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Fracionamento de medicamentos - mais um desrespeito à saúde


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Historicamente a indústria farmacêutica tem um compromisso inarredável com os cidadãos. É com esse pensamento que faz todos os esforços possíveis para adequar as embalagens de seus produtos às necessidades dos tratamentos.

Assim é que no caso de antibióticos existem doses para 7 dias, para 10 dias e para 14 dias à disposição dos médicos, possibilitando que recomendem sempre a melhor opção aos pacientes, exatamente de acordo com a necessidade. Se certas vezes há sobras, muito se deve ao fato de o enfermo após alguns dias, ao sentir melhora, interromper o tratamento.

No caos dos remédios OTC para pequenos mal-estares como dor de cabeça ou dor no corpo, a sobra pode ser utilizada em outra ocasião, sempre observando o prazo de validade - a maior parte dos analgésicos tem validade para cinco anos. Para os remédios de uso contínuo, a indústria farmacêutica procura produzir embalagens para a duração de um mês, fazendo assim com que a compra passe a ser um hábito mensal.

Pensar em fracionar as embalagens e em vender a unidade ao mesmo preço unitário praticado hoje na embalagem maior desafia o mais reles princípio de economia.

Atualmente, vale destacar, as embalagens vêm com vários dispositivos para evitar a violação. É um cuidado que visa exclusivamente a segurança dos consumidores. Quando falamos em fracionamento, ao abrir esta embalagem, a proteção se perderia e teríamos uma porta aberta para a proliferação de produtos falsificados ou roubados, e até com datas de validade adulteradas.

Saúde não é brincadeira, e o cidadão não pode ser tratado como cobaia de projetos políticos. Um governo que não consegue controlar nem se as farmácias sonegam ou não, nunca seria capaz de garantir a segurança de uma embalagem fracionada. Trata-se de mais uma política de saúde de baixo nível, tão comum no governo atual.

Se a idéia é diminuir gastos domésticos, eis nesta proposta um absurdo, uma falta de conhecimento dos fundamentos econômicos. Remédios de má qualidade ou de qualidade duvidosa no mercado só prejudicarão tratamentos, causarão perda de dinheiro aos cidadãos e ao Sistema Único de Saúde, que terá em suas filas casos graves que poderiam ter sido resolvidos numa fase primária com a medicação adequada e segura.

Se a proposta é evitar a automedicação, também não é dessa forma populista. O que necessitamos é de uma política de saúde que contemple o respeito ao cidadão, e com o SUS cumprindo com seu objetivo. Mais uma vez estamos diante de uma situação dantesca, criada por um governo também dantesco - está com dor de cabeça, corte o pescoço.

O autor, Antonio Carlos Lopes, é professor titular da disciplina de Clínica Médica da Unifesp/EPM e presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

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