Você pode estar achando estranho ver um assunto como esse - uma viagem de moto - em um caderno de Esportes. No entanto, para o universitário bauruense Alexandre Munhoz de Freitas viajar em duas rodas realmente é um esporte que ele pratica regularmente, colhendo os mais variados benefícios.
Um deles é o de realizar o sonho de visitar alguns dos principais pontos turísticos e arqueológicos da América do Sul, que, apesar de um grande atrativo, não foi o principal “combustível” que o impulsionou enquanto percorria sobre uma motocicleta, durante um mês, diferentes e escondidos rincões em quatro países. Experiências inesquecíveis, com aprendizado ímpar, segundo o viajante, estão acima de hotéis caros e locais badalados pela maioria dos turistas. A riqueza do continente, aos olhos do aventureiro, está em sua gente.
A aventura, com itinerário que ultrapassou a marca dos 10.600 quilômetros rodados entre o Centro-Oeste brasileiro e regiões interioranas do Peru, Bolívia e Argentina, teve como cenários e desafios a imensidão - e escancarada devastação - da Floresta Amazônica, o frio e imponência da Cordilheira dos Andes, a beleza e o mistério das ruínas de Macchu Picchu e até os intrigantes geógrifos de Nasca, encravados em meio à vastidão do deserto de Atacama.
O roteiro, apesar de aludir ao percorrido, em 1952, pelos então libertários estudantes argentinos Ernesto Guevara de la Serna - que, anos mais tarde se tornaria o líder revolucionário Che Guevara -, e Alberto Granado, saga contada no filme “Diários de Motocicleta”, tem uma diferença capital: foi percorrido ao contrário, ou seja, ao invés de iniciar a viagem pelo Sul do continente, como fizeram os célebres argentinos, o bauruense se embrenhou pelo interior brasileiro para, em seguida, cair na estrada rumo a desconhecidos e pitorescos lugares dos países vizinhos.
Esse tipo de viagem não é inédito para Alexandre, que já cruzou o Chile e recortou o litoral brasileiro, retornando a Bauru pelo interior do País, além de outras viagens. Sempre montado em uma moto. Da “porta de casa”, pela rodovia Marechal Rondon (SP-300), o aventureiro rumou aos Estados da região Centro-Oeste, onde satisfez a antiga curiosidade de conhecer o ponto que representa o centro geodésico do continente. Cravado em Cuiabá, um obelisco, com aproximadamente vinte metros de altura, aponta, com exatidão, a eqüidistância entre os oceanos Atlântico e Pacífico, ao lado da Chapada dos Guimarães.
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Bem-vindo ao Brasil
Do centro da América do Sul, o bauruense de 26 anos, estudante de Geografia da Universidade do Sagrado Coração (USC), acelerou a robusta Yamaha XT- 660 rumo à região norte e continuou o “descobrimento do Brasil” pelos Estados de Rondônia e Acre, onde o cotidiano entre os “povos da floresta”, constatou o viajante, é longe de ser harmonioso.
“A concentração de corrupção é grande, desde o tráfico de drogas, contrabando de armas e comércio de madeira ilegal”, enumera Alexandre, que diz ter testemunhado a tensa atmosfera entre índios, madeireiros, narcotraficantes e contrabandistas de fronteira. “Esses problemas, pouco divulgados pela mídia na real dimensão, ocorrem numa região de tríplice fronteira, entre Brasil, Peru e Bolívia, onde está situada a maior concentração de plantações de coca no mundo. Policiais federais comentaram, em Rondônia, que a região passa por situações à beira de conflitos, parecidos com o que foram as revoluções de Canudos ou Farroupilha”, compara o universitário, enfatizando a relação conturbada entre população indígena e madeireiros, onde a ausência do Estado, testemunha o viajante, é ainda mais latente do que no restante do País.
E abandono, comenta o motociclista, é o que não falta quando o visitante se depara com a antiga estrada de ferro Madeira-Mamoré, em Porto Velho. Na capital rondoniense, a “Mad Maria”, conta Alexandre, está entregue ao descaso. “Algumas instalações foram restauradas para a minisérie da Rede Globo (exibida em 2005). Com o fim da série, quando o Estado deveria fazer a sua parte, tudo foi abandonado novamente”, lamenta o viajante, revelando que trilhos e composições da antiga “Ferrovia do Diabo” agora pertencem às “trevas” da prostituição e consumo de drogas.
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Da selva à pedra
Um dos chamarizes para sair do País pela região norte, comenta o viajante, foi a oportunidade de rodar os 2.600 quilômetros da estrada “Interoceânica” (trecho brasileiro conhecido por BR-317), que liga o Brasil ao Peru. Partindo da capital do Acre, ele foi até Assis Brasil, pequena cidade que faz divisa com a peruana Iñapari e Colija, no lado boliviano da fronteira tripla. Foi na fronteira peruana que o motociclista começou a comer poeira.
Alexandre conta que, cruzada a linha entre Brasil e Peru, a transição da floresta para a Cordilheira é feita sobre chão de terra batida e cascalho. “É uma estrada parecida com a Transamazônica”, compara o aventureiro. “A rota tem bastante pedra e é marcada pela travessia de diversos rios”, detalha o motociclista, afirmando que a voraz devastação da Amazônia é companheira quase onipresente até completada a transição entre selva e montanha, já em território peruano. “Pelo caminho são comuns enormes troncos de árvores cortadas. São grandes espaços, com cerca de dez quilômetros em cada margem, compostos por pastagem e pouquíssimas cabeças de gado”, lamenta.
O encontro com os quase intransponíveis paredões da Cordilheira dos Andes fascinaram e, ao mesmo tempo, geraram maior cautela junto ao motociclista bauruense. “É uma rodovia em obras constantes. Tive de aguardar horas para rodar trechos pequenos. Nesse ponto já é possível observar picos nevados. Passar pela cordilheira e observar lhamas correndo é uma incrível oportunidade, que jamais ocorreria num passeio de agência de turismo”, entusiasma-se.
O frio é um obstáculo a mais para quem se habilita a serpentear uma das maiores cadeias de montanhas do mundo a bordo de uma motocicleta. “É preciso ter muito cuidado ao cruzar rios, que não são poucos pela Interoceânica. A baixa temperatura, aliada à umidade nos pés, é risco de congelamento”, explica Alexandre. “Caso o viajante molhe os pés, é bom que ele pare para secar a roupa”, aconselha.
Os solavancos enfrentados pelo caminho, onde postos de combustíveis são raros, reforçam o caráter de “rali” entre os viajantes. “Perdi o baú da moto. Ferramentas, caixa de primeiros socorros, tênis, roupas de frio e mapas, ficaram para trás”, conta o motociclista, obrigado a comprar novos utensílios de viagem somente em Cuzco, última parada da desafiadora rota internacional.
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A cidade dos Incas
Cuzco é o hall de entrada para a trilha rumo às ruínas de Macchu Picchu, a “cidade perdida” dos Incas. Após substituir os utensílios que ficaram pelo caminho, o viajante aproveitou para desfrutar dos pontos históricos, além de descansar antes de subir de trem até a antiga cidadela, descoberta, em 1912, pelo arqueólogo norte-americano Hiram Binghan. Incrustada em meio à cordilheira, a 2.400 metros de altitude, e “protegida” pelas nuvens, Macchu Picchu, que na língua “quechua” significa “montanha velha”, foi declarada patrimônio cultural da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco), em 1983.
A relevância histórica das ruínas, entretanto, sob a ótica do aventureiro bauruense, acaba, se ainda não ofuscada, em segundo plano perante à “Meca” turística em que se transformou nas últimas décadas, abarrotada de visitantes oriundos dos quatro cantos do globo atraídos por agências de viagens. “É um sonho realizado. Mas, por ter se tornado um local muito turístico, ‘apequenou-se’ em comparação à vida como ela é”, opina o bauruense, descrevendo que, modismos a parte, as ruínas da cidadela erguida pelos incas no século XV, antes da chegada dos europeus ao continente americano, ainda fascinam.
“O que ainda impressiona é a maneira em que a cidade foi construída, a tecnologia utilizada na época”, comenta o estudante de geografia, que cita a perfeita simetria entre os rústicos blocos de pedra que consistiam as paredes das edificações, bem como mecanismos inexistentes em muitas partes do mundo em pleno século XXI. Ele cita uma pedra, em meio às ruínas, que marca com exatidão os quatro pontos cardeais. “Você pode conferir com bússola e GPS que a marcação da pedra é exata, perfeita”, ressalta. Construções alusivas aos solstícios, divisão da cidade em segmentos (agricultura, urbanismo e recreações), observatórios astronômicos e prevenção contra abalos sísmicos, também encantam os visitantes sedentos por história, conhecimento e mistério.
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Balança mas não cai
De volta à estrada, o bauruense enfrenta novamente a poeira e às mudanças na paisagem, rumo ao norte do deserto de Atacama, para visitar outro destino há tempos almejado pelo motociclista, os intrigantes geógrifos de Nazca, gigantescas figuras desenhadas no solo pelas antigas civilizações.
“Além de Nazca, ponto turístico mais famoso, também existem gravuras descobertas mais recentemente em Palpa e que, geologicamente, seriam mais antigas”, acentua o universitário, que sobrevoou a região à bordo de um “confiável” teco-teco. “Os passeios aéreos são comuns na região. Basta juntar um pequeno grupo, com quatro pessoas, para contratar piloto e aeronave. O monomotor é seguro”, atesta. “Um durepox aqui, um arame ali. Não é nada de outro mundo não”, brinca.
No solo, figuras com até 300 metros de comprimento intrigam estudiosos e mexem com o imaginário. Segundo o viajante, arqueólogos explicam que as gravuras serviriam tanto como calendários quanto como forma de oferenda aos deuses da antiga civilização Nazca (anterior aos incas). Os geógrifos, comenta o motociclista, apesar de situados no norte do deserto de Atacama, remetem a um cenário que começa a ser descoberto no Brasil.
Com a devastação da Amazônia, explica o estudante de geografia, gravuras semelhantes começam a ser notadas no Estado do Acre. “Não há divulgação e ainda não existe estudo científico. Existe uma certa deficiência quanto a esse tipo de pesquisa no Brasil, principalmente nessa região”, avalia.
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Aventura gastronômica
Rumo à Bolívia, o bauruense acelerou novamente Cordilheira acima para atravessar, sobre balsa, o lago “Titicaca”. Porém, antes de chegar ao mais alto lago navegável do planeta - está em uma altitude superior a 3.500 metros -, o motociclista percorreu um caminho repleto de nuances típicas do Terceiro Mundo, numa autêntica “aventura gastronômica”. “Passei a noite numa cidadezinha chamada Moquegua, onde jantei frango com batata frita junto a uma sopa de miúdo de boi”, detalha. Alexandre só não contava com as “peculiaridades sanitárias” do estabelecimento: “O mesmo cidadão que trabalhava no caixa pôs o frango na churrasqueira”, diverte-se.
O caminho em direção à fronteira do Peru com a Bolívia é marcado pelo vazio e novas mudanças bruscas, tanto no relevo quanto na temperatura. “Você sai do nível do mar e vai para 3 mil metros, atravessando rios congelados”, recorda o viajante, que conviveu, nessa parte do percurso, com pastores de lhamas, ovelhas e com a incômoda ausência de postos de combustíveis, suprida com um tanque adjacente, com capacidade para cinco litros de gasolina, além dos 15 acomodados pelo compartimento principal. “Nesse trecho tive que rodar à noite no deserto, num cenário consistido apenas por mim, minha moto, a estrada e as estrelas”, descreve.
Na fronteira, o método de trabalho, no mínimo contraditório, dos guardas aduaneiros peruanos causou um pequeno “mal entendido”. Após cruzar o território peruano, Alexandre foi informado por um fiscal de fronteira que necessitava do carimbo da aduana anterior, quando saía do Brasil. “Vinte dólares resolveram a questão”, resume o aventureiro, que atravessou o Titicaca rumo à Copacabana.
Diferente do badalado e homônimo bairro carioca, a “princesinha” do Titicaca tem apenas oito mil habitantes, num cenário bem distinto. “É um mercado a céu aberto com carnes penduradas sem refrigeração. Numa rusticidade total, os vendedores espantam os mosquitos para cortar a carne. A poucos metros, você vê um cara com uma carriola, que carrega um porco com o cérebro aberto”, detalha.