Cultura

Avassaladoras

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Imagine uma mulher bonita, simpática, inteligente e bem-sucedida em sua carreira profissional, mas que, apesar de já ter passado dos 30, continua a procurar seu “príncipe encantado”. Essa é Laura que, inconformada por estar sozinha, acaba em uma agência de casamento. Porém, não é exatamente o homem ideal que Laura descobre, mas sua própria personalidade. Aos poucos, ela compreende que, antes de seduzir um homem, ela precisava, primeiro, seduzir a si mesma.

O agradável filme “Avassaladoras”, de Mara Mourão, nos revela a simples e profunda lição: o ser humano só é capaz de sentir amor pelo outro a partir do momento que procura desenvolver sua própria personalidade, em outras palavras, o amor só é possível quando atingimos uma consciência da própria natureza humana. Apesar de romantizado e idealizado em demasia, o sentimento de amor, em sua essência, pode ser traduzido como um “bem querer”, o qual só pode surgir através da interação íntima entre satisfação pessoal e o prazer alheio.

Querer bem significa se realizar como pessoa ao fazer o que é propício ao outro para que ele também tenha condições de realização pessoal. Esse não mais que bem querer é chamado por Leibniz de “amor benevolentiae”, que deve, segundo o filósofo, ser diferenciado do “amor concupiscentiae”. Enquanto este último se reduz ao desejo instintivo e individualista, o “amor benevolentiae” muitas vezes se torna ambíguo em relação aos impulsos instantâneos, vantagens individuais e prazeres momentâneos.

Nós sentimos “amor concupiscentiae” em relação ao outro, quando o amamos como parte de nosso mundo, devido ao prazer que encontramos em sua companhia ou a algum benefício que recebemos através dele. O outro é amado por realizar uma determinada função e deixa de ser objeto de nosso amor a partir do momento que não é mais capaz de cumpri-la. Ao contrário desse modo egoísta de amar, o “amor benevolentiae” não se alimenta da simples satisfação de nossas inclinações e muito menos de um funcionalismo justificado.

“Depois de algum tempo você... aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso” (W. Shakespeare). Uma outra pessoa se torna importante não por aquilo que ela é para “mim”, mas por aquilo que ela simplesmente é. Esta capacidade de amar o outro exige não somente a compreensão de nossa própria natureza, mas também o esforço simultâneo de desenvolver um “amor a si próprio”.

Fundamental para reconhecer e respeitar o outro em seus desejos e ideais próprios é a descoberta e estima de nossa própria personalidade. A partir daí, podemos sair de nossa centralidade e perceber o outro como alguém que pode e deve ser autêntico. O amor ao próximo deve ser um caminho para a descoberta do próprio eu. Nós conseguimos amar o próximo quando somos capazes de nos amar e a satisfação no amor individual não pode ser atingida sem a capacidade de amar nossos semelhantes.

Sem a real presença de “eus” nunca existirá a formação de “nós”. O “nós” é formado da autonomia de “eus”. O significado de minha vida para o outro deve se tornar um motivo, para que eu descubra minha importância. Ao ser capaz de me amar, com meus defeitos e qualidades, sou capaz de entender o outro e amá-lo por causa, ou apesar, de sua maneira de ser. O verdadeiro amor somente é possível, segundo Aristóteles, como um recíproco bem querer que deseja e permite que o outro possa ser ele mesmo. O “amar ao outro como si próprio” citado nos Evangelhos, a “amizade” no sentido aristotélico, ou o “amor benevolentiae” descrito por Leibniz só tornam-se possíveis quando as pessoas se aceitam na sua condição humana.

O amigo, diz Aristóteles, não é estimado por que possui determinadas qualidades através das quais ele se torna para mim útil ou agradável, mas simplesmente ele é estimado pela minha capacidade em reconhecê-lo como um semelhante. Alegrias e prazeres que podem surgir desta amizade devem ser conseqüências agradáveis da relação humana e não a sua razão de ser. A amizade com alguém deve tornar-se para seus amigos um prazer, sem que estes possam dizer que ela existe em razão deste prazer.

Não podemos experimentar o amor sem levarmos em conta o nível de maturidade que alcançamos. Justamente a maturidade do sentimento do amor que nos faz sermos pessoas autônomas com atitudes próprias e ao mesmo tempo interessadas na vida do outro ao qual estimamos. “No amor ocorre o paradoxo de dois seres se tornarem um, mas continuarem a ser dois”.

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