Eu queria entender as pessoas. Não digo mais porque a cada dia que passa as vejo menos entendíveis. E tenho 81 anos de estrada, convivendo com gentes de todas as faixas etárias e sociais. Entendê-las? Difícil! Quando a gente pensa que uma pessoa é nossa amiga, de repente decepciona nos causando tristeza maior que a decepção. Muitas pessoas nos julgam o melhor amigo e as decepcionamos sem querer ou até “sem querer querendo”.
A gente vê na Tv, lê nos jornais e revistas, pessoas fazendo coisas tão esquisitas, tão absurdas, tão desumanas que nunca compreendemos porque as cometeram. Atino que nem elas sabem porque fazem essas coisas contrárias à natureza de gentes.
É incrível, pois não entendemos nem os filhos, como desejar com estranhos? É claro que amamos os filhos, respeitamos suas opiniões, questionam as nossas, e por eles enfrentamos qualquer dinossauro. Mesmo assim, como não os entendemos eles não nos sabem. Diacho! Tá cada vez mais difícil conhecer pessoas! Meus amigos fazem por me complicar. Cada dia um está diferente no jeito de respirar, olhar, falar, responder está mais sério ou rindo à toa. Pensei e cheguei à conclusão que também sou assim com eles.
Sei lá, mas nada sabendo de psi, imagino que nem terapeutas, psicólogos e psiquiatras, chegam lá no fundo das pessoas para descobri-las. Para mim, já passei por terapias, cada pessoa é um universo impenetrável. É um mistério para si mesma! Pelo menos me sinto assim. Não entendo minhas atitudes por impulso ou as minhas omissões. Às vezes me pego chorando sem me compreender. Escritor e poeta misterioso. De manhã escrevo sobre o encantamento e o amor, à tarde sobre a angústia e a dor e à noite sobre a morte e meus fantasmas. Essa ordem é invertida todos os dias! Dá pra entender? Nem eu nem ninguém!
As pessoas são como a vida e a morte: incompreensíveis, misteriosas, sem respostas, luz e sombras impenetráveis sob a máscara que lhes esconde a personalidade e o caráter.
Pessoas são más por vontade própria, influências humanas ou espirituais? Pessoas boas nasceram para ser corretas ou porque temem contrariar os Mandamentos de Deus e as leis dos homens? E as egoístas? O egoísmo nas pessoas justifica a podridão em cada uma? E as pessoas ingratas? Como diz o meu amigo Severino, “arre égua!”. Pois é.
Tento entender as pessoas e cada dia me descubro mais cego e mais surdo.
“Conhece-te a ti mesmo”, disse o filósofo Sócrates entre os anos 470/339 antes de Cristo.
Dia desses, ao me barbear, vi um estranho no espelho. Não consegui me ver por dentro e descobrir o mistério que sou, mesmo tendo percorrido, durante 81 anos, a estrada onde caí e me levantei não sei quantas vezes, dos meus amores e das minhas dores, das tristezas e alegrias, dos meus erros e acertos, dos meus fantasmas e das minhas realidades.
Serei “outra?”.
“Como é por dentro outra pessoa / Quem é que o saberá sonhar? / A alma de outrem é outro universo / Com que não há comunicação possível, / Com que não há verdadeiro entendimento”. (Fernando Pessoa.)
Posso afirmar a única coisa que talvez entenda em mim. Procuro mais amar do que ocupar o coração de alguém. A emoção que a pessoa sente ao amar é, lembrando Bilac, estar sempre entre as estrelas: / E eu vos direi “Amai para entendê-las, / Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas”. “Arre!” (Severino da Paraíba).
Munir Zalaf - escritor, poeta, palestrante e presidente da Academia Bauruense de Letras - ABL