São Paulo - O ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o Comando Militar do Leste decidiram ontem retirar as tropas do Exército do morro da Providência, centro do Rio. A decisão foi tomada depois de o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) embargar as obras do projeto Cimento Social, que tinham execução monitorada pelos militares, além da segurança.
Onze militares que atuavam no morro são suspeitos de participação na morte de três moradores da comunidade. Eles confessaram à Polícia Civil que entregaram os rapazes para traficantes do morro da Mineira, ligados à facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA), rivais dos criminosos que atuam no morro da Providência, ligados ao Comando Vermelho (CV).
De acordo com o Exército, não há mais sentido em manter as tropas na comunidade se as obras estão paralisadas. Os militares já teriam deixado o morro, segundo o comando.
O Exército ocupa o morro desde dezembro de 2007, quando iniciaram as obras. A morte dos rapazes criou uma crise entre as tropas e a comunidade, que também havia decidido parar os trabalhos - realizados em mutirão pelos próprios moradores.
Supostos abusos por parte dos militares foram denunciados pela comunidade. Segundo os moradores, as tropas agiam com truculência, realizando revistas e até mesmo com a imposição do toque de recolher.
Na quarta-feira passada, a juíza Regina Coeli, da 18.ª Vara Federal do Rio, determinou a saída do Exército do morro da Providência, acatando um pedido da Defensoria Pública da União. Um documento do próprio Comando Militar do Leste, que determinava que os militares que atuavam no morro utilizassem condutas de segurança pública no trabalho na comunidade, deu origem a ação civil elaborada pela Defensoria.
Dois dias depois da decisão da Justiça Federal, o Tribunal Regional Federal (TRF) no Rio acatou o pedido do governo e suspendeu a liminar que exigia a saída das tropas do morro, porém, somente até a próxima quinta-feira, quando o governo deveria apresentar uma solução para o problema provocado pelas tropas no morro.
O juiz Fábio Uchoa decidiu embargar as obras porque considerou que o projeto tem finalidades eleitorais e beneficia o senador e pré-candidato a prefeito Marcelo Crivella (PRB).
A suspensão da obra é resultado de um processo aberto depois de uma denúncia recebida pela Justiça com um cartão que tinha a imagem do senador sobreposta a fotografias da obra na comunidade. A investigação constatou que as páginas de Crivella na Internet também faziam referência expressa ao programa.
O Cimento Social foi apresentado pelo senador como projeto de lei prevendo que as casas dos moradores da Providência passem por reformas executadas por eles mesmos. Segundo a Justiça Eleitoral, antes que o projeto fosse aprovado, foi firmado um convênio entre os ministérios da Defesa e das Cidades para a realização das obras.