Jair Marques de Oliveira foi encontrado já sem vida, ontem pela manhã, numa moradia improvisada construída sob o viaduto do trevo André de Glois Montoro, no Jardim Santana, em Bauru. Quem o encontrou atrás de um sofá foi o lavador de carros Marcos César dos Santos. Ambos moravam no local improvisado. O caso foi registrado no plantão da Polícia Civil como morte suspeita.
Segundo o boletim de ocorrência, não havia qualquer documento da vítima no endereço. Seu nome foi declinado por um transeunte. De acordo com Santos, Jair sofria de cirrose. O quadro de saúde teria piorado na sexta-feira retrasada. Por conta da doença, a vítima permaneceu internada por um período. Há cerca de quatro meses, no entanto, fugiu do hospital em virtude do medo de uma eventual lavagem intestinal.
Com fortes dores abdominais, teria agonizado antes de morrer. Antes, porém, Santos informou ter acionado o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em diversas ocasiões. Garante nunca ter sido atendido. “Nós ligávamos, mas informavam que não tinha viatura. Nós o deixávamos sentado em cima do viaduto, mas ninguém aparecia. No sábado, liguei do posto de combustível e pedi uma viatura rapidinho. Disseram que lá não era pizzaria e desligaram na cara”, conta Santos.
Ainda segundo ele, anteontem, Jair chegou a gritar de dor. Vomitava e evacuava, quase não conseguia se locomover. “Na madrugada, vi que ele estava tentando andar e falei para ele ficar quietinho. Hoje pela manhã, quando acordei, ele já estava duro. Avisei a família dele, que mora na Vila Cardia. Fizeram pouco caso porque somos do pontilhão, somos discriminados. Se é atendimento público, é para todos. Fiquei horas esperando o Samu chegar, não apareceu ninguém”, diz o lavador de carros.
Outro lado
A informação é repudiada por José Eduardo Passos, coordenador do Samu em Bauru. Ele conferiu a gravação da conversa da solicitação de socorro para Oliveira e analisou o relatório. Explica que a viatura esteve no local das 24h32 às 24h42 de anteontem e não encontrou ninguém. Como a viatura não pode parar por questão de segurança, ficou nas imediações com o giroflex ligado. A chamada chegou às 23h38 e partiu de um telefone público. Tentaram, então, contato pelo mesmo número utilizado, mas ninguém atendeu.
A viatura só não se deslocou antes porque atendia um paciente em crise convulsiva. Após levá-lo ao Pronto-Socorro, foi higienizada pois a pessoa vomitou. “Não houve outro chamado de retorno. Seguimos o padrão do Ministério da Saúde”, comenta o médico. De acordo com ele, no mesmo horário, o Samu recebeu entre dez e 15 chamadas, simultaneamente. Com as informações passadas pelo solicitante, o médico regulador classifica o risco e estabelece prioridade.
Passos ainda informa ter recebido outro chamado para atender Oliveira apenas na última quinta-feira, às 15h57. Mas ele também não foi localizado na ocasião, como ocorreu em outras oportunidades. “Nosso atendimento não se norteia pelo quadro social”, comenta. O coordenador do Samu ressalta que grande parte das pessoas atendidas pelo serviço tem baixo poder aquisitivo. Por essa razão, está mais sujeita a intercorrências na área da saúde.
“Se fosse negligência, imprudência ou imperícia da equipe, eu seria o primeiro a imputar qualquer julgamento. E iria até o fim. Mas não é. Infelizmente, foi uma fatalidade. Não gostamos de perder paciente. Ficamos todos muito chateados”, conclui o médico do Samu.
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Delegacia
Dois homens que acionaram a Polícia Militar para comunicar a morte de Jair Marques de Oliveira foram levados ao plantão da Polícia Civil, onde permaneceram detidos. Marcos Cesar dos Santos e Paulo Carvalho tinham mandado de prisão em regime aberto. No entanto, como não compareceram à audiência de advertência, seriam apresentados ontem à tarde ao juiz. O caso foi registrado como captura de procurado.