Nacional

Menino de 3 anos morre em tiroteio

Por Sergio Torres, Leandro Fortino e Luisa Belchior | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Rio - Metralhado na nuca durante uma operação policial, João Roberto Amorim Soares, 3 anos, morreu ontem à tarde no Hospital Copa D’Or (zona sul do Rio). Os policiais são acusados de disparar pelo menos 16 tiros no carro da família do menino na noite de domingo.

Dois soldados do 6.º Batalhão (Tijuca, zona norte) foram presos. Eles alegam que trocavam tiros com ladrões de um Fiat Stilo preto, a quem perseguiam, e negaram ter atirado em direção ao carro em que estava o menino João Roberto. “Foi uma ação desastrosa, que demonstrou falta de preparo psicológico e operacional”, afirmou o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. “É inerente à função policial ter rapidez para discernir como agir no caso”, declarou.

A versão dos PMs de tiroteio é contestada por testemunhas ouvidas no local (rua General Espírito Santo Cardoso, em frente ao imóvel 399, na Tijuca) e pela mãe da vítima, Alessandra Amorim Soares. Ela disse ao marido, o motorista de táxi Paulo Roberto Soares, que os policiais atiraram no carro que ela dirigia, um Palio Weekend grafite, assim que encostou na calçada.

De acordo com o relato da mãe, um carro preto passou por ela em alta velocidade quando se aproximava do prédio em que vive a família. Em seguida, ainda segundo ela disse ao marido, ao ouvir a sirene policial, deduziu que havia uma perseguição e tratou de dar passagem à patrulha da PM. Foi quando os policiais começaram a disparar contra o carro dela, que tem os vidros cobertos por película escura. No banco de trás, estavam os irmãos João Roberto, que no próximo dia 29 faria 4 anos, e Vinícius, 9 meses.

Mesmo ferida por estilhaços na barriga e pernas, Alessandra abriu a janela e jogou no chão a bolsa infantil que carregava, para mostrar aos PMs que conduzia crianças. Os policiais ainda gritaram para ela: “Cadê o bandido? Cadê o bandido?”. Foi quando ela saltou do Palio, abriu a porta traseira, pegou o corpo do primogênito, estendeu-o no chão e repetiu para os policiais, duas vezes: “Vocês mataram meu filho”, de acordo com o relato feito ao marido. Testemunhas, que pediram que sua identidade seja preservada, contaram que os dois policiais botaram as mãos na cabeça quando descobriram ter atacado uma família.

Indignado com a versão de que houve troca de tiros entre os PMs e os assaltantes, o pai desabafava com os amigos e parentes que procuravam confortá-lo: “É mentira! É mentira!”. Soares definia os PMs envolvidos na morte do filho como “assassinos despreparados”. O menino foi socorrido pela ambulância do Corpo de Bombeiros, que o levou ao pronto-socorro mais próximo, o do Hospital do Andaraí. Seu estado era gravíssimo. A mãe também foi medicada dos ferimentos sem gravidade que sofrera. O caçula escapou ileso dos tiros. Após uma cirurgia craniana para a retirada de sangue que se acumulara, João Roberto foi transferido para o Copa D’Or, onde, ainda de madrugada, seu coração parou por 25 minutos.

O chefe da pediatria do Copa D’Or, Arnaldo Prata, disse que os médicos conseguiram ressuscitar o menino, mas exames neurológicos realizados de manhã e à tarde registraram a morte cerebral. Às 16h30, morreu. À tarde, o hospital informou que os pais concordaram com a doação de órgãos.

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Para pai, tiros partiram de policiais

Rio - De folga aos domingos, o taxista Paulo Roberto Barbosa Soares, 45 anos, decidiu trabalhar anteontem para tentar o dinheiro extra com que pretendia pagar a festa do primogênito João Roberto, que no próximo dia 29 completaria quatro anos. Pouco antes das 19h30, ele viu o carro onde seguiam os dois PMs acusados de matar o menino.

“Eles estavam indo de encontro para matar meu filho. Para minha família é que eles estavam indo de encontro”, repetia ele, em meio ao choro, em desabafo de manhã em frente ao hospital Copa D’Or, onde acabara de ser informado da morte cerebral do filho.

Ele contou que passava pela rua Conde de Bonfim, uma das principais da Tijuca, “quando passou (...) uma patrulhinha”.

“Os caras estavam com a porta aberta, o fuzil para o lado de fora. Pareciam que estavam num filme (...), queriam se mostrar. A passageira ainda falou: ‘Moço, está acontecendo alguma coisa’. Falei: ‘Minha senhora, esta cidade que a gente vive... Estou doido para sair daqui’.”

Minutos depois, ele recebeu um telefonema desesperado da mulher Alessandra, advogada e funcionária da Justiça. No local, ferida, Alessandra contou que vira um carro preto passar veloz e ouvira a sirene do carro policial, em perseguição. Ao encostar para dar passagem, seu carro virou alvo de disparos por parte dos PMs, disse ela, conforme o marido.

“Eles não perseguiram os bandidos. Fecharam o carro da minha família e metralharam o carro com uma mulher e duas crianças dentro. Uma criança de 9 meses e outra criança de 4 (anos). Sendo que essa criança de 4 tomou um tiro na cabeça e está morta lá em cima, não tem mais chance, gente.”

Aos gritos, Soares chamou os PMs de “assassinos despreparados”.

“Eles metralharam o carro da minha mulher, metralharam na maior covardia, não deram chance de defesa. Ela jogou a bolsa da criança pela janela, para chamar a atenção que tinha criança dentro do carro, e eles continuaram. Não tiveram piedade. Que polícia é essa?”

Amparado por parentes e colegas da cooperativa de táxis Grajaú Service, onde trabalha há oito anos, lamentou que ninguém do governo Sérgio Cabral (PMDB) o procurou para “dar uma desculpa pela crueldade que fizeram com minha família.”

“Meu filho está lá em cima com morte cerebral, não tem mais escapatória...! E eles vêm dizer para mim que houve troca de tiros. Cadê o outro carro? Tanto tiro não pegou no outro carro? Mentira, não tem hombridade para dizer que errou.”

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