O que um segredo desperta, senão curiosidade? Temor pelo desconhecido e teorias conspiratórias que, se reproduzidas por séculos a fio, podem se transformar em mitos inflexíveis. Embora os tempos sejam outros e a democracia tenha permitido uma grande amplitude de práticas filosóficas, políticas e religiosas, a maçonaria ainda é uma instituição cujos significado e função ainda são ignorados por grande parte da sociedade.
É ainda sob essa aura de mistério, mas caminhando no sentido de se tornar mais popularizada, que a Loja Maçônica Primeiro de Agosto, a maior de Bauru, comemora seus 50 anos no próximo dia 5 de julho. Como convém às regras da instituição, o evento será realizado apenas para membros, familiares e convidados, mas deve contar com a presença de autoridades do município.
No Jubileu de Ouro da loja – que atualmente contabiliza 100 membros e possui o mais amplo templo do Interior de São Paulo, com capacidade para 400 pessoas –, haverá um grande festejo na sede social do Bauru Tênis Clube (BTC). Na ocasião, todos os ex-veneráveis mestres (ex-presidentes) serão reverenciados, com exibição de vídeos em dois telões especialmente preparados para contar a trajetória de cinco décadas de história. E, para aguçar o paladar, será servido um jantar árabe cujo cardápio incluíra carneiro assado, quibe e charuto de folha de uva, entre outras iguarias.
De acordo com o conselheiro Joseph Saab, a opção por realizar uma comemoração fechada obedece à tradição de um dos lemas mais caros à maçonaria: não divulgar suas atividades. “Não se trata de segredo, mas sim de discrição. O que a mão direita dá, a esquerda não precisa ficar sabendo”, diz, referindo se às ações de filantropia em que os maçons estão sempre envolvidos.
O tradicionalismo, aliás, é uma prática que permeia a maçonaria em todo o mundo. Em quase 200 anos de história, a arquitetura, os símbolos e os rituais praticados em quase nada se modificaram. Entre alguns exemplos, ainda permanecem o impedimento do ingresso de mulheres na ordem, o rigor na aceitação de novos membros, o uso de aventais e colares de tecido por membros da diretoria, as colunas imponentes da fachada dos templos, as sessões a portas fechadas (veja mais no quadro).
Em alguns lugares do País, já se houve falar em lojas mistas (que permitem a participação de mulheres), mas estas não são reconhecidas pelas instituições reguladoras, chamadas de potências. Para o conselheiro Mário Yamamoto, o rigor na manutenção de valores e práticas antigas é fundamental para que os maçons possam executar aquilo que julgam ser um dos principais preceitos da ordem: ajudar a humanidade.
Ele explica, por exemplo, que um aspirante a maçom deve ser submetido a uma criteriosa sindicância até ser aceito. “Ele precisa ser convidado por algum dos membros, ser um homem de boa índole e ter uma estabilidade financeira razoável para poder ajudar nas nossas ações a favor da sociedade”, resume, revelando que, durante o período de avaliação, até mesmo a esposa do candidato é entrevistada.
Conforme explica o venerável mestre Vladmir Scarp, são inúmeras as cartas que chegam semanalmente à loja com pedidos que vão desde cestas básicas a cadeiras de roda. Na medida do possível, as solicitações são atendidas.
Para além da benemerência, a maçonaria apregoa o aperfeiçoamento pessoal e intelectual de seus membros e, para realizar os estudos de sua doutrina, há a necessidade de concentração e isolamento em relação ao mundo profano. “As portas do templo ficam fechadas para que possamos aprender como fazer algo melhor para a sociedade. E se essa vontade surge no coração, basta fazer. Não precisa divulgar para ninguém”, diz.
Serviço O jantar de gala em comemoração ao Jubileu de Ouro da Loja Maçônica Primeiro de Agosto será realizado no dia 5 de julho, às 20h30, na sede social do Bauru Tênis Clube (BTC), na rua Gustavo Maciel, 12-33, Centro. O evento é restrito a convidados.
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Mitos
Para o venerável mestre Vladmir Scarp, as lendas que rondam a maçonaria desde a sua fundação, em 1717, na cidade de Londres, Inglaterra, são fruto de uma corrente contrária a uma instituição que optou por se manter discreta. Conforme explica, a associação das práticas maçônicas a rituais macabros surgiu numa época em que a Igreja Católica era detentora de um grande poder na sociedade.
“E, quando surgiu uma instituição secreta, imaginou-se que havia uma conspiração para tomar esse poder. Foi quando alguns grupos começaram a divulgar invenções negativas a respeito da maçonaria”, diz, lembrando que outro ponto forte do discurso antimaçônico estabeleceu correspondência entre a instituição e o satanismo.
Para os maçons, no entanto, essas são águas passadas e o que há atualmente é uma boa relação com a Igreja. “Tanto é que vários padres já vieram dar palestras em nossa loja”, comenta o conselheiro Joseph Saab.
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História
Fundada em 5 de julho de 1958, a Loja Maçônica Primeiro de Agosto (o nome é alusivo à data de aniversário de Bauru) é hoje a maior da cidade em quantidade de membros e em espaço físico. Atualmente, funciona em um amplo templo no Jardim Contorno.
As reuniões fechadas, realizadas em todas as noites de sexta-feira, têm duração de aproximadamente duas horas. Mas a loja também promove reuniões abertas, chamadas de sessões brancas, quando é permitida a participação de familiares e convidados dos maçons. “Elas são realizadas esporadicamente, em comemoração a datas específicas como o Dia das Mães e Dia dos Pais, por exemplo” detalha o venerável mestre Vladmir Scarp.
Ao longo de 50 anos de existência, a Loja Primeiro de Agosto fundou outras duas lojas em Bauru (denominadas Luz do Paraíso e Mahatma Gandhi), além de quatro lojas na região, nas cidades de Marília, Assis, Lençóis Paulista e Avaré.