Cultura

Sobre Mundos: Nina

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Nina é uma jovem de profunda sensibilidade que procura meios para sobreviver em uma metrópole movida pela sociedade de consumo. Infelizmente, a jovem encontra guarida no apartamento de dona Eulália, uma velha mesquinha e exploradora. A senhora, aos poucos, sufoca a liberdade de sua inquilina fragilizando sua mente e fazendo com que Nina perca a noção entre fantasia e realidade.

Assim, a jovem Nina, através dos desenhos que faz em toda parte e a agitada cena cosmopolita de São Paulo, mergulha em um universo fantástico de seu subconsciente até acabar envolvida em um crime. A relação entre Nina e dona Eulália é a expressão metafórica da relação entre o indivíduo e o sistema econômico que o obriga a fazer o que não deseja, a ser o que não gosta, a fugir da realidade frustrante para fantasias que nem sempre são entretenimentos sadios. “Nina”, o interessante filme de Heitor Dhalia, nos introduz em um rico universo estético e filosófico que nos faz refletir sobre a impossibilidade de atos que venham realmente a nos realizar em nossa essência.

A partir do momento que estamos na existência não possuímos alternativa senão o ato de fazer alguma coisa. A palavra “ato”, do latim actus, possui como significado o conteúdo, a essência do existir humano: o feito, a atividade, a ação que dá forma ao nosso viver. O ato é imprescindível ao existir, pois mesmo que queiramos ser inativos, a nossa própria decisão ou impossibilidade de não fazer nada se constitui em um ato humano. Qualquer alternativa de vida molda a realidade e transfere a ela um determinado conteúdo.

Nós somos, em nosso universo, pura potência, ou seja, uma energia capaz de alterar a constelação a nossa volta. Aristóteles dava o nome à realidade de energeia, palavra que pode ser traduzida em português como “execução”. Para o filósofo grego, a realidade é o resultado de uma execução, em outras palavras, o universo é uma construção de nossas ações. Estas, porém, podem ser desejáveis, planejadas, forçadas ou espontâneas. Independentemente de sua origem, o ato, consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário, será sempre a construção de nossa realidade. Diante do fato de que somos a energia que dá origem ao nosso cosmos individual, familiar e social, nós, seres humanos, possuímos o desafio constante de conduzir através da razão a dinâmica entre o ato, a execução, o fazer e a potência, a capacidade e a vontade.

Em outras palavras, o desafio do ser humano é possuir uma ação que represente sua vontade e possa realizá-lo como pessoa. Todo ato está intimamente ligado à “potência”, ou seja, a todo conteúdo que está no interior do ser humano: capacidade, aptidão, vontade de realização. Por esta razão, é necessário que o ser humano se autoconheça. Através de um processo de autoconhecimento podemos descobrir o que realmente desejamos e do que somos realmente capazes. Como também se faz necessário que o ser humano tente a concretização de sua consciência, de seus sonhos. Para a filosofia moderna, o ato humano completo se constitui na ação intencional de um sujeito sobre o mundo.

Na fenomenologia de Husserl, o ato é o momento de um acontecimento intencional e com um objetivo definido e significativo para a formação de um objeto. Sem dúvida alguma, às vezes em nossa vida somos obrigados a realizar atos contra a nossa vontade e, muitas vezes, sem termos a capacidade necessária. Mas a satisfação de viver torna-se maior quando podemos descobrir do que realmente somos capazes e para onde queremos conduzir a nossa existência. Há pessoas que fazem, há pessoas que mandam fazer e sempre encontramos pessoas que apenas perguntam o que foi feito.

De qualquer forma, nós influenciamos em nosso universo; o importante é que esta influência seja consciente. Afinal, é esta consciência que nos distingue dos outros animais, que nos coloca como concretizadores de sonhos e que nos traz realmente a satisfação de viver. O importante é sempre tentar a realização destes sonhos. Afinal, eles já existem em uma realidade imaginativa. O que é necessário a partir daí é se pensar nas possibilidades de transportá-los para uma realidade física e social. Deixar que nossa potência e nossa vontade permaneçam inertes e sem realização é deixar de viver ou se tornar instrumento de realização do sonho de outros indivíduos. Pode ser que, na realização de nossa vontade, nem tudo se concretize como realmente desejamos, mas o simples fato de caminharmos para a sua realização nos oferece significado à nossa existência.

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