Bairros

O dois lados da saúde no município

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 4 min

Precisar de um atendimento em uma das Unidades de Saúde Básica (UBS) do município é complicado: filas, demora e reclamações integram o quadro constatado pela reportagem, que percorreu oito postos. Mas como toda regra – felizmente – tem a sua exceção, as unidades do Programa Saúde Família (PSF) salvam o atendimento. Nesses locais, além do serviço ser organizado, não há reclamação por parte dos moradores e a consulta é agendada para, no máximo, uma semana e aqueles casos que requerem urgência não ficam para o próximo dia.

Essa constatação positiva, no entanto, acaba por acentuar o lado negativo do sistema municipal de saúde. Principalmente quando se constata que a “batata quente” inclui também denúncias de mau atendimento por parte dos funcionários em algumas unidades e comércio de senhas nas filas de espera em busca de algumas desistências.

O caso mais grave foi observado pela reportagem na Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Ipiranga e não atinge somente os usuários, mas também os funcionários que trabalham. Há quase um ano, o posto está instalado de forma provisória em um prédio da Vila Independência.

A reforma da unidade, que deveria durar cerca de quatros meses, está parada e por isso nem funcionários nem usuários têm seu espaço. Como resultado, o atendimento aos pacientes é feito em qualquer lugar; os consultórios utilizados pelos médicos são minúsculos e possuem pouco mais de um metro quadrado.

No atendimento da assistência social, não existe privacidade alguma e duas profissionais atendem ao mesmo tempo as pessoas com os seus mais diversos problemas. Crianças fazem inalação no colo das mães sentadas em uma minúscula sala de espera. Além disso, a unidade possui dois banheiros: um para os funcionários e outro para usuários do sistema, o que faz com que homens e mulheres precisem dividir o mesmo local.

Os funcionários não falam nada, apesar de serem obrigados a se alimentar num “rancho” coberto por uma lona preta na área externa do prédio. O medo de perder o emprego é tanto que os servidores evitam até mesmo conversar sobre os problemas entre eles próprios.

Em outras unidades, como as localizadas no Jardim Redentor, Núcleo Centro e até no Pronto-Socorro Central, as filas e o sufoco em busca de atendimento são as principais reclamações. Neide Gal, usuária da unidade localizada no Redentor, se dizia cansada à reportagem, durante a madrugada da sexta-feira passada. “Ficar nesse sereno aqui, quem já está doente fica ainda mais”, reclama. “Tenho uma consulta para o início do mês, mas vim aqui atrás de uma desistência para adiantar o tratamento”, contava Edir Teresinha, no Núcleo de Saúde do Centro, que agendou sua consulta dois meses atrás.

Diferenças

Mas enquanto as unidades básicas deixam a desejar no atendimento, nos locais onde atuam as equipes de saúde da família a realidade é diferente. Nelas, o trabalho realizado é de prevenção. Não existem filas e o atendimento é agendado para, no máximo, uma semana, e casos de urgência têm prioridade em qualquer hora. No Posto de Saúde da Família (PSF) do Jardim Santa Edwirges, por exemplo, quatro equipes assistem cerca de 16 mil usuários.

Cristóvão Dionísio é um dos moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima que é atendido no local. “Não tem erro, foi a melhor coisa que podia acontecer aqui. Além da gente ser atendido, eles nos orientam quanto a evitar doenças como diabetes, hipertensão e tantas outras”, conta.

O médico Oswaldo de Carvalho se declara um apaixonado pelo sistema de atendimento do PSF. Responsável pela puericultura – para crianças de até 2 anos –, ele reprova o método curativo, que na sua visão é mais dispendioso. “Aqui a gente promove a saúde e os resultados aparecem, as pessoas vêm ao médico com intenção de prevenir as doenças”, define.

Natália de Oliveira, que levava o filho pequeno para o atendimento, aprova o método também. “Não importa quem seja o médico, aqui a gente é atendido sempre da melhor forma”, completa.

Apesar da experiência bem sucedida, Bauru conta apenas com sete equipes enquanto cidades menores chegam a ter duas ou três vezes mais equipes. Mário Ramos de Paula e Silva, secretário municipal de Saúde, rebate a quantidade pequena de equipes de saúde da família. “Quando eu assumi a pasta, nós tínhamos apenas uma equipe e hoje são sete atendendo cada uma cerca de 4 mil pessoas”, conta.

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Perigo

Depois de visitar e constatar a precariedade no atendimento da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Ipiranga, que “provisoriamente” funciona há cerca de um ano em prédio adaptado no Vila Independência, a reportagem do JC foi convidada por um morador para visitar um terreno baldio a 50 metros do posto. No local, dezenas de seringas sem uso haviam sido jogadas.

No local, um terreno às margens da quadra 9 da rua Guatemala, haviam dezenas de seringas abandonadas e a maior parte continuava na embalagem, inclusive com a agulha. As seringas utilizadas para aplicação de insulina pertenciam ao lote 326.771 e, de acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura, não foram adquiridas pelo município.

Alertado pela reportagem, o Departamento de Saúde Coletiva (DSC) esteve no local e recolheu as seringas, mas de acordo com o comunicado enviado pela assessoria de comunicação, foram encontradas apenas cinco seringas de insulina usadas e medicamentos com data de validade vencida, apesar da reportagem ter constados número de seringas superior.

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