Ele mais parece um recipiente para as experiências mirabolantes de algum cientista maluco, mas, aos poucos, vem ocupando espaço nas festinhas de república, mesas de bar e camarotes de casas noturnas. Trata-se do narguile, um cachimbo árabe que virou febre entre o público jovem da Capital paulista e já está se popularizando em Bauru.
Também chamado de narguilé, narguilê, arguile, hookah ou shisha, o narguile é um cachimbo à base de água utilizado com fumos embebidos em essências, que conferem sabor adocicado às baforadas. Difundido há milênios nos países do Sudeste Asiático e Oriente Médio, ele geralmente é utilizado em reuniões de amigos, durante um bate-papo e entre uma bebida e outra.
“O legal é quando a galera toda se reúne para usar junto. Sempre que tem festa em casa, a gente acende”, diz o estudante universitário Fábio Miizoki, 21 anos, que divide o mesmo teto com mais outros cinco colegas de faculdade.
Ele conta que nunca fumou cigarro e só comprou um narguile pelo gosto que ele deixa na boca depois da tragada. “Sei que o narguile faz tanto mal quanto o cigarro, por isso uso só de vez em quando. E a gente avisa o pessoal para pegar leve”, considera.
A consciência de Miizoki sobre os malefícios do uso indiscriminado do narguile é algo raro entre os usuários que, em sua maioria, acreditam no falso mito de que é esse um hábito que não vicia. A idéia também é disseminada nas casas que comercializam produtos advindos do Oriente, que estão lucrando como nunca.
“As vendas cresceram em 80% nos últimos 10 meses. E a grande maioria dos nossos clientes é de jovens, em torno dos 25 anos, e que não tem nenhuma ligação com a cultura árabe”, observa Paula Giovanna Ribeiro, sócia-proprietária de uma loja do ramo localizada na região central de Bauru.
Ela conta que, além dos narguiles, está investindo na variedade dos fumos aromatizados. “Tenho mais de 30 aromas diferentes, mas os mais vendidos são menta, chocomenta, Red Bull (energético), chiclete morango e capuccino”, revela.
Locação
Depois que saem das lojas, os narguiles ganham as ruas e os ambientes de convivência e confraternização da juventude. Conforme apurou a reportagem, pelo menos dois bares em Bauru oferecem serviço de locação de narguiles a seus clientes. Outros tantos permitem, após cobrança de uma taxa, que a moçada leve seus equipamentos de casa para serem utilizados no local.
Quem não tem um também pode encontrar aproximadamente 20 cachimbos diferentes disponíveis para locação em um bar estabelecido na quadra 31 da rua Antônio Alves, no Altos da Cidade, que cobra R$ 10,00 por hora de utilização do aparelho. A novidade, implementada há pouco mais de um mês, transformou o bar em ponto de encontro dos adeptos das baforadas perfumadas.
“No começo, tínhamos apenas cinco narguiles, mas a procura aumentou muito rápido e tivemos que comprar mais. Em pouco tempo, já está se tornando um hábito entre os nossos clientes”, comenta a gerente de marketing e eventos, Ana Carolina de Oliveira.
Já em outro estabelecimento localizado na quadra 1 da rua José Salmen, no Jardim Estoril, os narguiles são alugados desde o início de 2007, mas o número de aparelhos é limitado, devido ao sistema de ar condicionado instalado no local. “Mesmo tendo área para fumantes, nos preocupamos em não incomodar os demais clientes”, salienta o proprietário, Roberto Guilherme Oliveira. Ele explica que, até setembro, pretende inaugurar uma área externa ao bar que poderá acomodar pelo menos mais seis aparelhos.
O empresário Rodrigo Oliveira, 24 anos, constantemente se reúne no local com os amigos Carlos Zogheib, 22 anos, e Rogério Rossi Carneiro, 26 anos, para degustar os mais variados sabores de fumo, mas o de menta ainda é unanimidade entre os rapazes.
“As pessoas que ainda não conhecem o narguile direito preferem os sabores mais doces, como melão, duas maçãs e morango. Mas nós já usamos há quatro anos e cada um tem o seu. Sempre que possível, a gente se encontra para bater papo e fumar juntos”, afirma Oliveira.
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Clube do Narguile
A febre do uso do narguile ganhou tamanha força em Bauru que até mesmo um clube já foi “fundado” na cidade. Há dois anos, o empresário André Duarte reuniu, informalmente, um grupo de amigos que passaram a se encontrar com freqüência para apreciar o doce sabor das tragadas do aparelho.
Duarte conta que a idéia do Clube do Narguile surgiu naturalmente, pouco tempo depois de ele trazer seu primeiro equipamento de uma viagem a Brasília. “Levei o narguile a um churrasco com os amigos, a maioria gostou e começou a comprar o seu próprio. Como saíamos sempre juntos, surgiu a idéia de montar um clube”, resume.
“Lembro que, naquela época, era algo muito incomum. Quando a gente começava a montar o narguile em uma mesa de bar, todo mundo ficava olhando. Hoje, o pessoal já está mais acostumado”, avalia.
Atualmente, os membros se reúnem pelo menos uma vez por semana na casa de amigos, bares, boates e até mesmo na rua. “Nós colocamos o narguile no capô do carro e ficamos conversando. Quando saímos para a balada, em vez de água, colocamos vodca ou absinto. Mas o efeito no organismo é bem mais leve do que tomar a bebida”, frisa Duarte. Atualmente, o Clube do Narguile possui uma comunidade no site de relacionamentos Orkut que já conta com 34 integrantes.