Cultura

Escritores debatem consumo de drogas

Por Karla Beraldo | Enviada especial a Paraty
| Tempo de leitura: 2 min

Guilherme Fiuza foi quem dividiu com o jornalista britânico Misha Glenny a oitava mesa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em função do cancelamento da participação de Caco Barcellos, por razões pessoais. Embora fosse aparente a decepção de todos ao saber da ausência do autor, o público lotou as tendas para assistir o escritor de “Meu Nome Não é Johnny”, livro que ganhou repercussão internacional com sua adaptação para o cinema.

Com o tema “Os Fuzis”, os convidados debateram, principalmente, questões relacionadas ao tráfico e ao consumo de drogas. Lançado recentemente, o livro de Glenny, “McMáfia”, percorre a rede mundial de corrupção que reúne, entre outros, os narcotraficantes no Brasil, a escravidão sexual em Israel e o alto escalão de políticos nos Estados Unidos. “O que precisamos é discutir o crime organizado de maneira adulta e não embarcar na pura e simples repressão”, defendeu o autor.

Diante da temática polêmica, Fiuza foi quem mais instigou a platéia com suas opiniões. Para o jornalista, a maneira opressora como a taxação de usuários como financiadores da violência urbana, não seria o caminho de combate ao consumo de drogas. “A mensagem pode até ser boa, mas não vai surtir efeito, em grande escala, em pessoas cuja maioria não tem condições dessa tomada de consciência”, apontou.

Questionado sobre sua aparente condescendência diante aos usuários de entorpecentes ao narrar a história de João Guilherme Estrella, o escritor esclarece que juízos de valor não estão partes integrantes do livro. “Não vou ficar julgando a personagem ao longo da narrativa. Eu sou jornalista, não militante. O que parece passar a mão na cabeça do dependente é, na verdade, correr o risco de tentar ser realista e tematizar o usuário sem certos estereótipos existentes”, explicou Fiuza.

O jornalista, que faz questão de esclarecer que “Meu Nome não é Johnny” não é uma narrativa sobre tráfico, e sim, sobre um drama pessoal, diz ainda existir muitos tabus que, muitas vezes, impedem que o tema seja tratado, por exemplo, sob uma perspectiva mais humana. “No caso do Johnny, as pessoas ainda vêem com muito preconceito e tem dificuldade em aceitar dramas da classe média. Como só fosse passível de compreensão quem passa fome”, completou.

O autor aproveitou ainda para comentar o longa “Tropa de Elite”. Para ele, a melhor contribuição do filme foi a maneira como resgatou a instituição da polícia. “Apesar dos excessos, o policial foi mostrado como servidor da sociedade”, avalia. “O longa errou, porém, em generalizar o usuário como financiador do crime e indivíduo sem caráter”, concluiu.

Depois de uma hora e quinze minutos de bom debate, Fiuza correspondeu ao que foi dito no início do debate: substituiu Barcellos à altura recompensando o peso de 560 páginas de “Abusado” carregado inutilmente pelas ruelas de pedra de Paraty à espera de uma dedicatória do autor. Fica para a próxima.

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