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Mais uma greve


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Aproveitamo-nos do título do editorial de um jornal paulistano - Ignaro da verdade - que desqualifica o movimento grevista, para apontarmos nossas razões em deflagrá-lo. Ressalte-se a expressão “nossas razões”, pois trataremos aqui não só do movimento, mas principalmente daqueles aspectos do trabalho docente que o determinaram. Essencialmente, propomo-nos a falar dos problemas do sistema de educação, segundo a ótica do professor - indubitavelmente, um dos profissionais mais aptos para, sobre isso, manifestar-se, ainda que atualmente esteja, pelo menos nos meios de comunicação de massa, inaudível, pois sem voz.

É sabido que as avaliações externas à escola, alcunhadas por nós de oficiais, têm demonstrado a ineficiência da escola em promover a aprendizagem. Conhece-se também o fato de que o professor é considerado pela Secretaria da Educação como o maior responsável por esse fracasso, opinião que, lamentavelmente, é compartilhada por alguns presumidos analistas da educação pública estadual que visitam os jornais, nos quais nos chamam, sem nenhuma timidez, de incompetentes e indolentes.

Pouco se fala da progressão continuada -alvissareira no papel, nociva na prática - que, não por culpa dos professores, tornou-se progressão automática. Faltam às escolas meios de executá-la eficientemente: de que estrutura se dispõe para que os alunos que apresentam deficit de aprendizagem possam receber acompanhamento intensivo e necessário em horário diverso às aulas? De nenhuma. Simplesmente lhes são oferecidas, como placebo, duas aulinhas semanais que, por exclusão, podem ser de matemática ou de português e que, destaque-se, não ocorrem durante todo o ano letivo.

O governo comporta-se conosco como aquele construtor que, apesar de fornecer pouco cimento para se fazer o concreto, exige uma construção sólida. Ora, que o pedreiro use de sua criatividade, que ele seja dedicado, afinal a execução de um bom trabalho só cabe a ele. É desesperador.

Ademais, analisemos o outro ponto dessa mesma questão: os alunos. Muitos deles - imaturos e conhecedores do sistema - deixam de se dedicar à aprendizagem, pois serão, de qualquer forma, promovidos. E os pais, aqueles que deveriam fazer eco ao discurso dos professores de que o conhecimento é imprescindível a um futuro de sucesso, trabalham o dia todo e cansados, muitas vezes, deixam de acompanhar a vida escolar do filho. No entanto, segundo muitos, esse problema é facilmente resolvido: basta que o professor motive o aluno à aprendizagem. Insistimos para os detentores desse ponto de vista proponham-se a ministrar aulas na rede, pelo menos, durante uma semana, pois a realidade lhes servirá como resposta.

Não nos bastassem todos esses entreveros, agora a Secretaria da Educação nos acena com a possibilidade de recebermos vantagens pecuniárias, caso nossos alunos consigam bons resultados no Saresp _ Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo, considera-nos, realmente, venais, pois acredita que só então, em razão do incentivo financeiro, passaremos a realizar efetivamente nosso trabalho, o que até o momento, negligentes, não vínhamos fazendo. Novamente, somos colocados como os reais causadores do problema, o qual será solucionado, se movidos pela pecúnia, começarmos a promover a aprendizagem, como se ela pudesse prescindir de tudo que até aqui apontamos. Isso é revoltante!

Por fim, falemos da questão salarial, porém o que dizer sobre ela, além de que nosso salário é ínfimo, indigno, colidente com a nossa formação e com a nossa função social, mas que, certamente, não tem sido impeditivo para que realizemos o melhor trabalho que podemos.

Dispusemo-nos, no início deste texto, a falar dos fatores motivadores do presente movimento grevista e do próprio movimento, desse último só nos resta dizer que ele é agora a nossa voz, essa que ultimamente tem estado tão sumida e abafada e, por isso talvez, o grito esteja saindo meio rouco, meio sem força, mas, acreditamos, um coro de vozes há de sustentá-lo, um dia.

Professores em greve da Escola Estadual Stela Machado - Bauru/SP

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