudido. Na primeira eleição para a prefeitura, a rua principal da cidade tinha muitas lojas fechadas, o comércio de Agudos era uma vergonha. Quando fomos eleitos, pessoas de outras cidades foram para lá e abriram estabelecimentos. Hoje, na rua principal, não há uma só porta fechada. Antes, as pessoas tinham vergonha de dizer que moravam em Agudos, mas isso mudou. A cidade não é um paraíso, para podemos dar nossa contribuição para que melhorasse.

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Perfil

Nome: José Carlos Octaviani

Idade: 49 anos

Local de nascimento: Agudos

Mulher: Nilce Octaviani

Filhos: Bruno Eduardo Octaviani e Fernando Octaviani

Hobby: política

Livro de cabeceira: A Bíblia

Filme preferido: “Marcelino, Pão e Vinho”

Estilo musical: sertanejo

Time: Palmeiras

Para que daria nota 10: para todos que têm boa-fé

Para que daria nota 0: quem usurpa o dinheiro público

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