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Lixo é espelho


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Diga-me o que jogas - e como jogas - e eu te direi quem és! Aí está Shakespeare me inspirando a refletir sobre o quanto a nossa lata de lixo reflete o nosso estilo de vida. Vasculhar o lixo de alguém significa investigar o rastro de sua existência cotidiana. Em cenas de filmes americanos, é comum a situação em que policiais mexem o lixo das vítimas e dos suspeitos em busca de provas do crime ou traços da conduta do investigado. Também já assisti um filme nacional em que, a personagem romântica, remexia o lixo do solteirão vizinho, para levantar potenciais informações sobre sua personalidade e assim sofisticar o seu plano de sedução. Olhe no seu lixo e repare bem: você está lá dentro! Um verdadeiro quebra-cabeças, composto por restos, dão indícios de vários atributos de sua personalidade, sua classe social, seus hábitos alimentares, suas preferências em termos de marcas, seu perfil de consumo e principalmente, sua conduta em prol do meio ambiente.

Analisando a lata em que você descarta seus dejetos, podemos classificar sua postura ambiental, ou seja, o nível de preocupação que você realmente tem com as concretas indicações de que o meio ambiente não suporta mais o descaso humano. O lixo é um reflexo da nossa consciência e a prova material do nosso papel como cidadãos éticos. Observando lixo orgânico misturado com resíduo reciclável podemos definir o dono da lata como ambientalmente irresponsável. Não há mais desculpa plausível para tal ação danosa, principalmente levando em conta o alarde diário que a mídia faz sobre os problemas decorrentes da falta de respeito com a natureza e os programas de coleta seletiva, cada vez mais abundantes e disponíveis para recepcionar os recicláveis separados. Se encontramos dejetos perigosos e tóxicos, como pilhas, baterias e lâmpadas fluorescentes, a análise revela um assustador perfil de descaso com o perigo imposto sobre a saúde e vida alheias. Já é mais do que sabido o quanto esses itens podem contaminar a pele, o solo, a água e o ar. Diante de resíduos eletrônicos, abandonados ao léu, pensamos quão fútil seria seu proprietário ao ponto de não doar tais elementos a entidades carentes. Fica assim registrado o traço marcante do consumismo que só age no afã de substituir a tecnologia por novidades, sem a preocupação da destinação correta dos bens usados, ainda valiosos para muita gente.

Quando encontramos saquinhos biodegradáveis contendo resíduos separados por natureza - papel, metal, vidro e plástico - a opinião que formamos sobre o proprietário é imediatamente positiva. Mais ainda quando encontramos todo esse conteúdo devidamente depositado em tambores coloridos, tampados e limpos.

Essa imagem remete a atributos superiores como: consciência, respeito, ética, sensibilidade, responsabilidade e inteligência. Uma percepção que contagia profundamente a nossa impressão sobre o proprietário. Mas podemos ampliar a análise, verificando a importância que os proprietários de estabelecimentos de comércio, escritórios e indústrias, dão ao seu entorno. Antes de olhar dentro dos latões de lixo, o consumidor é um passante que constantemente rastreia a cidade analisando visualmente as marcas pela tangível aparência de seus prédios e fachadas. E assim verificamos nas cidades um amplo espectro de situações que vão desde o descaso total com os resíduos gerados, até a organização exemplar e destinação correta dos sub-produtos. Quem caminha pelas calçadas percebe as empresas que têm essa louvável preocupação e lamenta por aquelas que ainda não despertaram para o fato de que o lixo é uma extensão do negócio e uma condição altamente perceptível pelos consumidores, cada vez mais exigentes de posturas socialmente responsáveis.

Não fica bem para o negócio, deixar a calçada frontal do seu espaço, suja e invadida por restos de resíduos. Também não cai bem não fazer a separação do lixo, evidenciando despreocupação com os impactos gerados no dia a dia. Em uma análise mais ampla, é todo entorno que faz a diferença, pois ainda há atitudes condenáveis como o simples atravessar de rua para depositar o mal-resolvido lixão ou, ainda, fingir que não percebe o acúmulo de caixas, embalagens, papéis, restos de matéria prima, vasilhames, materiais de propaganda e insumos não deterioráveis, usados pela empresa, pelos funcionários e também por seus clientes. É preciso repensar no lixo e no impacto que os nossos restos estão gerando no mundo. Não podemos nos esquecer de que a vigília em prol da sustentabilidade tem se tornado permanente, principalmente por parte das crianças e dos cidadãos bem informados.

Varrer o lixo para baixo do tapete não cola mais e a sociedade progrediu muito depois daquela época em que a única regra de conduta ambiental que tínhamos era não jogar casca de banana na rua. Quem sabe das coisas faz do lixo a sua melhor propaganda.

A autora, Luciana Gonçalves, é profissional de telecomunicações e ambientalista

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